Vamos falar sobre Karla Sofía Gascón…

Chamar o filme Emilia Perez ou sua protagonista, Karla Sofía Gascón, de “polêmica” é eufemismo. O musical que veio como febre virou uma virose justamente na reta final dos votos para todas as premiações. Ainda Estou Aqui dispensava a “ajuda”, mas indiretamente “ganhou” com tantas trapalhadas de sua competição direta. O drama dos bastidores está avassalador e vai mudar radicalmente o tom da festa em março. Como isso aconteceu?

Devo continuar dizendo que me vi “precisando” falar sobre essa novela desagradável por me ver envergonhada de “descobrir” os problemas de Karla Sofía Gascón quando as redes sociais se voltaram contra ela e, embora a gente se queixe com frequência, em alguns casos as redes são implacáveis e … certas. Não gosto da agressividade da X ou de algumas comunidades no Reddit, faço questão de me isolar delas. Há um hábito, que é frequente no futebol, onde as pessoas consideram “justo” e aceitável agredir verbalmente torcedores, jogadores, narradores, comentaristas ou o universo porque seu time perdeu. A anonimidade só fez os monstros crescerem, gigantes em sua covardia e proporcionalmente ínfimos dentro de sua fraqueza disfarçada de força. O problema é que, em rede, essa massa lamentável ganha força e é sempre perigosa. Voltemos à Karla Sofía.

Entre 2016 e 2020, a atriz usou sua plataforma por muitos anos como todos os outros: opinando sobre temas sensíveis, criticando celebridades, políticos, o mundo. O problema é que ANTES o que as pessoas diziam em mesa de bar se perdia, nas redes sociais ficam registradas e há uma onda de “detetives online” que adora catar “recibos” (os registros dos posts) para jogar na cara das pessoas. Quando escrevi sobre Karla Sofía a elogiando tenho que admitir: não fui na sua conta online para verificar o que dizia. Erro cabal nos dias de hoje.

Karla Sofía nunca se restringiu de falar o que pensava e mesmo que tenha mudado de ideia, seus posts ficaram lá. Infelizmente, diante das críticas ao filme que são justas (é de um diretor francês que não fala espanhol, mas que conta a história de um traficante mexicano, o elenco é de artistas americanos, venezuelanos e espanhóis, sem nenhum mexicano para contextualizar, a música é feia, etc), a atriz decidiu abrir a boca em uma entrevista no Brasil para falar mal de Fernanda Torres e da perseguição que estava sofrendo online. Como dizemos por aqui: deu ruim.

Primeiro: Fernanda Torres é gigante, não é uma atriz correndo atrás de prestígio internacional ou deslumbrada com a atenção que está tendo. Ela quer e merece o Oscar que está com toda cara de ser dela, mas “jogou” limpo e com elegância. O mundo não sabe, apenas nós brasileiros estamos tranquilos de que ela é o oposto do que as matérias sobre a entrevista tentaram parecer ser. Nem mesmo descobrirem o quadro do rosto preto em 2008 arranha a posição autêntica e segura de Fernanda. E Karla Sofía se deu mal. Segundo: Fernanda pediu desculpas dos erros dela com segurança e agilidade para matar uma história maldosa antes que ganhasse fôlego e Terceiro para lacrar? Pediu apoio à Karla Sofía porque embora o Oscar seja uma competição, não é um campeonato. Perfeita.

Mas, Karla Sofía, o passado bateu à sua porta e não foi tocando a campainha duas vezes. A atriz estava coberta de razão quando esclareceu que estava falando de nós brasileiros, não de Fernanda Torres, quando passou a ser alvo de transfobia online. As pessoas são más, estão tratando tudo como Copa do Mundo e sim, estavam detonando a concorrência em um ufanismo vergonhoso. Mas de fato, Karla Sofía deveria ter ficado quieta. Ao falar mal das redes sociais, os detetives passaram a querer encontrar a verdade e o que encontraram foi devastador CONTRA a atriz. Ela fez comentários depreciativos visando muçulmanos em sua Espanha natal, bem como George Floyd, que foi morto por um policial em 2020, falou mal da co-estrela Selena Gomez (algo que já tinha pedido desculpas no ano passado) e se revelou contraditória em tudo que representa. E não há dúvidas, está – ou estava até ela apagar sua conta – tudo nas suas redes sociais, só bastava ir lá buscar.

