Leitores dos livros de George R. R. Martin têm suas impressões do que efetivamente é a ‘verdade’ em House of the Dragon e Game of Thrones, criticando em alguns momentos duramente as adaptações para as telas. A beleza do universo criado pelo autor está na única certeza que ele nos lembra: histórias são contadas pelos vencedores, portanto nem sempre transparentes. As entrelinhas que demandam cada um a chegar a uma conclusão, são propositalmente e frequentemente obscuras e cada um pode ter sua própria interpretação. No entanto, há alguns fatos que são o que são, e estão diferentes no livro e nas telas. Diante disso, antecipando a segunda parte da história e distante da estréia da primeira, mesmo tendo avaliado cada personagem principal aqui em Miscelana, vale voltar a Westeros. Até porque, estou com saudades!
Seja qual seja a ótima, ciúme e ressentimentos mancharam as gerações Targaryen por toda sua trajetória, sendo que o período da Dança dos Dragões foi apontado por todos historiadores como o mais sangrento. A série da HBO reforça tudo isso e revela ainda mais.

Rhaenyra e Aegon II: ódio e competição
Viserys I (Paddy Considine) era obcecado por um filho homem como sucessor, mais tarde sabemos porque faz parte de uma profecia, mas aparentemente é apenas pela tradição de que a Coroa jamais é passada para mulheres, apenas homens. Sua insistência e falta de sorte de produzir um herdeiro homem que sobreviva acaba custando a vida de sua primeira esposa, e amor de sua vida, Aemma. Essa relação impactou fortemente a personalidade de sua única filha dessa união, Rhaenyra (Emma D’Arcy), eventualmente anunciada como sua sucessora, quebrando um tabu e plantando um conflito sério para dinastia.
Como vimos na série, ainda de forma mais explícita do que no livro, Otto Hightower (Rhys Ifans) estava preparando o terreno para unir sua família aos Targaryens desde que pisou em King’s Landing. Alicent (Olivia Cooke) estava inserida no coração do reino – literalmente – como a melhor amiga de Rhaenyra e depois, como a escolhida por Viserys como segunda mulher. O papel de Alicent será avaliado em seguida, mas entre suas funções primárias era ter filhos e claro, filho homem. Algo que fez imediatamente, aliás, com Aegon II (Tom Glynn-Carney).


Quem “criou todo problema” foi Viserys, um rei bom, mas cujas escolhas (tardias ou inovadoras) tiveram consequências trágicas. Se sentia culpado, com alguma razão, de ter insistido no herdeiro que custou a vida de Aemma, se casou quase que por obrigação política com Alicent e jamais demonstrou carinho ou dedicação aos filhos do segundo casamento, plantando em Aegon a semente do ciúme em relação à sua irmã mais velha, Rhaenyra. Ela era a escolhida por Viserys, ela era a herdeira, nada que fizesse tinha impacto em sua trajetória, nem mesmo os filhos claramente bastardos apresentados como legítimos. “Conformado” com o que era aparentemente inevitável, Aegon jamais percebeu (como Aemond (Ewan Mitchell) rapidamente entendeu e se preparou) que o patriarcado cumpriria a promessa de coroar sua irmã depois que Viserys morresse. Vivia bêbado, vivia com prostitutas, violentava as camareiras. É no trajeto que o levaria à sua coroação, que ele rejeitava por ser usurpação, que ele abre o coração com sua mãe por se sentir uma vida inteira sem ser amado por ela ou pelo pai. Não estava errado e parte dessa lacuna criou o monstro. Portanto ainda veremos mais, mas Aegon II teve a alma destruída por causa de abandono e falta de atenção. E seu reinado nasceu no ciúme que tinha de Rhaenyra.

