As peças se movimentam em House of the Dragon

No próximo episódio de House of the Dragon chegaremos à metade da primeira temporada e nos despedimos das duas atrizes que tiveram maior projeção até o momento, Emily Carey (Alicent) e Milly Alcock (Rhaenyra). Isso mesmo, no 6º episódio, vai pular nada menos do que 10 anos na história e nos deixar de cara com o conflito que é o coração da trama: a guerra civil entre os Targaryens.

Como compartilhei, vazou no Reddit como está esquematizado os fatos relatados no livro Fogo e Sangue, e se comprovou verdadeiro. Para quem leu a obra, sabe que a série tem sido efetiva em se manter fiel à história, assim como trouxe profundidade e outra perspectiva para o lado dos Verdes, que são minimamente dúbios ao ignorarem (aparentemente) a ordem sucessória e trazendo caos para Westeros. Em outras palavras? Tem sido sensacional.

No livro, Rhaenyra e Alicent tinham uma diferença de idade que as fazia amigáveis, mas não íntimas. Portanto, quando os fatores que as separam começam a imperar, não parece tão “repentino”. A série focou nos efeitos da sociedade misógina separando duas amigas, com papéis e expectativas sendo puxados para lados opostos, sempre pela motivação masculina. O que faz com que as reações de ambas não seja forçosamente errado ou certo.

Alicent Hightower é carinhosamente tratada como uma peça de xadrez para sua família. Ela aceita essa realidade que praticamente a prostitui e a mantém em uma gaiola de luxo. De dentro dessa prisão, seu papel é de progenitora e apoiadora, de total submissão. Para piorar, Alicent tem uma natureza doce, conciliadora que é manipulada por seu pai, Otto Hightower, para alcançar a meta de sua Casa: o de (praticamente) tirar dos Targaryens o Iron Throne. Como fazer isso? Quebrando a tradição incestuosa e inserindo sangue dos Hightowers na ordem sucessória. Através de Alicent, Otto consegue esse importante avanço, mas a vitória só virá ao eliminar qualquer ameaça de Targeryens que possam atrasar ou tirar os Hightowers do poder absoluto.

A série deixa implícito de que Alicent concordou em participar do jogo até gerar os filhos para o rei, mas, diferentemente do livro, não forçou de cara nenhuma mudança radical para priorizar seus filhos. A ambição de Otto, tão perto do prêmio sonhado, acelerou o conflito sangrento que veremos no futuro, com total adesão de Alicent. O que será revelado no 5º episódio é como ela passa a ter a motivação para isso.

Alicent, por sua doçura e timidez, tem sido subestimada no jogo do trono, mas bons observadores percebem que ela tem sido efetiva em sua condução tanto com Rhaenyra como Viserys. Diferentemente do pai, ela não força a mão e não se opõe a ninguém abertamente. Faz o papel da conciliadora porque, nessa primeira etapa, era o que queria. Todos felizes, algo em comum que compartilhava com o marido. Porém, ao contrário de Viserys, ela não fraqueja em sua atitude.

Em tempo: julguei que a união de Viserys e Alicent até fosse de amor, dentro do possível. Errei. Na série ela é adequada porque os dois têm a ânsia conciliatória como guia moral, ambos são resignados aos papéis de cada um na sociedade e portanto fazem de tudo para evitar confronto. No entanto, Alicent não tem paixão, prazer ou liberdade, o que a faz 1º de automutilar (macucando suas mãos, metaforicamente atadas) e 2º, beber? Era um drink ou chá?

Sua fulgaz felicidade não está em cuidar dos filhos, ou estar com o marido nem mesmo com as outras mulheres da Corte. Ela gostava de estar com Rhaenyra, que tinha a vida que ela queria para si, com quem ficava lendo e vendo a vida passar. Ressentimentos vão tranformar o que era um amor fraterno (não sexual, como alguns viram) em ódio.

Já Rhaenyra jovem, na série, tem uma apresentação menos simpática do que no livro. Lembrando que os Verdes ganham o jogo (com preço igualmente de sentimento de derrota) e mais tarde ressaltam o pior da Princesa, aqui temos dificuldade de simpatizar com sua dor. O carisma de Milly Alcock compensa muito, mas é uma heroína muito falha.