Resultado? Karla Sofía estará no Oscar tendo que responder sobre tudo que não gostaria de lembrar, de tirar todo o foco da Arte e do filme Emilia Perez para questões delicadas que poderiam ficar no ar, mas não influenciar as escolhas dos votantes. Continuando na analogia futebolesca? GOL CONTRA. Pênalti isolado para o céu. Cartão vermelho no segundo tempo. Faça sua escolha.

Eu gostei do musical Emilia Perez mesmo percebendo as falhas culturais porque a história que apresentaram é interessante. Karla Sofía está muito bem no papel e o reconhecimento não foi injusto. Porém, todo receio de que o filme virasse algo popular caiu por terra. Sua história terá para sempre a sombra da cultura complexa do século 21, cheia de contradições e acusações. Quem ganha é o “Brasil”, nas pessoas de Walter Salles Jr. e Fernanda Torres. Os melhores representantes que poderíamos ter.



E Karla Sofía? Ela se posicionou: “ELES JÁ GANHARAM. A primeira coisa que eu gostaria de fazer é me desculpar sinceramente com todos aqueles que se sentiram mal pela maneira como me expressei em qualquer fase da minha vida”, ela escreveu para se posicionar sobre o drama. “Tenho muitas coisas para aprender neste mundo, [as] formas [nas quais aprendo] são minha principal falha. A vida me ensinou algo que eu nunca quis aprender: está claro para mim que, por mais que sua mensagem seja uma, sem usar as palavras corretas, ela se torna outra. Não posso reparar minhas ações passadas, só posso dizer que hoje não sou a mesma pessoa de 10 ou 20 anos atrás, que embora eu não tivesse cometido nenhum crime, também não era perfeita, nem sou agora. Eu só tento aprender e ser uma pessoa melhor a cada dia”, continuou. “Eu reconheço, através das lágrimas, que eles já venceram, eles atingiram seu objetivo, manchar minha existência com mentiras ou coisas tiradas do contexto. Qualquer um que me conhece sabe que eu não sou racista (eles ficarão surpresos quando descobrirem que uma das pessoas mais importantes na minha vida atual e a que eu mais amo é muçulmana) nem nenhuma das coisas pelas quais eles me julgaram e condenaram sem julgamento e sem a opção de explicar sua verdadeira intenção; eu sempre lutei por uma sociedade mais justa e por um mundo de liberdade, paz e amor. Eu nunca apoiarei guerras, extremismo religioso ou a opressão de raças e povos. Criaram postagens como se fosse eu, insultando até meus colegas, coisas que escrevi para glorificar como se fossem críticas, piadas como se fossem realidade, palavras que sem o pano de fundo parecem apenas ódio. Tudo para que eu não ganhe nada e afunde. Minha mãe me disse algo lindo ontem: não me importo se você ganhar alguma coisa, só quero que você fique bem e não se machuque. ‘Mãe, a vida me colocou aqui para enviar uma mensagem de esperança e amor a este mundo, e eu vou cumpri-la. Como alguém em uma comunidade marginalizada, conheço muito bem esse sofrimento e lamento profundamente aqueles a quem causei dor. Toda a minha vida lutei por um mundo melhor. Acredito que a luz sempre triunfará sobre a escuridão.”


Eu sinto por Karla Sofía Gascón. Só espero que sua história – dolorosa como é – sirva de exemplo para todos no futuro. Pelas razões certas.


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