A surpresa na biografia de Tanaquil LeClercq

A triste história de uma bailarina que, no auge de sua carreira, aos 27 anos, perde os movimentos de suas pernas é absolutamente tocante. Tanaquil LeClercq era a musa do gênio George Balanchine, descoberta por ele ainda criança, sua esposa quando ficou adulta e uma lenda no ballet clássico. Porém foi uma virada trágica do destino, que fala muito com a gente em tempos pandêmicos, que mudou a trajetória de uma das que seriam as maiores. Tanny nunca chegou aos estrelato estratosférico porque foi contaminada pelo vírus da polio, em uma viagem à Europa em tempos de pandemia, e ficou paralítica. Já postei sobre ela aqui várias vezes. Hoje, no dia da bailarina, falo de sua biografia, Dancing Past the Light: The Life of Tanaquil LeClerc, que ainda não foi traduzido para o português.

A autora, Orel Protopescu também era impactada pelo pouco que sabíamos, sempre satélite em histórias de outros, em especial, a de George Balanchine e decidiu embarcar numa pesquisa sobre a reclusa e menos conhecida história da bailarina, que além de perder a habilidade de fazer o que amava, dançar, com o tempo Tanny também viu o marido se apaixonar por novas bailarinas e – em especial Suzanne Farrell – e passou por mais essa dor.


O resultado é fascinante. Com detalhadas histórias e relatos de amigos próximos da bailarina, conhecemos sua força, suas dificuldades, seus humores, vitórias e derrotas como poucas biografias conseguem. Orel é encantada por Tanny, e assim ficamos igualmente. É uma inspiradora história de superação, empenho e sim, resignação. E também é, em mais de uma vez, uma história de amor. Não necessariamente com Balanchine, mas com outro gênio da dança, Jerome Robbins.


Tanny e Jerry se conheceram como partners na companhia de dança de Balanchine e o triângulo amoroso de dois dos maiores e influentes coreógrafos do século 20, apaixonados pela mesma bailarina, poderia gerar muito conteúdo romântico. Tanny escolheu Balanchine (“um caso de que ele chegou primeiro”, ela disse a Jerome Robbins), mas o amor e amizade que manteve com Robbins até o fim de suas vidas é o que é a alma dessa biografia. Uma paixão intelectual, platônica (e possivelmente carnal em algum momento), é emocionante acompanhar as cartas e altos e baixos de duas pessoas tão conectadas como os dois. Particularmente não esperava essa descoberta e me faz olhar para o trabalho de Jerome Robbins com outra perspectiva.


A personalidade de Tanaquil, tão forte quanto sua dança, faz de seu processo de adaptação à vida de cadeirante uma leitura complexa como ela. Sua dor de estar presa à uma cadeira em uma sociedade que não é inclusiva ainda hoje, é até incômoda ao reviver a época. Uma pessoa criativa e independente que passa a ter que ser cuidada, uma artista que está confinada mas que ainda assim se inspira, que segue vivendo e se recusa a vitimizar. Incrível. escreveu livros, deu aulas mesmo sem poder andar. Superação a cada página.

Para quem pode ler em inglês, a recomendação não é pouca. É um lindo livro. Uma história que realmente merecia ser contada e registrada. Tendo lido a biografia de Balanchine antes, agora vou me debruçar na de Jerome Robbins.

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