Tár: uma sinfonia de brilhantismo

A figura do Maestro, regendo cada nota e entrada de instrumento, sua batuta dando o ritmo de todo movimento e como, sem tocar um instrumento, é quem “faz” a música é uma metáfora muito usada em vários aspectos da vida, seja pessoal ou profissional. E assim como uma sinfonia, Tár é um filme de várias texturas e movimentos, sob a batuta precisa de Todd Field.

Todd, gosta de dramas densos, cinzentos e de viradas surpreendentes como Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos, onde seus protagonistas estão longe da perfeição de caráter. Assim como o filme no qual ele teve maior destaque como ator, De Olhos Bem Fechados (onde ele era o pianista que coloca a personagem de Tom Cruise na misteriosa festa de swing) a música conduz uma trama claustrofóbica, mas exata como as partituras.

Tár é a história da maestrina Lydia Tár, interpretada pela inigualável Cate Blanchett. Lydia é uma artista de temperamento forte (e difícil) e abertamente contrária à cultura dos millenials. Sua paixão pelo clássico, pela estrutura não é totalmente retrógrado pois sua maneira de abordar a partitura tem modernidade, mas ela está no auge de sua carreira, à frente da prestigiada Orquestra de Berlim e com uma vida perfeita. Nos bastidores vemos que suas atitudes pessoais estão arraigadas nos hábitos tóxicos que a juventude atual não tolera, mas como todos sob o holofote, ela também acaba sendo exposta à cultura do cancelamento, graças à segredos que escondia de todos ao seu redor.

Frases como “O narcisismo das pequenas diferenças leva ao mais enfadonho tipo de conformidade” e “o arquiteto da sua alma parece ser a mídia social” são ditas num tom passivo agressivo para um aluno, pavimentando a estrada que Lydia acredita não temer para si, mas que será implacável com ela. As duas primeiras longas sequências, a da entrevista à New Yorker e a aula em Julliard nos apresentam a Lydia Tár como ela se vê e se vende: uma mulher abertamente homossexual, passional, complexa e perfeccionista. É nessa aula na qual todas as armadilhas da história são anunciadas.

Em contraste com a entrevista, no qual ela se detém à música e a falar de seu mentor (o também complicado) Leonard Bernstein, temos uma Lydia inovadora e defensora do classicismo na veia. Na aula, confrontada por um aluno que renega Bach pelo que o homem foi, não sua música, vem a proposta do filme: é possível separar a Arte do artista? Lydia obviamente defende a tese, humilhando o aluno implacavelmente. Como tudo na vida, o que mais criticamos se volta contra nós mesmos. “Se o talento de Bach pode ser reduzido a seu gênero, país de origem, religião, sexualidade e assim por diante, então o seu também pode”, ela reclama. “Os músicos receberão folhas de classificação – cujo objetivo é avaliá-lo. Agora, que tipo de critério você espera que eles usem para fazer isso? Sua leitura de partituras e técnica de bastão, ou algo mais?”, ela pergunta, anunciando seu próprio problema futuro. Se ela tivesse se escutado.

Depois disso vamos vendo dois lados de Lydia. Sofisticada, distante e impiedosa, ela é casada, mas tem sempre um olho para flertar com jovens mulheres. Ela ignora os pedidos de sua assistente de resolver um problema com uma ex-pupila (e amante), cujo suicídio abala a maestrina porque ela não apenas teve um affair com a moça como passou a persegui-la e difama-la quando se separaram. Ela sabe que suas atitudes levaram a jovem a perder esperança de viver e os fantasmas literalmente começam a afligi-la.

A estrada da auto-destruição de Lydia Tár não nos pede nem apresenta simpatia, não há nenhum lado dela à parte de sua precisão musical que a faz ser empática. É sua surdez para as mudanças comportamentais do século 21 que aceleram a viagem para o cancelamento ultra público e irreversível. Mesmo com todos os alertas, Lydia não consegue se segurar e mudar, continua sua manipulação psicológica e sexual até que seus truques não apenas não funcionam mais como a deixam vulnerável. Ao final, quando ela perde o palco, vemos que ela jamais foi o que vendeu ser, nem mesmo seu nome é real. A conclusão, uma artista decadente regendo a partitura de um jogo onde a platéia é literalmente de monstros, é uma poesia incrível.

Cate Blanchett é a favorita do Oscar, ainda mais que Michelle Yeoh e não é nenhuma surpresa. Sua superioridade artística é flagrante em qualquer papel que faça, mas, em especial, o de Lydia Tár. Para gerações mais velhas, é o melhor conto de como é difícil, mas urgente, ouvir e se adaptar aos valores millenials para sobreviver. Um belo filme que merece mais prêmios do que apenas a atuação de sua estrela.

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