Hoje nos despediremos de Rhaenys (Eve Best), veremos Baela (Bethany Antonia) e Rhaena (Phoebe Campbell) perderão sua avó e Rhaenyra (Emma D’Arcy) será confrontada por ter deixado sua prima-tia ter ido sozinha enfrentar os Verdes. O episódio de hoje é um dos mais esperados de TODA franquia, e antecipo que muitos vão reclamar do resultado. Se você sabe, sabe.

A morte de Rhaenys terá impacto na série porque pelo visto, crianças não afetam a política. Lucaerys e Jaehaerys foram brutalmente assassinados, mas superados em três segundos porque a trama tem que seguir em frente. Essa diferença do livro não é uma chatice de purista: trazia uma dimensão trágica para Rhaenyra e para Helaena (Phia Saban) que se perdeu por conta da preocupação com as críticas. Isso mesmo, as mulheres Targaryens estão à sombra de sua descentente, Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) em vez do contrário. É uma síndrome das mulheres da família.

Em Game of Thrones, Daenerys teve uma trajetória digna de uma heroína clássica: abusada, violentada, sobrevivente, empática, carismática e líder. Por tudo isso, ela se preocupa genuinamente com os menos favorecidos, abraçando como causa primordial para sua volta ao Trono de Ferro o fato de acabar com a escravidão. Mais ainda, de libertar os oprimidos com vingança dos opressores, a Justiça que sempre faltava à eles.
Esse discurso que começou genuíno, nunca deixou de ser oportunista, mas poucos pescaram as dicas claras ao longo do caminho. Daenerys nunca deixou de se impressionar com ela mesma, criado para si uma lenda, uma mitologia que justificava qualquer medida para ser mantida.
A força de Daenerys é inegável. Sua fraqueza foi ouvir os conselhos de homens que não partilhavam sua visão, tentando ser o que aquela altura não era mais. A oposição de Cersei Lannister (Lena Headey) e Sansa Stark (Sophie Turner), as duas mulheres que não se renderam à imagem que Daenerys tinha de si mesma, desestruturaram a personagem e o mundo se divide até hoje dos que defendem a Mãe dos Dragões e as que a viram como ela era: uma déspota com mania de grandeza que perdeu a conexão com a realidade.
Como é possível perceber, não sou team-Dany, sempre fui team-,Jon (Kit Harington).
O problema da “mudança” de Daenerys, que foi sim bem construída, mas que pegou as pessoas de surpresa, é que agora, os showrunners de House of the Dragon se vêem na arapuca de colocar todas as mulheres Targaryens como a Daenerys que os fãs viam, não a personagem complexa imaginada por George R. R. Martin.


Essa “síndrome da heroína destruída” é estranha porque transforma toda profundidade sugerida de falhas humanas em algo inconcebível. Nas páginas de Sangue e Fogo, Rhaenyra é uma mulher magoada, machucada, traída, insegura, paranóica e inexperiente, mesmo que tenha sido uma mãe dedicada e carinhosa. Da mesma forma, Helaena era uma mulher que foi levada à loucura pela violência da Guerra Civil. Nada disso está nas telas.
Rhaenyra ficou uma líder doce, preparada e preocupada com o Reino antes mesmo de sua dor pessoal de ter sido ursurpada, ter um filho brutalmente assassinado, um atentado dentro de seu quarto e ainda ter que lutar pelo “bem do Reino”. Não é a Rhaenyra da literatura, uma mulher magoada, traumatizada e orgulhosa, que embarca na violência como resposta “justa” pelos maus que sofreu. Eu prefiro a do livro, confesso.
A Rhaenyra cujo problema é o machismo apenas fica rasa. Essa Rhaenyra política teria feito um acordo, buscado uma resposta diplomática assim que Otto (Rhys Iphans) bateu à sua porta. Seria uma Rhaenyra que entenderia a agilidade que demandaria uma resposta à altura pela morte de Luce, a que Daemon (Matt Smith) esperava como esposa.
No entanto, essa Rhaenyra “justa” encanta Rhaenys e Mysaria (Sonoya Mifuno), elas mesmas mulheres que não necessariamente apreciariam essas qualidades. Que Rhaenyra seja heroína é uma coisa, mas uma Targaryen perfeita é contraditório.

O que perdemos com a Rhaenyra politicamente correta? Tudo que o drama poderia providenciar. As imperfeições são essenciais para humanizar uma personagem, em especial uma do universo de fantasia. Que ela se sentisse mal por querer vingança, e ainda assim seguir em frente, seria uma coisa, mas ela é SEMPRE vítima de mal entendidos ou de homens ambiciosos.
Entendo que os showrunners queiram nos dar uma heroína feminina perfeita, uma que nem homens estariam à altura, que é o que os fãs de Daenerys vêem na personagem. É tentador estar bem com essa parcela do público e cansativo se opor à ela. Mas isso tira TODA dimensão dramática de Rhaenyra, a tornando perigosamente sem força ou desafios. Daenerys tinha desafios como os de Rhaenyra, ainda maiores, podemos argumentar, e ela os superava com as falhas que já citei. Rhaenyra não tem falhas.

Da mesma forma, Helaena já era um tanto “doidinha” antes do trauma, e foi compreensiva ao ponto de dizer que sua dor de ter testemunhado o filho decapitado por assassinos não se compara às dores das mães do povo que perdem os filhos para a fome. Desculpe, nenhuma mãe concordaria com ela.
Essa simplificação do roteiro não estraga House of the Dragon mas não a iguala à ousadia de Game of Thrones. Podemos reclamar das decisões finais da série, mas jamais a acusar de tentar um jogo seguro. E House of the Dragon anda segura demais. Isso é muito perigoso.


A diferença da petulâncoa de Rhaenyra jovem, inserida com perfeição por Milly Alcock faz muita falta para a adulta. Retomamos a temporada ouvindo que ela passou 10 dias pessoalmente buscando os restos de Lucaerys, pediu a cabeça de Aemond (Ewan Mitchell), sobreviveu ao ataque do gêmeo Cargyll e ainda assim foi conversar com Alicent (Olivia Cooke) e para piorar, pela recomendação de Rhaenys, ela mesma testemunha e vítima dos ataques dos Verdes. Mesmo n fantasia? Inverossímil.
Quais as consequências? A morte de Rhaenys, na data de seu aniversário, pode ser épica, mas irrelevante. A Paz teve chance por cinco segundos, apenas Rhaenyra insiste em discuti-la custando a vida de inocentes.
As mudanças feitas em Rhaenys ma fazem querer ver sua batalha, mas tranquila de dar adeus à ela. Não imprimiu como no livro. Culpa de quem? De Daenerys Targaryen. A mais lendária de todas as mulheres Targaryen.

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