A escolha errada de Daenerys Targaryen

Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) era uma das mulheres mais bonitas de Westeros e Essos, e – após a morte de seu irmão Viserys III (Harry Lloyd)- passou a ser oficialmente a herdeira nata do Trono de Ferro, o que também a tornava muito atraente. Além disso, comandava exércitos e tinha três dragões, e lutava pelo fim da escravidão e abusos contra mulheres. Ainda assim, terminou seus dias com apenas único dragão vivo e foi assassinada por seu sobrinho-amante, Aegon VI (Jon Snow) (Kit Harington), antes mesmo de assumir a Coroa pela qual lutou toda sua vida. Em outras palavras: Daenerys colocou tudo a perder quando se apaixonou pelo homem errado. E não foi por falta de aviso ou opção. Talvez esse engano, que a faz tão humana e feminina, seja um dos segredos que mesmo seis anos após o fim de Game of Thrones seu séquito mundial ainda a defenda ferrenhamente.

A vida sentimental da princesa não tinha um mapa muito tranquilo, podemos reconhecer. Primeiro, pela tradição Targaryen, ela provavelmente teria se casado com seu detestável irmão mais velho, Viserys, o mesmo que disse que a entregaria para ser estuprada por exércitos e cavalos se eles o ajudassem a recuperar o Trono de Ferro e também que a vendeu a Khal Drogo (Jason Momoa).

O casamento sem amor era uma alternativa para sair do domínio de Viserys, mas Drogo, um bruto, a estupra desde a lua-de-mel até que Daenerys aprenda a literalmente controlá-lo na cama. A partir daí, ela o vê como seu ‘primeiro amor’, fruto de uma união que tinha tudo para dar errado, mas que surpreendentemente virou genuína. Talvez hoje a narrativa fosse diferente, mas, em 2010, essa fantasia errada e machista de que uma mulher se apaixona por seu algoz e primeiro homem com quem tem relações sexuais (uma das mais atrasadas e erradas sobre a alma feminina), prevalecia. Daenerys, inexperiente, pode até ter se convencido que ‘amava Drogo’, mas ele simbolizava muito mais coisas do que “amor”: segurança, poder, submissão (ele passou a obedecê-la) e prestígio. Como Khaleesi, Daenerys tinha pela primeira vez súditos e rapidamente (e justificadamente) se inebriou com a possibilidade de comandar, algo que jamais poderia sequer pensar se fosse apenas uma princesa Targaryen.

Astuta, Dany se livra de Viserys via Drogo sem muitos problemas, afinal seu irmão era um idiota, arrogante e fraco. A partir daí, como a ‘última Targaryen’, ganhou um propósito e fez um plano que envolvia seu marido para conseguir retomar o trono de ferro em nome de sua família.

Infelizmente o destino sinalizava desde cedo que não seria fácil: Drogo morre e Daenerys é obrigada a seguir sozinha, algo que a deixa ainda mais poderosa e incrível. Daenerys poderia ter qualquer homem que quisesse, mas sabe que também que mais do que ser feliz, ela deve usar o casamento como uma aliança política, como foi sua união com Khal Drogo. Daenerys foi alertada ainda em Qarth que seria traída “três vezes”: “uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor”.

Quando é informada da profecia, Dany já tinha sobrevivido à primeira traição, que foi quando confiou na feiticeira Mirri Maz Duur e descobriu que ela matou Drogo por vingança (sangue). A segunda, veio logo depois.

Daenerys tinha em seu pequeno e seleto grupo conselheiro um dos nobres de Westeros, Ser Jorah Mormont (Ian Glenn), que entrou na sua vida quando se casou com Drogo. Rapidamente a relação com Jorah se tornou complexa graças ao passado dele.

Jorah esteve do lado dos nobres que derrubaram o pai de Danny e que mataram seu irmão, Rhaegar, mas naquele momento se encontrava exilado e oficialmente, um apoiador dos Targaryens. O que fez mudar de lado duas vezes foi seu casamento com Lynnese Hightower. Lynesse não gostava do Norte e demandava por luxos que o levaram à falência. Para fazer dinheiro, vendeu prisioneiros para traficantes de escravos, sendo descoberto e condenado à morte por isso. Jorah deixou Westeros para evitar ser executado por Ned Stark (Sean Bean) e, para piorar, Lynnese o abandonou e o trocou por outro amante. Para poder voltar, ele aceitou espionar Vviserys e Daenerys em troca de um perdão do Rei Robert Baratheon (Mark Addy). É a segunda traição avisada à ela (ouro).

O que ninguém contava, muito menos ele mesmo, era que Jorah se apaixonasse por Daenerys e passasse a acreditar na sua causa. O amor de Jorah foi o mais sincero e genuíno de todas as paixões que despertou. Ele a viu se transformar em mulher, em Khaleesi, em líder, conquistadora e Rainha, sempre com as palavras certas e conselhos equilibrados. Sem ele, Daenerys desmoronou e se expôs aos homens de quem ela deveria ter mantido distância, incluindo Tyrion Lannister (Peter Dinklage). Depois que seu acordo com os Baratheon é revelado, Jorah é exilado por Daenerys, mas nunca fica muito longe dela, provando mais de uma vez que mudou e que merece sua confiança. O amor de Jorah é tão verdadeiro que ele convive com outros amantes de Dany sem julgá-la, apenas a querendo feliz.

