Jamais houve outra como Isadora Duncan

Mesmo se você não gosta de ballet, ou dança em geral, já deve ter ouvido o nome de Isadora Duncan. A americana, moderna até hoje, criou o que chamamos de dança contemporânea, quebrando as amarras do ballet clássico e possibilitando uma liberdade criativa que até hoje é disruptiva. Ela dizia querer “redescobrir os belos e rítmicos movimentos do corpo humano”. E conseguiu. No dia 14 de setembro completam 95 anos de sua morte, em Nice, enforcada acidentalmente quando o lenço de seu pescoço enroscou na roda do carro. Uma despedida inacreditável para uma mulher que mudou o mundo.

Isadora Duncan definiu o que chamamos de alma livre. Qualquer restrição – comportamental ou física – era abominada e rejeitada por ela desde sempre. Nascida em São Francisco, era rica até que seus pais se divorciassem, quando passaram a ter dificuldades. Só estudou até os 10 anos, quando deixou de frequentar a escola porque era “constrangedor”. Para ajudar nas contas de casa, Isadora e Elizabeth ensinavam dança para as crianças locais, sendo que já demonstrando o que viria ser seu legado, a dançarina não se restringia à barra ou passos clássicos, mas encorajava improvisos e fantasias, ou, como dizia, dançando “qualquer coisa bonita que viesse à [sua] cabeça”.

Arte parecia ser a vocação de Isadora, que amava movimento, mas quando aos 19 anos entrou para companhia de teatro de Augustin Daly, em Nova York, logo se desiludiu. Sonhava com um ambiente diferente, com menos hierarquia e diferente das pantominas populares da época. Liberdade sempre foi seu oxigênio.

Com essa sede de encontrar espaço e algo novo, se mudou para Londres onde se apresentava nas casas de ricos e nobres. Sua inspiração vinha das figuras de baixo-relevos gregas, que via nos museus. Não demorou muito tempo para ter dinheiro suficiente para alugar seu próprio estúdio e suas apresentações passaram para teatros, onde tinha espaço para suas performances. Isadora rapidamente ficou famosa na Europa, em especial, na França por conta de sua técnica inovadora e ousada.

Sem sapatilhas (dançava descalça), meias ou tutus, a americana enfatizava movimentos naturais, um contraste de 180o da escola tradicional do ballet. Para ela, dança era uma expressão sagrada, jamais puramente entretenimento. A emoção comandava os passos, não a técnica. Seus movimentos imitavam a arte grega clássica assim como danças folclóricas e sociais, e até atletismo, porque suas coreografias alternavam pulos, corridas e piruetas, com braços estendidos e a cabeça erguida. Nada dos passos en dehors do ballet, nada de plié ou ponta esticada. A beleza estava no naturalismo do gesto. Mais ainda, defendia que cada movimento estava conectado, um nascia do que o precedia, assim como levava ao próximo de forma orgânica, jamais calculada ou ensaiada. Sem dúvida alguma, ela criou a dança moderna.

“Passei longos dias e noites no estúdio procurando aquela dança que poderia ser a expressão divina do espírito humano através o meio do movimento do corpo.”dizia ela.

Além dos movimentos, Isadora inovou também na moda. Para ter a liberdade corporal que defendia, suas roupas eram em geral uma túnica imitando as roupas gregas brancas. Sensual, livre e etérea. O público ia à loucura.

Mas Isadora Duncan tinha uma missão de vida. Dentro de sua filosofia, as apresentações e turnês a afastavam das escolas que abriu para repassar sua visão. A primeira, na Alemanha, virou o que chavam do berço das “Isadoráveis” que continuariam seu legado. A segunda, em Paris, fo fechada quando começou a Guerra. Por isso a bailarina acabou voltando para seu país, onde se estabeleceu em Nova York.

