A sombra de Diane de Poitiers sobre Catarina de Medici

A beleza de Diane de Poitiers é uma das mais famosas na História da França. Igualmente famoso foi seu relacionamento com o príncipe Henry II, que em uma grande virada do destino, virou Rei da França e fez de Diane, a mulher mais poderosa do maior reinado de sua época. Rival de Catarina de Medici, Diane foi efetivamente Rainha e sua história será importante em A Rainha Serpente, onde será interpretada por Ludivine Sagnier, portanto vale relembrá-la.

Diane nasceu em uma família rica e parte da nobreza, educada dentro dos princípios do humanismo renascentista que incluiam estudar grego e latim, retórica, etiqueta, finanças, direito e arquitetura. Além disso, muito alta para os padrões da época (em torno de 1m80), era atenta à dieta restrita e gostava de esporte, sendo uma atleta afiada, montando e nadando regularmente, se mantendo magra e saudável.

Quando ainda menina, fez parte da comitiva da princesa Anne de Beaujeu, irmã mais velha do rei Carlos VIII, no período em que foi regente, mas, aos 15 anos, Diana foi negociada em casamento com um homem 39 anos mais velho, o Conde Louis de Brézé, com quem teve duas filhas e vivia com luxo. O marido era mal-humorado, severo e feio, mas admirado por sua coragem como soldado e tinha sangue real, sendo filho de Charlotte de Brézé , filha do Rei Carlos VII com sua amante, Agnes Sorel .

Diane vivia no castelo do marido, Anet, na Normandia, perto de Paris. Uns dizem que o local já era mal-assombrado (a mãe de Louis foi vítima de feminicidio, tendo sido assassinada a facadas no mesmo quarto que agora era o do casal, depois de ter sido encontrada na cama com o amante), mas a Condessa fez o melhor que pôde para transformar o local em um castelo habitável.

Como Louis vivia em batalhas, ele levou a jovem esposa à corte de François I, onde serviu como dama de companhia da mãe do rei, Louise de Savoy, e mais tarde, da rainha Claude de France, seguida da rainha Eleanor da Áustria. Durante esse período, Diane ficou associada a um escândalo pois seu pai estava envolvido em na trama de Charles de Bourbon contra o rei François e foi preso por traição.

O grande inimigo de François I era o imperador espanhol Carlos V, e em uma de suas derrotas, foi feito prisioneiro, fazendo um acordo para “trocar” de lugar com seus filhos. Essa decisão marcaria e traumatizaria a vida do pequeno Henry, que ficou depressivo com a prisão em um país estrangeiro logo após da morte de sua mãe, Rainha Claude. No dia da troca, Diane, que convivia com os meninos por conta de seu papel como acompanhante da Rainha, se penalizou da tristeza do pequeno príncipe, se despedindo dele com um beijo. Henry, quase 20 anos mais novo, se apaixonou perdidamente e definitivamente ali. Um fato que nenhum historiador jamais questionou. Uma história de amor destinada a tristeza e tragédia.

A ironia do destino é incrível. Ytês anos depois, sem nem desconfiar de que o menino de 10 anos já estava perdidamente apaixonado François I decidiu acertar seu casamento. Henry, como segundo filho, tinha pouca chance de ser Rei. Seu irmão mais velho já estava casado com Mary Stuart, da Escócia e sendo treinado para função. Ainda assim, sua posição tinha valor e seu pai combinou com o papa Clemente VII que o príncipe se casaria com Catarina de Médici, sobrinha do líder religioso. Sabe onde tudo foi acertado? No castelo de Anet, casa de Louis de Brézé e Diane de Poitiers.

Nesse mesmo ano, 1531, Diane conseguiu a liberdade máxima feminina de sua época: ficou viúva. Tinha apenas 30 anos, era rica e independente, mas, para não ser forçada a um novo casamento, criou a imagem da viúva dedicada, se vestindo apenas preto e branco para o resto de sua vida. Em 1533, esteve no casamento de Henry II e Catarina de Medicis (como veremos na série). Com apenas 16 anos, ele já tinha a mulher de seus sonhos no seu coração (Diane) e se casar com a menos bonita Catarina não o fez mudar de decisão. Biógrafos colocam o início do romance dos dois por volta de 1536, quando Henry II voltou a sorrir, portanto diante de uma apaixonada e frustrada Catarina.

