Madonna e Cyndi Lauper: hostilidade de décadas

Bastaram alguns minutos no documentário A Noite que Mudou o Pop onde Lionel Ritchie menciona que precisaram escolher entre convidar Madonna ou Cyndi Lauper, sem poder ter as duas na gravação, para que uma nova geração despertasse para uma das maiores deturpações machistas de tantas décadas: a rivalidade entre as duas maiores cantoras pop dos anos 1980s.

Para adolescentes que cresceram naqueles tempos, antagonizar as duas era o esperado, o que sempre foi uma pena, afinal, as duas artistas transformaram a maneira que as meninas se vestiam e portavam, mas jamais estiveram juntas em um palco. Claro que Prince e Michael Jackson também tinham a sua treta, como é mencionado no mesmo documentário, mas, em tempos pré binários, as revistas e jornais demandavam a escolha: ou você era sexy como Madonna ou você era original como Cyndi. E a rivalidade era reforçada com inúmeras capas de revistas que listavam as diferenças entre elas. E sim, as duas realmente não se toleram, mas quem poderia aguentar a pressão?

E eis que 40 anos depois que explodiram, em 1984, tanto Madonna como Cyndi Lauper vão se apresentar no Rio de Janeiro em 2024. Uma máquina do tempo e uma oportunidade de aproximação? Bom, as última parte é improvável. Vamos aos pontos mais comuns listados como os conflitos entre as Divas?

Estilo

E agora, José? Quem veio “antes”? É um problema que os fãs das duas cantoras não sabem resolver porque o “estilo brechó” de jogar várias peças uma em cima da outra era a moda dos anos 1980s, e tanto Madonna como Cyndi Lauper tinham esse look como “assinatura”. Ambas ainda acham que vieram uma antes da outra.

Dito isso, Madonna venceu a disputa em um sentido simples: o que ela usava era possível ser copiado por adolescentes. As rendas, as bandanas, as pulseiras eram baratas e fáceis de encontrar. Cyndi apostava no estilo um tanto mais cigano de saias longas e tênis de cano alto de cores diferentes (mo até hoje!) com meias arrastão. O problema? A cada semana ela tinha uma cor de cabelo, às vezes duas num mesmo corte e raspava um dos lados. Impossível de imitar quando com 14 ou 15 anos os pais ainda determinam as regras da casa, concorda? Dessa forma as Madonnas wannabes eram mais frequentes do que as Cyndis.

O que é triste, errado e lastimável é que em várias capas e matérias a simplificação da comparação era que “Madonna era a mais bonita sem talento” e “Cyndi era a feia, mas talentosa”. Nada mais misógino!

Repertório musical

A música da Madonna sempre foi apontada por críticos como “fácil”, desfazendo ela artisticamente e insistindo que seu sucesso era fruto de marketing e astúcia de exposição e polêmicas. Difícil concordar, mas ainda dá para entender a fonte da crueldade. Cyndi Lauper, por outro lado, sempre foi elogiada como compositora e intérprete. Ou seja, Madonna era mais ‘famosa’, mas Cyndi mais “talentosa’. Subjetivo para caramba!

A diferença principal é que, embora ambas sejam pop, Madonna apostou em músicas dançantes com fonte em R&B. Cyndi tinha uma veia blues e punk que funcionou perfeitamente nos anos do new wave, mas sofreu quando o estilo foi considerado “superado”. Em termos de hits nas paradas de sucesso, Cyndi saiu na frente em 1983, mas quando Madonna entrou no ritmo a partir de 1985, emplacou mais números 1.

Qualidade artística

Embora Madonna tenha sempre assinado boa parte de suas composições musicais, foi apenas depois de True Blue, em 1986, que passou a ficar mais claro como era a “sua música”. Já Cyndi Lauper veio com Time After Time – hoje um standard americano – no álbum de estreia, sendo regravada por Miles Davis e outros artistas de peso.

Confesso que concordo com essa divisão: Cyndi tem mais voz, maior alcance e suas composições são TODAS lindas e emocionantes. Você sabe quando é sua música, tanto pela pecularidade de seu sotaque como estilo vocal, enquanto Madonna, eterna camaleoa, não tem uma assinatura.

Ativismo

É uma pena que a rivalidade entre Madonna e Cyndi Lauper tenha impedido que as duas tivessem sempre atuado separadamente pelas questões feministas e LGBTQIAPN+. Ambas abraçaram as duas causas mesmo quando aina não era popular, fizeram questão de ousar em seus vídeos, shows e canções sobre temas considerados tabu na época.

Fama: True Colors ou True Blue?

Madonna ganhou essa disputa com conforto. Ela ainda é uma das mulheres mais famosas do planeta e nos anos 1980s só perdia para Princesa Diana em termos de perseguição de paparazzi e capas de revistas.

Cyndi Lauper teve problemas de saúde e pessoais que atrasaram o lançamento de seu segundo álbum solo, True Colors, lançado logo depois do terceiro de Madonna, True Blue. Isso mesmo, as duas tinham álbuns entitulados como verdadeiros.

Enquanto True Colors significa mostrar como alguém realmente é, revelando sua verdadeira natureza ou caráter,a. expressão True Blue é a definição de ser inabalável no compromisso e extremamente leal.

True Colors emplacou quase a mesma quantidade de sucessos que True Blue nas rádios, com Madonna brevemente na vantagem, mas os covers das politizadas What’s Going On e Iko Iko sugeriam justamente um posicionamento mais engajado de Cyndi, algo que todos os críticos também usaram para colaborar com a treta entre as duas.

Não há “melhor” entre elas

Dou meu testemunho na primeira pessoa como fã apaixonada pelas duas desde os 12 anos. Não há “melhor”, são diferentes e maravilhosas.

Muitos usam a percepção de que Cyndi é menor por ser mais autêntica, e o lado camaleoa de Madonna, uma de suas maiores qualidades e razão da longevidade, a teria colocado menos original. Claro que entendemos a análise, mas ainda assim é subjetiva.

Se entrarmos em números e prêmios só fica mais confuso. Cyndi tem alguns dos mais prestigiados – Tony, Grammy, Emmy – só faltando um Oscar. Mas seus shows não enchem estádios como Madonna. Algoritmos podem dar a Coroa para uma só, mas minha lealdade é igualmente dividida.

Por 40 anos sempre sonhei com uma colaboração das duas. Infelizmente, improvável. Mas ainda bem que sempre puderam me fazer divertir. Amo Cyndi! amo Madonna.


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