Diferentemente de Alicent, a princípio parece que o sangue Targaryen de Rhaenyra a coloca em uma perspectiva mais elevada de poder. No entanto, a misoginia tira dela o direito de sonhar com a ordem sucessória pelo trono. Seu gênero a faz “perder” o que de outra forma seria seu e isso a frustra desde cedo. Seu pai a ama incondicionalmente, mas busca obcecadamente um filho homem, criando nela uma sensação de inadequação e uma frustração que para outras mulheres é difícil entender (menos para Rhaenys). Para piorar, os partos cada vez mais arriscados acabam por custar a vida de sua mãe, portanto Rhaenyra sabe qual é seu papel na sociedade, mas ao contrário de Alicent, tem conflitos internos sobre isso.

Mesmo compreendendo que foi a conveniente possibilidade de cortar as ambições de seu tio Daemon que trouxe para Rhaenyra a chance de quebrar padrões, ela se agarra ao gesto de unhas e dentes, o que Rhaenys a alerta ser perigoso. A essa altura, com um pai consumido pela culpa, a futura Rainha não deixa sua oportunidade mudar. Sua revolta é uma constante dor para Viserys, que odeia confronto e se sente em dívida com a filha. Essa conturbada relação fica ainda pior quando ele escolhe Alicent como esposa. Ao finalmente ter o filho homem que sonhava, ele e Rhaenyra ficam em um campo ainda mais delicado.

Depois de genuinamente tentar ganhar a confiança dos homens e de seu pai, de que poderia ser uma boa Rainha, Rhaenyra aos poucos vai ficando ainda mais alinhada com o complicado e inconstante tio, Daemon. Os dois, com sangue Targaryen mas papel secundário, sonham com protagonismo e vêem claramente como Viserys tem sido engolido pelas ambições dos Hightowers. “Protegida” pelo título e nome, ela passa a agir impulsivamente e se recusar a ser colocada de volta ao papel de reprodutora.

Ao agir como mimada, rancorosa e até inconsequente é uma reação de uma jovem acoada, isolada e sem perspectivas. Sem confiar em Alicent, Rhaneyra não tem uma figura feminina ao seu lado que possa guiá-la (e recusou a mentoria de Rhaenys). Ela perde precioso tempo de observação e até dissimulação. Muito inteligente, viu que a estratégia da Rainha Que Nunca Foi acabou ineficaz quando questionou a ordem das coisas, dentro das regras que definiam a anulação feminina. Portanto ela passa a acreditar em pouca coisa e praticamente em ninguém. A gente sabe que “um Targaryen sozinho no mundo é algo perigoso”. A definição se mantém perfeita.

As reações ao que é esperado de ambas coloca Alicent e Rhaenyra em rota de colisão. Será violento e complexo, porque nenhuma das duas a essa altura pode cobrar da outra respostas morais. Alicent omitiu para Rhaenyra que estava construindo um relacionamento com o pai da amiga, hoje seu marido e pai de seus filhos. Rhaenyra mentiu para ela sobre seu relacionamento com o rio e omitiu sua relação com Ser Criston Cole. Telhado de vidro para ambas. Quem vai mais uma vez provocar a cisão é Otto Hightower.

Otto tem total controle sobre sua filha e sabe que, mesmo lentamente, é o comando dele que rege os passos de Alicent. Ela “confortou” Viserys, usou as roupas que ele recomendou e passou a noite com o Rei quando foi preciso. Gerou imediatamente o filho homem e aceita os chamados para cama de Viserys assim que ele a “requisita”. No entanto, Otto a tem precionado para ser mais assertiva na mudança do jogo e Alicent tem sido evasiva. Com a demissão do pai do cargo de confiança, ela agora está exposta.

Viserys, que tinha fingindo não entender como as coisas andaram, tem ciência de que a esposa foi plantada em sua vida pela ambição dos Hightowers, porém também parece ver que ela tem uma bondade que os parentes não possuem. Ainda assim, não será uma relação de total confiança quando Alicent passar a pressioná-lo para defender seus filhos. Como veremos, as circunstâncias mudam a Rainha terá que entrar para o jogo.

Vimos uma alusão à esse conflito feminino em Game of Thrones, com menor desenvolvimento, mas quando Sansa Stark se opôs à Daenerys Targaryen. Sansa, que passa o pão que o Diabo amassou nas mãos de seus inimigos, reúne os elementos de Alicent e Rhaenyra. Assim como a princesa, suas ações inocentes e impensadas contribuíram para a dizimação de sua família. Vale uma análise à parte.

Por hora vai ser difícil dar adeus à Milly Alcock assim como para Emily Carey. O trabalho de ambas, de plantar essa semente para que apreciemos como Olivia Cooke e Emma D’Arcy sejam oponentes foi crucial. Estão de parabéns. Vão fazer falta.

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