A controvérsia do filme sobre Emily Brontë

Emily marca a estréia da atriz Frances O’Connor (Mansfield Park) na cadeira de diretora e já ganhou destaque pela controvérsia. É porque no filme, a reclusa autora de O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë, teria vivido um romance com um assistente de seu pai, William Weightman, um jovem de apenas 25 anos que viveu com a família por alguns anos. Não há nenhuma evidência de que a relação tenha acontecido de verdade. “Eu não queria fazer uma verdadeira biografia simples”, disse Frances em uma entrevista.

“Eu não estava realmente interessada em fazer isso como uma história porque queria conectar o filme com O Morro dos Ventos Uivantes. Eu queria olhar para uma jovem descobrindo quem ela é. Por causa disso, eu apenas deixei a narrativa fazer o que ela queria fazer e era isso que ela queria,” justifica.


É, portanto, mais uma obra de ficção histórica, com liberdades criativas sem base factual para imaginar uma versão da vida de alguém que está biografando. O curioso é que Weightman realmente existiu, era realmente bonito e viveu com a família Brontë enquanto trabalhava na paróquia local, mas, a história o aponta como interesse romântico de outra irmã, Anne, em vez de Emily. Isso mesmo, ela teria pensado nele para criar a personagem Edward Weston, de Agnes Gray.

Biógrafos são unânimes em descrever que houve pelo menos uma relação platônica dos dois, depois que Anne retornou a Haworth, após um trabalho frustrado como governanta, e conheceu William Weightman, o novo pároco de seu pai, Patrick Brontë, na igreja de St. Michael and All Angels, em Haworth. Weightman, que era de Appleby, Westmorland, chegou em agosto de 1839, depois de se formar com um mestrado em Artes pela recém-criada Universidade de Durham.



A entrada de Weightman na casa dos Brontë substituindo um assistente anterior, William Hodgson, que havia partido repentinamente, em 1837. Antes dos dois, Patrick Brontë teve um problema quando outro assistente, Arthur Bell Nicholls, ousou pedir a mão de sua filha Charlotte. Diferentemente dos antecessores, Weightman se deu bem com Patrick e passou a ser visto até como um filho. Na convivência com o rapaz, Anne escreveu vários poemas que sugerem sua atração entre os dois, sustentado pelo comentário de Charlotte, anos depois, que sua amiga Ellen Nussey teria testemunhado trocas de olhares entre eles. Ajuda a reforçar essa versão porque na obra mais famosa de Anne, Agnes Gray, a protagonista (Agnes) se apaixona por poesia inspirada por um pároco.

Além da casa dos Brontë, Weightman também era muito popular entre os aldeões de Haworth. Sua alegria levou a alguns historiadores a retratá-lo como paquerador e insincero, um rumor indiretamente alimentado por Charlotte que se arrependeu depois de descobrir o lado carinhoso do assistente. Segundo ela contou depois, uma noite o viu retornar ao Presbitério parecendo triste e cansado, alegando ao pai das escritoras que estava desanimado porque acabara de ver uma pobre jovem que estava morrendo. Essa menina, Susan Bland, era uma das alunas da escola dominical de Charlotte e ela descobriu que Weightman não apenas visitara Susan antes de morrer, como também tinha ajudado a família com mantimentos.



A morte repentina de Weightman, de cólera, três semanas depois de visitar um paroquiano doente, teria interrompido o que os fãs de Anne imaginavam ser um possível final feliz. Ela escreveu um poema de despedida, Farewell, supostamente para Weightman.

Adeus a ti! mas não adeus
Para todos os meus pensamentos mais afetuosos de ti:
Dentro do meu coração eles ainda habitarão;
E eles me animarão e me consolarão.
Ó, bela e cheia de graça!
Se você nunca tivesse encontrado meus olhos,
Eu não tinha sonhado um rosto vivo
Poderia encantos imaginados até agora superar

Se eu nunca mais vir
Essa forma e rosto tão queridos para mim,
Nem ouço tua voz, ainda assim eu gostaria
Preservar, sim, sua memória.

Essa voz, a magia de cujo tom
Pode acordar um eco no meu peito,
Criando sentimentos que, sozinhos,
Pode fazer meu espírito em transe abençoar.

Aquele olho risonho, cujo raio de sol
Minha memória não teria menos valor; —
E ah, esse sorriso! cujo brilho alegre
Nem linguagem mortal pode expressar

Adeus, mas deixe-me apreciar, ainda,
A esperança da qual não posso me separar.
O desprezo pode ferir, e a frieza esfriar,
Mas ainda permanece no meu coração.

E quem pode dizer, mas o céu, finalmente,
Pode responder a todas as minhas mil orações,
E lance o futuro pagar o passado
Com alegria por angústia, sorrisos por lágrimas?

Não há nada – até o filme Emily – que sugerisse que em vez de Anne, fosse Emily a Brontë que tivesse despertado algum sentimento no pároco. Em Haworth há uma placa em homenagem a Weightman, dentro da paróquia, em reconhecimento a sua dedicação à comunidade.

Em Emily, o ator Oliver Jackson-Cohen interpreta o pároco e a atriz Emma Mackey, Emily. Frances O’Connor não se preocupa com as críticas históricas. No trailer, vemos que todas as histórias conhecidas sobre eles estão com outro contexto. Como uma jovem não vivida, tímida e reclusa poderia ter escrito algo tão denso como O Morro dos Ventos Uivantes se não o tivesse de alguma forma sonhado?

“Ela é um mistério, sabemos tão pouco sobre ela”, disse a diretora sobre a autora de um dos maiores clássicos da literatuda. “Você pode sentir quem ela era através do romance”, completou.

E podemos imaginar também.

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