Se Jorah não tivesse morrido na batalha contra os White Walkers defendendo Daenerys, muita coisa seria diferente. Foi Jorah que percebeu que a rainha precisava se entender urgentemente com Sansa Stark (Sophie Turner), buscando sororidade. Antes que o dilema fosse resolvido, ele morreu e a verdade sobre Jon Snow veio à tona. Eu ainda acredito que se tivesse sobrevivido, teria minimizado o conflito entre as duas, algo que nem Tyrion nem Jon conseguiram e que foi crucial para decisões precipitadas em seguida.

Outra oportunidade “perdida” por Daenerys, que nesse caso seguiu o conselho de um comprometido Tyrion, foi o de não apostar na relação que tinha com Daario Naharis (Michiel Huisman), o mercenário capitão dos Corvos Tormentosos, que a acompanhava, a protegia e a satisfazia na cama. Assim como Jorah, Daario não se intimidava com Dany, mas a admirava e muitos conselhos mais realistas vieram dele, não de Tyrion. Tyrion – que se apaixonou por Daenerys como todos os outros – coincidentemente sempre optava por isolar a rainha de pretendentes e defendia uma diplomacia inalcançável diante da agressividade de Cersei Lannister (Lena Headey). Foi Daario que decifrou Daenerys: ela era uma conquistadora, não uma governante, e como o tal teria que fazer escolhas impopulares e até sangrentas para manter o comando. Mas seguindo a orientação de Tyrion, ela deixa Daario em Essos e viaja sem ele para tomar o Trono de Ferro.

Sem Daario ou Jorah, ambos afastados por conselho de Tyrion, a inexperiente Daenerys caiu na armadilha do ego e da política, cometendo erros após erros. Inclusive o maior de todos, se apaixonar por Jon Snow.

Ninguém realmente entende como uma mulher que tinha tudo foi se apaixonar justamente pelo bastardo do Norte, quer dizer, o Rei do Norte. Infelizmente ela caiu pelo clichê e se encantou com o que interpretava ser sua imagem no espelho onde via Jon como um homem sofrido, fechado, íntegro, e tímido, mas popular. Ajudou o fato de que Jon não parecia estar apaixonado por ela (mas estava). Como Rei, ele era uma importante aliança política também. Jon, no papel, era perfeito. Vulnerável e louca por ter a mesma aceitação, Daenerys se deixou levar, esquecendo justamente da terceira traição avisada há tantos anos: a que seria justamente por amor.

Com a péssima orientação estratégica de Tyrion, a Rainha desafinou rapidamente com seu principal conselheiro. Quando ela devia ouvi-lo (não executando prisioneiros, por exemplo), o ignorava. Quando devia fazer o oposto do que que dizia (não usar dragões para dominar King’s Landing e tirar Cersei do poder), o respeitava. Jon, assim como Tyrion, queria um tempo de Paz impossível de alcançar sem derramamento de sangue, Sansa alertava Jon tanto o quanto Olenna Tyrell (Diana Rigg) e Daario avisaram a Danny: pedindo favor, não ia vencer. Teria que ser à força.

O problema final veio com uma notícia inesperada depois de várias e humilhantes derrotas: Jon não era um bastardo escolhido como Rei do Norte. Era Aegon Targaryen VI, seu sobrinho e – na regra de sucessão – o verdadeiro herdeiro do Trono. Pega pela informação que destruía seu propósito de vida, Daenerys se viu em uma encruzilhada. Ela poderia ser Rainha consorte, caso Jon superasse sua aversão ao incesto. Poderia deixar Westeros com ele e ser Rainha em Essos, afinal estaria retomando e expandindo a Monarquia Targaryen. Ou poderia ficar e ser sua conselheira. Em qualquer cenário, ela não seria a Rainha dos Sete Reinos.

Exposta à uma rejeição unânime, sem Missandei, Daario ou Jorah, Daenerys ficou à mercê de Tyrion e Varys, que não a conheciam ou confiavam nela. Em outras palavras: quando a família e os amigos do namorado acham que você é má, arrogante e a rejeitam, o que fazer? Queime todos eles, certo?

A falta de posicionamento de Jon acelerou a decisão explosiva e violenta de Daenerys, que o subestimou. Ao veladamente ameaçar as irmãs dele, ultrapassou o tênue limite da relação dos dois. Não era a escolha entre “certo” e “errado”. Era por amor. E Jon não amava Daenerys acima de sua família. A terceira traição seria e foi por amor.

A somatória de enganos de Daenerys na reta final foi provocada por seu isolamento crescente. Quando ela perdeu as primeiras batalhas e a duvidar de Tyrion e Varys, mesmo parecendo ser tarde, ainda poderia ter mandado buscar Daario, executado Tyrion (e até Jon) para manter sua Coroa. O erro final foi querer mudar a essência de Jon Snow, querer o sonho e não a realidade. Perdeu tudo, inclusive a própria vida. Pior de tudo, definitivamente acabou com qualquer esperança de restaurar uma dinastia Targaryen. Com Jon sendo julgado como um traidor (mesmo tendo apenas acatado os pedidos de todos), o último Targaryen vivo termina Game of Thrones no exílio e a dinastia Stark começa a dominar os sete reinos. Tudo por um erro causado pelo amor.

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