Quando o Oscar acaba e as manchetes só elogiam o apresentador Conan O’Brien a gente percebe que a noite não foi marcante. Conan de fato se saiu muito bem como âncora, restringindo piadas e discursos politizados ao máximo possível, mas, para o evento, garantindo uma noite sem sustos, tapas ou xingamentos. Não que saia justa possa ser evitada na festa, já é tradição ter algo que seja tenso (no caso a presença de Karla Sofía Gascón,quase ignorada pelas câmeras e com recepção fria dos colegas), mas que imagem marcante o Oscar de 2025 deixou? Nenhuma.
Para o Brasil, claro, a narrativa é outra: quebramos o jejum e o cinema nacional foi reconhecido com um prêmio de melhor filme em língua estrangeira, um momento emocionante e que, sim, devemos à Karla Sofía. Não fosse ela ter causado uma das mais marcantes falhas de comunicação do mundo, quase prejudicando Zoe Saldaña, Emília Perez se desenhava para tirar todos os prêmios que queríamos. Era o filme com mais indicações, só levou dois deles e isso porque não deu tempo para mudar. Foi raspando.


Mas não quero falar de Ainda Estou Aqui ou Fernanda Torres excessivamente. Afinal, vocês me aguentaram um mês me repetindo! Sim, Fernanda chegou a ser uma das favoritas e foi isso mesmo que a prejudicou ali no final. As bolsas de aposta, e todos no Dolby Theatre, estavam prontos para Demi Moore se consagrar (apenas ela e Cynthia Erivo estavam na primeira fila), mas Hollywood é Hollywood, juventude feminina é uma obrigação para manter as chances de vencer.
Não é papo de perdedor, nem sou eu que perdi, mas uma realidade que está exposta em A Substância, filme estrelado por Demi, que justamente encerra com uma premiação onde o ‘monstro’ é exposto. Sempre defendi que a violência da história e o fato de que o filme é de terror nojento eram obstáculos para a categoria de Melhor Atriz. Não via Hollywood aceitando a verdade nua crua assim, mas Demi Moore foi colecionando prêmios e achei que pudesse ter errado. Há Há Há.
A vitória de Mikey Madison, uma atriz com menos de 10 filmes no CV e com apenas 25 anos diz tudo que precisamos saber. Há o etarismo e o passo para trás (pelo menos nos últimos 10 anos as ‘jovens’ estavam na casa dos 30 anos), mas há também uma renovação e uma aposta em um novo talento. Mikey está sensacional em Anora, e o filme é realmente excelente. Gosto de tudo que ele representa: o cinema independente, uma narrativa linear, uma história aparentemente simples, mas verdadeira, grandes atuações e um final emocionante, que nos faz refletir. Melhor ainda, Anora é uma homenagem aos clássicos do cinema (é inspirado em Noites de Cabíria, de Fellini) então é um filme que une gerações.

O que ficou meio mais ou menos na noite? Bom, fora o número de abertura com Ariana Grande e Cynthia Erivo cantando os sucessos de O Mágico de Oz e Wicked, a homenagem a 007 foi medonha. Nenhuma das grandes estrelas estiveram no palco, como antecipei, e o medley não refletiu os maiores sucessos. A melhor montagem para James Bond foi em 2013, era desnecessário o que vimos no palco em 2025. Também a homenagem à Quincy Jones ficou fora do lugar, com apenas cinéfilos lembrando que Queen Latifah estava cantando um dos grandes sucessos de The Whiz (a versão de O Mágico de Oz com elenco negro).
A noite que era uma das mais imprevisíveis dos últimos tempos rapidamente sinalizou o domínio de Anora, enterrando os demais e comprovando que o Oscar não sabe ser nem inovador ou aberto a surpresas. Depois da segunda vitória de Sean Baker (que escreveu, editou, dirigiu e produziu o filme) já se sabia exatamente o que viria, ainda bem que ele é versátil e simpático, jamais nos deixando com bocejos alegando surpresa ou humildade: ele estava pronto para vencer.
No final das contas, fora a frustração de não ter visto Fernanda Torres no palco, como merecia, o Oscar não encerrou a nota com “muitas” injustiças. A principal não foi entre as atrizes, mas ter Jeremy Strong engolir Kieran Culkin ser o Melhor Ator Coadjuvante em vez dele. Doeu em mim, imagino no ator.
Fechamos então a temporada de premiações e aguardamos os Emmys, em setembro. Estou exausta! Mas valeu cada segundo.
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