Com uma cabeça tão diferente, logo Isadora se mostrou simpatizante do movimento comunista e ao chegar na União Soviética, em 1921, fundou uma escola em Moscou. Poucos anos depois, se desentendo com o governo soviético que não apoiou seu trabalho como prometido, voltou para Europa, junto com seu marido, o poeta Sergei Yesenin, 18 anos mais novo que ela. (O casamento durou pouco e Sergei cmeteria suicídio apenas 2 anos depois).

A vida pessoal de Isadora era tão libertária como sua dança. Teve três filhos sem se casar, um escândalo para a época. A tragédia parecia cercá-la, em especial com acidentes de carro. Ela perdeu seus filhos quando o carro que os levava caiu no Sena e todos morreram afogados. Já nos anos 1920s Isadora era fluida, se relacionando com homens e mulheres abertamente.

As perdas acabaram contribuindo para um processo de depressão e o excesso de consumo de álcool. Seus últimos anos, vivendo na França, acumulou dívidas e perdeu público. Para ganhar dinheiro, aceitou com muita vergonha e revolta, escrever sua autobiografia, My Life, que foi publicada logo aoós a sua morte, em 1927.

A morte de Isadora foi tão inesperada que até hoje é uma das mais comentadas, mesmo 95 anos depois. Na noite de 14 de setembro de 1927, em Nice, França, a bailarina saiu para jantar com a amiga, Mary Desti e quando saíram do restaurante, estava frio. Mary queria que Isadora usasse uma capa, mas a artista insistiu em ficar apenas com o longo cachecol de seda, pintado à mão pelo artista russo Roman Chatov, um presente que recebeu da própria Mary. Enrolou parte no pescoço e deixou o resto esvoaçante, como gostava. Antes de entrar no carro conversível que a esperava, se despediu dizendo “Adieu, mes amis. Je vais à la gloire!” (“Adeus, meus amigos. Vou para a glória!”), embora alguns tenham dito que na verdade falou que teria dito “Je vais à l’amour” (“Estou indo para o amor”), aludindo que em seguida iria dormir com o motorista que a acompanhava, Benoît Falchetto. em seguida foi tudo muito rápido.

Ao dar partida e sair com o carro, o lenço de seda, que estava pendurado em volta do pescoço de Isadora, se enroscou nas rodas de trás. Mary Desti ainda gritou para avisar, mas foi tarde demais. Com a força do arranque, Isadora foi puxada com violência e quebrou o pescoço. Ainda foi levada para o hospital, mas morreu na hora.

As notícias sobre o acidente variaram desde dizer que Isadora foi puxada para fora do carro, tendo morrido no impacto com o chão até quase ter sido decapitada. A imagem de que justamente um tecido solto tenha contribuído para sua morte foi muito ressalatada desde então. ISadora Duncan foi cremada e suas cinzas espalhadas nos túmulos de seus filhos, em Paris, onde há uma lápide com seu nome e o título de Escola École du Ballet de l’Opéra de Paris (“Escola de Ballet da Ópera de Paris”).

Vários balés e peças foram feitos em sua homenagem, mas no cinema a versão mais famosa é o filme de 1968, Isadora, estrelado por Vanessa Redgrave e dirigido por Karel Reisz (também dirigiu A Mulher do Tenente Francês). Vanessa, que lembra fisicamente Isadora, chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor atriz pelo papel.

A verdade é que quase 100 anos depois, Isadora Duncan segue moderna e o símbolo de liberdade de espírito. Uma prova de que é uma Deusa, seu nome atípico para época comprova. De origem grega, Isidora ou Isadora é a versão feminina da composição de palavras que forma Isidoro – Ísis (a deusa) e dōron (um presente de) – ou seja, um presente de Ísis. A deusa associada à vida, renascimento e magia de cura, assim como educadora e protetora. Acima de tudo, era a Deusa que tinha poder sobre o próprio destino. Nada mais perfeito não? Para coroar, em tempos atuais, para línguas hispâncias o nome de Isadora é ligado à crianças com muitas idéias. A missão de Isadora Duncan foi mais do que cumprida.

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