A “verdade” de Catarina de Médicis em A Rainha Serpente

Antigamente a verdade era uma conclusão – em tese neutra – que juntava várias versões de um mesmo fato e destacava as que efetivamente pareciam ser “fatos”. Hoje em dia, com o controle das redes sociais, as pessoas tomaram posse da verdade – substituindo a palavra “versão” – e com isso quem for mais persuasivo consegue mudar a narrativa.

A regra se aplica com as revisões históricas, em especial das mulheres de destaque em uma sociedade milenar e universalmente machista. Em geral, as que se destacaram em campos masculinos, eram vistas como inescrepulosas, manipuladoras e simplesmente, cruéis. Catarina de Médici era um desses casos.

Catarina não foi “boazinha”, mas suas escolhas e atitudes têm a ver com sua sobrevivência à um universo violento do qual foi fruto e objeto em diferentes momentos. A série A Rainha Serpente traz Catarina compartilhando suas conclusões e nos convidando a refletir após ouvi-la, se poderia ter sido diferente. Ela não quer pena, nem mesmo simpatia, apenas ciência de como as coisas caminharam até onde foram. E tem sido uma viagem fascinante.

A empregada Nahima nos representa, pois ela é identificada por Catarina como uma potencial aliada e ao mesmo tempo que a ensina como sobreviver, humaniza sua própria história. Como vimos, a juventude de Catarina foi um pesadelo e sua chegada à França não se revelou melhor. Com um marido que não se sente atraído por ela, o desafio de ter filhos a coloca em uma posição vulnerável de ser “devolvida” (exceto que ninguém a quer).

Para piorar, mesmo acompanhada de um grupo que deveria ajudá-la, a futura rainha sempre está só e correndo risco de vida. Sua inimiga, a esperta Diane de Poitiers, se transforma temporariamente em uma aliada pois as duas correm o risco de substituição.

Se o drama de não engravidar ainda é o central de Catarina jovem (ela levou muitos anos sem conceber), a história avançou em densidade. Ela é forçada a trabalhar com Diane, a lidar com o cunhado e sacrificar algumas pessoas queridas para seguir viva. Tudo dentro de um contexto no qual ela nos coloca claro que ninguém poderia julgá-la ou fazer diferente.

A série é sensacional em muitas formas, e sim, figurinos e cenários seguem tirando nosso fôlego. A Catarina que narra sua vida de forma prática e fria é outra completamente diferente da jovem firme e esperta, porém apavorada constantemente. A parceria com Diane por hora nos dá outra visão da mulher que efetivamente sabia sobreviver. Ela não tem exatamente ciúme da italiana, mas também sobreviveu a abusos (inclusive sexuais) para se colocar à mercê de qualquer um. Ela agora é tão mentora de Catarina como de Henry, separadamente.

A timeline dupla não nos confunde, bravo para os roteiristas. A guerra interna de Catarina quando jovem foi mais dolorosa, mas a adulta segue atenta. Sua próxima inimiga? A nora, Mary Stuart. Maravilhosa!

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