Naturalmente, pela idade e vivência, a ascendência de Diane sobre Henry era absoluta. Tudo se complicou quando de repente ele passou a ser o herdeiro da Coroa, depois da morte de seu irmão. O romance que seria inconsequente, passou a ter forte relevância política. Dessa forma, uns vêem Diane como inescrepulosa e manipuladora e outros, como dedicada e fiel ao amante. Seja como for, quando Henry II passou a ser Rei, ela era Rainha em tudo, menos no papel.

Todo tempo livre de Henry II era passado com a amante (com quem teve um filho). Ele seguia todos os conselhos de Diane, fosse na leitura, exercícios ou decisões políticas. Sua personalidade calma, diplomática e prática era oposta a da temperamental Catarina, aumentando o afastamento do casal. É fato também de que Catarina viu os amantes juntos (através de um buraco na parede), ficando desesperada ao confirmar que a relação física e intelectual dos dois era inabalável.

A humilhação de Catarina passou a ser total depois de que – 10 anos sem filhos e sem relações com o marido – foi com a interferência de Diane que Henry II se submeteu a “cumprir seu papel de marido”, engravidando finalmente a esposa oficial. Até então, a italiana fez literalmente de tudo para reverter a situação, apelando para preces e magias. Toda energia inútil diante de Diane.

Depois do primeiro filho, em 1543, Catarina viria a ter nove outros ao longo de 13 anos. Isso porque Diane forçava Henry a manter relações com a esposa. Grávida com essa frequência,a. já não magra Catarina ficou ainda “pior”, contrastando com a sempre esbelta amante do marido. Se ador não fosse suficiente, os filhos de Catarina eram praticamente criados por Diane. Ela testemunhou tudo isso em silêncio.

Naturalmente como a preferida do rei, Diane foi ganhando títulos, jóias e dinheiro, mais do que os outros, gerando muita fofoca e ciúme. Sua devoção cega ao Catolicismo, em um período religioso conturbado, não a fez muito popular em alguns países e regiões, até porque ela defendia a execução dos que considerava “hereges”.

Henry II era apaixonado por Diane, mas não exatamente fiel. Seu romance com Mary Flemming, uma das acompanhantes de Mary Stuart, gerou um filho e a surpreendente união de Catarina com sua principal rival, demandando que a nova amante fosse exilada da corte. Diane e Catarina conseguiram o que queriam.

Se ninguém questiona que Diane de Poitiers foi o único amor na vida de Henry II as cartas que ele deixou para ela fazem questão de confirmar. “Lembre-se daquele que nunca amou, ou jamais amará, outra senão você”, escreveu. O lindo castelo de Chenonceau, que vai estar em A Rainha Serpente, foi um “presente” do rei para Diane e até hoje é considerado um dos mais belos do mundo. (Ironicamente, a Princesa Diana e Príncipe Charles visitaram o local, em 1988, solidificando a complicada dinâmica do castelo. Infelizmente nesse caso, a Diana era a esposa traída).

Com a trágica e sangrenta morte Henry II, logo após seu aniversário de 40 anos, na festa de casamento de sua filha com o Rei da Espanha, a vida de Diane mudou radicalmente. Se antecipou para fugir da ira de Catarina, que nem permitiu uma despedida entre os amantes. Depois de 23 anos de submissão, ela era agora Rainha e a mulher mais poderosa da França. Tomou de volta as jóias e o castelo de Chenonceau. Diane ficou em Anet, discreta, longe da Corte e fazendo caridade. Morreu aos 66 anos, rica e cercada de suas filhas.

Catarina de Médicis entrou para história unanimanente como tirana e fanática, mas Diane, embora com defeitos e motivações questionáveis, é até hoje o símbolo de beleza e um amor que desafiou todas regras da sociedade. Uma das maiores e mais românticas histórias do século 16. Inesquecível.

A ver sua interpretação em A Rainha Serpente.

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