Billie Jean: a verdadeira história do hit

O álbum Thriller, que em 2022 completou 40 anos, virou fenômeno depois que Michael Jackson conseguiu convencer a todos que a canção a ser trabalhada era a que ele escreveu sobre uma fã obcecada com ele. Isso mesmo, houve mesmo uma mulher que o perseguia e escrevia cartas sobre um filho que ela pensava ser dele. Na época, um jovem Michael evitava falar no assunto que contribuiu para uma maior perseguição de fotógrafos e repórteres e que o encorajou a se isolar ainda mais. A canção foi uma maneira de expressar seus sentimentos sem se dirigir a ela diretamente. Seu nome era Billie Jean.

Okay, a mulher não era mesmo chamada de Billie Jean, nunca foi dito seu verdadeiro nome, mas o assédio era muito real, tanto que o produtor Quincy Jones chegou a relatar que para o pânico do cantor, ela chegou a invadir a sua casa e foi encontrada na piscina com maiô e óculos escuros, como se fosse a proprietária. Mais do que um filho, ela acusava Michael de ser o pai de um de seus gêmeos, o que para os próximos era até engraçado. Quando relembrou o fato em sua autobiografia, Moonwalk, o cantor também mencionou que se dependesse de Quincy não teríamos Billie Jean. Quer dizer, o nome. O produtor queria mudar o título para “Not My Lover” porque o nome sugerido por Michael poderia ser confundido com a estrela do tênis, Billie Jean King, ultra popular na época. Sabemos quem venceu a batalha.

Na época em que a canção explodiu multiplicaram as mulheres alegando ser “Billie Jean”, levando ao astro a explicar explicitamente sobre ela. “Há uma garota chamada Billie Jean, mas não é sobre essa Billie Jean”, ele explicou na época e em sua biografia. “Billie Jean é meio anônima. Ela representa muitas garotas. Costumavam chamá-las de groupies nos anos 60. Elas ficavam nos bastidores e qualquer banda que viesse à cidade teriam um relacionamento com elas, e acho que escrevi isso por experiência com meus irmãos quando era pequeno. Havia muitas Billie Jeans por aí e garotas afirmavam que seu filho era de um dos meus irmãos”, disse.

Seja como for, Billie Jean nasceu para brilhar. A clássica linha do baixo, que é a base da canção, foi trabalhada por Michael por três semanas e toda faixa rítmica da música foi escrita na bateria eletrônica caseira. Os vocais foram criados e gravados de uma só vez. E se Quincy Jones quis mudar o nome da canção, também tentou mudar sua introdução. “Era tão longa que você poderia fazer a barba durante ela. Eu disse que tínhamos que chegar à melodia mais cedo… mas Michael disse que era isso que o fazia querer dançar. Quando Michael Jackson diz que algo o faz querer dançar, você não discute, então ele ganhou,” admitiu o produtor.

Se Billie Jean canta sobre obsessão ela também encontrou terreno fértil no próprio compositor. Em sua autobiografia ele relembrou vários incidentes durante as gravações e explicou que “um músico conhece o material de sucesso. Tem que parecer certo. Tudo tem que estar no lugar. Te preenche e faz você se sentir bem. Você sabe quando ouve. Foi assim que me senti sobre ‘Billie Jean.’ Eu sabia que ia ser grande enquanto eu estava escrevendo, eu estava realmente absorto naquela música”.

Os conflitos criativos com Quincy Jones, que trabalhou com Michael até o álbum Bad (quando romperam) não curaram com o tempo. Quase dez anos depois da morte do cantor, Quincy acusou Michael de ter plagiado um sucesso de Donna SummerState of Independence – para escrever Billie Jean. O hit da cantora é do mesmo ano do álbum Thriller, 1982 e foi produzido pelo mesmo Quincy Jones e contava com a participação do astro. “Michael roubou muitas coisas”, o produtor alegou em uma entrevista à Vulture. “Roubou muitas músicas. ‘State of Independence’ e ‘Billie Jean’. As notas não mentem, cara. Ele era tão maquiavélico quanto parece”, afirmou. Na mesma época o produtor entrou com uma ação acusando o espólio do Rei do Pop de reter royalties, pelos quais ganhou mais de 9 milhões de dólares na Justiça.

Apenas pelo que tocava em rádios, Billie Jean já seria um clássico, mas foi seu vídeo que mudou “tudo”. Literalmente. Inaugurado em 1981, o canal de música MTV não incluía muitos artistas negros e foi Michael Jackson que quebrou as barreiras raciais. Não foi o primeiro artista negro a fazer rotação regular na rede, mas constar entre os vídeos mais pedidos e rodados em toda programação, abrindo as portas para outros, incluindo o genial Prince.

A questão do racismo foi porque a programação do Canal seguia as regras de segregação das rádios, priorizando rock e músicas de artistas brancos. Se a MTV não passava vídeos de outras raças, as gravadoras tampouco investia nas produções de artistas de cor. Daí a relevância de Billie Jean, assim como a visão e insistência de Michael Jackson.

Em The Girl is Mine, Michael e Paul McCartney fizeram o tradicional roteiro da época, com imagens dos dois competindo em situações diversas, mas Billie Jean trazia ele solo – em estúdio – dançando. Parece trivial, mas foi inovador porque seus movimentos de dança eram sincronizados com a luz que pisava nos quadrados e foi precursor do videogame Dance Dance Revolution.

Dirigido por Steve Barron, que tinha trabalhado com Human League com Don’t You Want Me, o conceito original incluia um grupo de dançarinos, mas, por orçamento, simplificaram investiram na ideia de ter Michael com “um Toque de Midas” e os quadrados em pisava iluminando com sua passagem. Tudo gravado em um único dia e a sensação de fazer história. Mas mesmo com o peso do nome de Michael e a inovação, a MTV resistiu. Queria usar Beat It primeiro porque tinha outro artista branco ao lado do cantor (o guitarrista Eddie Van Halen), mas tanto Michael como a gravadora insistiram. E sim, Billie Jean já dominava as rádios, então o canal “cedeu”. Em poucas semanas era o vídeo mais rodado em toda MTV e quando lançou Beat It e Thriller, Michael Jackson viro a principal estrela de todo canal.

Tudo em Billie Jean é clássico. Ao apresentá-la ao vivo, Michael usava o look mais clássico de sua carreira (camiseta branca, blaser de paetê preto, chapéu e meias brilhantes) e apresentou o passo de break mais impressionante da época: o moonwalk. Ganhou o Grammy de 1983 de Melhor Performance Vocal de Rhythm & Blues e Melhor Canção de Rhythm & Blues. A canção foi regravada por artistas diversos, desde Caetano Veloso a Chris Cornell, configurando entre as mais queridas dos fãs do Rei do Pop.

E a Billie Jean verdadeira? Bom, seu nome é Lavon Powlis e sua história é o lado trágico de tudo. Segundo o biógrafo J. Randy Taraborrelli, ela chegou a ser internada em um hospital psiquiátrico, mas nunca desistiu de sua briga. Após a morte de Michael, em 2009, ela afirmou ser a mãe biológica do filho caçula dele, Blancket e pedia uma pensão estimada em bilhões de dólares. No entanto, a Justiça não encontrou “conexão biológica” e sugeriu que ela procurasse ajuda psiquiátrica. Nunca se soube se ouviu o conselho.

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