Rhaenyra: invejosa dos homens (e de Alicent?)
Se tem alguém que para todos parece ter tudo é Rhaenyra Targaryen, mas ela também tem suas inseguranças e comete alguns enganos por isso. Pois é.
Rhaenyra pode ser a princesa e – por muito anos – ter sido a única herdeira de Viserys I, mas se sentia constantemente lembrada de que não era prioridade para o pai, pois ele sempre quis um filho homem e só a escolheu sob pressão do Conselho e depois da morte de Aemma. No livro, o relato da relação dela com o pai difere da série, pois eles eram próximos sim, mas, pelo que vimos na HBO Max, durante o luto, ficaram distantes e constante em conflito, ainda mais depois que ele anunciou a decisão de se casar com Alicent, que não foi bem aceito pela princesa. E sendo sempre perfeita em tudo, a a (ex) amiga transformada em madrasta logo providenciou o ‘herdeiro’, criando ainda mais espaço para crescer a tensão entre eles.
Rhaenyra tinha um certo ciúme de Alicent, mais até inveja, porque como uma perfeita filha dos Hightowers, a devoção e obediência de entregar o que esperavam dela fazia de Alicent uma mulher “perfeita”: subserviente e submissa. Rhaenyra, como princesa, tinha maior liberdade aparente, mas ambas tinham apenas uma utilidade que era gerar herdeiros homens. Portanto para Rhaenyra, a traição de Alicent ao se casar com seu pai foi a de ter jogado com sua confiança.


Rhaenyra tinha um certo ciúme de Alicent, mais até inveja, porque como uma perfeita filha dos Hightowers, a devoção e obediência de entregar o que esperavam dela fazia de Alicent uma mulher “perfeita”: subserviente e submissa. Rhaenyra, como princesa, tinha maior liberdade aparente, mas ambas tinham apenas uma utilidade que era gerar herdeiros homens. Portanto para Rhaenyra, a traição de Alicent ao se casar com seu pai foi a de ter jogado com sua confiança e jamais ter esclarecido que estava se envolvendo com o rei. Não há perdão para Alicent aqui, ela aceitou o jogo e se fez útil para seu pai (Otto), mas voltaremos ao assunto quando falarmos dela. Para Rhaenyra, o casamento era uma faca desde o início e embora entendesse que Alicent tinha “obrigações de família”, como ela não respeitava as regras, a amiga só a fez mais infeliz.
De tabela, nem Aegon II efetivamente chegou a ser um problema para a princesa. A diferença de idade entre eles era significativa e uma vez que Viserys I jamais mudou a ordem da sucessão, o príncipe não significava nada pra ela. A recíproca obviamente não era verdadeira. Restou então o maior alvo do ciúme de Rhaenyra: seu tio, Daemon (Matt Smith).
Daemon Targaryen é o símbolo de tudo que ela queria ser, mais ainda, o que imaginava que seu pai queria que fosse, um homem de personalidade forte, exímio cavaleiro e príncipe ‘puro’ sangue Targaryen. Sem que uma mulher pudesse ser considerada igual, Daemon era o herdeiro óbvio. Não fosse o conhecimento de Viserys que sua personalidade instável sempre seria único obstáculo, talvez tudo caminhasse com maior tranquilidade. Mas Otto conseguiu convencer Viserys I e por uma combinação fatal para o ‘estepe’, ela foi anunciada como herdeira oficial. A essa altura, Daemon representava a versão masculina do que ela vislumbrava como governar e viver, uma mescla de admiração e idolatria, tanto que Rhaenyra é direta com o tio quando o reencontra no funeral da esposa dele e o pede em casamento. Como ela argumenta, com Daemon ao seu lado, ninguém ousaria questionar sua Coroa e eles seriam perfeitos no comando de Westeros. Havia praticidade e paixão.

