Astrud Gilberto: a baiana que fez a Garota de Ipanema famosa

A voz de Astrud Gilberto era “fraca”, mas doce e precisa, levando a bossa nova da zona sul do Rio para um status internacional ainda presente mesmo décadas depois. Ironicamente foi essa garota da Bahia que fez a de Ipanema famosa, mas, aos 83 anos, faleceu em Nova York. Sua neta, Linda Sofia, compartilhou a notícia no Instagram. “MVenho trazer a triste notícia que minha avó virou estrela hoje”, ela escreveu. Astrud estava longe dos palcos desde 2002, a causa de sua morte, no dia 5 de junho, não foi revelada.

Astrud, nascida Astrud Evangelina Weinert em Salvador, Bahia, jamais imaginou que seria uma estrela da música. Cresceu no Rio de Janeiro e era amiga de infância de Nara Leão, que a apresentou à João Gilberto. Sua gravação de estreia – com Garota de Ipanema – aconteceu por acaso, quando se ofereceu para cantar na versão em inglês da faixa de 1962, no álbum do saxofonista Stan Getz, que estava gravando com João Gilberto. Isso aconteceu há 60 anos, em 18 de março de 1963. Quando a letra de Vinícius de Moraes foi traduzida para o inglês por Norman Gimbel, João ia em cantar no idioma original, mas ela estava no estúdio e se ofereceu para cantar a versão em inglês, mesmo sem ser uma cantora profissional. (Afinal, sua voz era perfeita para o estilo musical que surgiu na zona sul carioca).

Garota de Ipanema virou um sucesso mundial em 1964, com essa gravação, vendendo mais de cinco milhões de cópias em todo o mundo, popularizando para sempre a bossa nova. Astrud virou estrela, indicada ao Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina e com a música ganhando o Grammy de Canção do Ano. No entanto, nem tudo foram flores nos bastidores. A artista se queixou de ter recebido apenas 120 dólares pela gravação (e nenhum royalty) além de não ter sido devidamente creditada pela performance.

O ressentimento de Astrud tem raiz na maneira que foi tratada pelos homens dominadores que a cercaram no início de sua carreira, que tampouco a levaram a sério o suficiente para pensar em equidade ou valor artístico. Stan Getz, anos depois, dizia ter sido ele a pessoa que “a descobriu” ao insistir que ela cantasse, dizendo que Astrud era apenas uma “dona de casa” antes disso. “Ela deu sorte”, ele simplificou anos depois em uma entrevista à revista inglesa Jazz Professional, em 1964.

A união com João Gilberto durou cinco anos, entre 1959 e 1964 e eles tiveram um filho, Marcelo. Astrud nunca voltou a morar no Brasil, se estabelecendo nos Estados Unidos. Se casou com Nicholas LaSorsa com quem teve um filho, Greg. Avessa ao palco, e cansada da maneira pela qual era tratada por críticos e as gravadoras, se afastou da vida pública em 2002, deixando 17 álbuns de estúdio e dois ao vivo como legado.

O que ninguém nega é que sua lenda é o oposto do tamanho de sua voz, e que até hoje influencia artistas como Billie Eilish e Suzanne Vega, entre outras. A sorte não foi dela, foi nossa.


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