No livro há mais dúvidas do que na serie sobre a natureza do relacionamento entre Rhaenyra e Daemon. Ele efetivamente a ‘ seduziu’, ou pelo menos acelerou o despertar sexual nela, mas não foi seu primeiro amante. Havia uma compreensão mútua que a parceira sera perfeita para governar, algo que Viserys discordava e que indiretamente acelerou o conflito interno. O Rei teve a oportunidade de uni-los, mas escolheu expulsar o irmão, levando Rhaenyra a um casamento de conveniência que efetivamente era problemático porque como Laenor não ” funcionava” com mulheres, Rhaenyra não teria herdeiros. Ela tentou anos com o marido, sabemos, mas foi com o amante de mais de dez anos que acabou tendo três filhos, criando a perfeita oportunidade para seus inimigos agirem. Quando a reencontramos no funeral da cunhada e esposa de Daemon, Rhaenyra estava extremamente vulnerável.
Aqui a mudança de House of the Dragon, para mim, se torna complexa. Daemon e Rhaenyra fazem um pacto de amor e de governo, contra os ‘Verdes’, mas precisam ‘sujar as mãos’ de forma que perderiam qualquer resquício de inocência. Depois que Ser Harwin Stron (Ryan Corr) foi assassinado (um incêndio em Harrenhall) e Viserys está cada vez mais doente, Rhaenyra sabe que seus inimigos virão com tudo contra sua posição, por isso não pode mais insistir em seu casamento de fachada com Laenor Velaryon. No livro, há dúvida de como ele convenientemente aparece morto e Daemon e Rhaenyra se casam imediatamente, mas é o príncipe que ‘ leva a culpa’ sozinho.
Na série, os dois concordam que Laenor tem que sair da equação, mas é incerto se Daemon decide sozinho pelo casal homoafetivo ou se foi que ela que pediu para poupar o marido e o amante dele. Embora tenha ficado lindo esse lado humando do casal, traz um transtorno maior do que o descrito. A razão principal para que ela se case com Daemon é a de ter herdeiros legítimos. Ao permitirem que Laenor viva, o plano tem um problema essencial da bigamia. Além disso, ressalta uma das falhas de caráter de Rhaenyra que é inconsequente e hipócrita, cujo comportamento ignora qualquer regra quando aplicada a ela, mas exige que os demais sigam ao pé da letra. Essencialmente os shorunners quiseram criar simpatia pelo casamento de Daemon e Rhaenyra, mas apenas justificaram todos os argumentos dos verdes.


Enquanto isso, Daemon também não está imune aos ciúmes de Westeros. Ele sempre quis a aprovação de Viserys (ele não se importava com os outros), mas jamais conseguiu. O irmão não o fez de herdeiro nem mesmo Mão do Rei, mas enfrentou a opinião pública e a tradição por Rhaenyra, colocando a sobrinha no alvo de um ciúme cheio de culpa, pois ele mesmo gostava muito dela. Como o ‘reserva’, Daemon transporta para a história o dramático destino daqueles que não têm efetivamente um papel na Nobreza: pode ser superior por sangue, mas fica sem papel definido ou objetivo de vida, esperando que algo de ruim aconteça com os parentes para talvez substitui-los. Seu casamento com a sobrinha resolve boa parte dos conflitos, mesmo sem ser Rei. Certamente seria sua Mão, teria poder claro em um universo onde mulher não tem voz e seus filhos, no caso provável dos enteados morrerem antes, seriam – e foram – Reis.
A dúvida sobre o verdadeiro sentimento do casal não foi esclarecido nem nas páginas ou nas telas, mas será tema para outros posts. Porém ninguém questiona que ambos se amavam e se invejavam, um casamento ” perfeito” em Westeros.
Alicent reprime desejos e aspirações, com Rhaenyra ressaltando o que ” perdeu” no jogo dos Tronos
As diferenças entre a Alicent do livro e da série são tão significativas que precisamos esclarecer qual seguiremos comentando. A da TV passa a ser a referencia principal porque traz novas informarcoes.

No livro, Alicent é descrita como uma pessoa rancorosa e ambiciosa, do momento que seu filho Aegon nasceu, qualquer relacionamento que tivesse com sua enteada acabou. A diferença de idade das duas era bem maior, portanto a hierarquia maternal sempre fez parte da trajetória das duas. Na série há uma amizade (alguns alegam algo mais) profunda entre elas, contemporâneas e próximas.
Conhecemos uma Alicent já órfã de mãe, respeitosa com as regras da sociedade e sempre tentando agradar a todos. Ela é o oposto de Rhaenyra em tudo. A princesa é pura impulsividade, mas sua posição permite tamanha liberdade. Mais do que isso, é a boa relação entre Viserys e a filha que desperta a inveja (ciúme também) de Alicent, que é distante emocionalmente de Otto. Ela se submete à a exploração sexual, fazendo “companhia” ao Rei viúvo e criando uma conexão que resulta em casamento. Não há prazer sexual, há uma amizade mas não mais do que isso e ela aceita quieta. Depois que roteiros foram compartilhados, confirmamos (ou descobrimos) que houve um ruído sentimental desde o início. E foi vital pra história.
Ainda jovens, e sem a verdadeira perspectiva do que poderá acontecer, Alicent e Rhaenyra sabem que um dia se casarão com alguém de poder, mas isso é o máximo que podem almejar. No torneio em homenagem ao nascimento do filho de Viserys (que morre no parto), as duas reencontram Daemon e conhecem Ser Criston Cole (Fabian Frankel). As observações dos roteiristas dizem que quando Daemon se aproxima para pedir que Alicent seja sua dama, Rhaenyra fica enciumada. E ele só faz isso para provocar Otto (e consegue), mas é a sobrinha que sente mais não ter sido a escolhida. No entanto quando Cole entra na arena, as duas se empolgam por ele e é a princesa a eleita por ele, algo que Alicent secretamente ressente. Estamos falando de grandes amores, claro que – ainda – não. Mas desenha o gráfico que comanda os conflitos de House of the Dragon. Rhaenyra tem o que todos almejam (amor, posição, liberdade), mas ela não tem o que os outros têm (gênero, autonomia).


Para piorar tudo, Rhaenyra ‘seduz’ Ser Cole, justamente quando Alicent defende sua honra que é questionada por sua ligação com Daemon, e a Rainha consorte se decepciona sem volta com a ex-amiga. Depois de anos tentando ajudá-la, ela se cansa da teimosia de Rhaenyra. Juro que não culpo. Alicente se submeteu a um casamento com um homem bem mais velho, sem amá-lo, assim como aceita ser chamada para sexo quando ele quer. Tem filhos que não ama e que bem mesmo serão herdeiros e lá vem Rhaenyra fazendo o que quer como quer e quando quer. Ela e Ser Cole se entendem e Alicent encontra Paz na religião e hipocrisia.
A rainha consorte está tão obcecada com seu ressentimento com Rhaenyra que não planeja, apenas reage. Seu pai ganha fôlego e mantém seu plano original. Os erros das duas ex-amigos o ajudam com a legitimidade que não teria para o seu golpe.
Eu vejo um grande problema em Alicent da série. Embora mais humanizada e coerente com o que faria qualquer mulher nobre de seu tempo, sua relação sem um planejamento faz pouco sentido. Não a vemos argumentando por seus filhos, por quem não tem carinho ou dedicação, apenas que atingir Rhaenyra. Sua interpretação do que um Viserys delirante falou foi simplista, sua objeção ao plano de seu pai estranha. Há mais o que descobrir sobre ela.
Os ciúmes em geral seguem guiando as conexões. Um desprezado Ser Cole tem ciúmes de Daemon e qualquer amante de Rhaenyra. Ele e Alicent agem por coração e é um grande perigo. No livro são ligados, mas pela ambição comum de manter o status quo. E nem entramos nos ciúmes de Aemond!
A toxicidade dos Targaryens é mais simples do que parece. Será mesmo?

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