Em uma era onde filmes e séries são cada vez mais inspirados em histórias reais, evitar spoilers se tornou praticamente impossível. Quando assistimos a produções baseadas em eventos históricos ou biografias, já sabemos o destino final dos personagens antes mesmo de começar. Mas e quando a história não é real, mas sim parte de um universo fictício? As prequelas enfrentam esse desafio único: como manter o público investido em uma trama cujo desfecho já está escrito? Séries como Andor, Vikings, House of the Dragon e The Last of Us exploram essa questão de formas distintas, mas todas compartilham um ponto em comum: elas não se apoiam apenas no destino inevitável de seus protagonistas, mas sim no caminho que os leva até lá.


A chave para uma prequela bem-sucedida está em sua abordagem. Em vez de focar no suspense sobre o que vai acontecer, ela deve construir uma narrativa envolvente que faça o público se perguntar como isso acontece e por que isso importa. Em Andor, por exemplo, a tragédia de Cassian já foi revelada em Rogue One: ele se sacrificará para que a Rebelião obtenha os planos da Estrela da Morte. No entanto, a série não se limita a mostrar um Cassian já convertido à causa rebelde. Pelo contrário, ela constrói sua jornada desde um homem cínico e individualista até o revolucionário disposto a morrer por algo maior. Cada episódio expande sua história, adicionando camadas à sua personalidade e tornando seu sacrifício em Rogue One ainda mais significativo.
O mesmo acontece com Vikings. A história de Ragnar Lothbrok é baseada em lendas e relatos históricos, e os fãs já sabiam que sua morte era inevitável. Ainda assim, a série conseguiu transformar sua trajetória em uma narrativa cativante, explorando seus conflitos internos, ambições e legado. Em vez de apenas mostrar o que já estava predeterminado, a série enriquece sua figura, tornando sua queda um evento tão grandioso quanto sua ascensão.


Em House of the Dragon, baseada no livro Fogo & Sangue, os fãs de Game of Thrones já conhecem o desfecho da Dança dos Dragões. Momentos importantes como mortes de personagens ou acidentes que mudariam o trajeto da história eram discutidos com detalhes anos antes da série ir ao ar. O mesmo acontece agora quando começaram a filmar a terceira temporada: sabemos o que vem por aí. Ou assim pensamos.
Mesmo assim, House of the Dragon consegue prender a atenção ao explorar as relações interpessoais, as disputas políticas e as motivações de cada personagem. Saber quem morre ou quem vence a guerra não diminui a tensão dos conflitos apresentados, pois o verdadeiro interesse está em como cada escolha e traição moldam o curso da história.
Nenhuma franquia explora tanto a estrutura de prequelas quanto Star Wars. A trilogia prelúdio, formada por A Ameaça Fantasma, O Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith, nos mostra a ascensão e queda de Anakin Skywalker, transformando Darth Vader de um simples vilão icônico em um personagem trágico. Mesmo sabendo que ele se tornará o lorde sombrio do Império, acompanhar sua gradual corrupção pelas mãos de Palpatine é um exercício de frustração e melancolia. Seu destino está selado, mas cada momento que o aproxima dele carrega um peso emocional imenso.


O filme Rogue One também é um excelente exemplo de como uma prequela pode transformar um evento conhecido em algo poderoso. Desde Uma Nova Esperança, sabíamos que os planos da Estrela da Morte foram roubados pela Aliança Rebelde, mas nunca conhecíamos a história por trás desse feito. O filme nos apresenta Jyn Erso e seu grupo de rebeldes, construindo uma narrativa que culmina em seu sacrifício inevitável. O impacto emocional da cena final, onde os planos são transmitidos momentos antes da destruição de Scarif, torna o que antes era apenas um detalhe na saga em um dos momentos mais emocionantes da franquia. E há uma prequela da prequela com Andor.
Além disso, spin-offs como Obi-Wan Kenobi e The Bad Batch seguem essa lógica, preenchendo lacunas na história e expandindo a mitologia do universo Star Wars. Em Obi-Wan Kenobi, já sabemos que Obi-Wan e Darth Vader sobreviverão, mas isso não impede a série de explorar sua dor, remorso e sua relação conturbada com o passado. Em The Bad Batch, acompanhamos um grupo de clones renegados logo após a ascensão do Império, observando a transição da República para o regime autoritário de Palpatine.


Embora The Last of Us não seja uma prequela no sentido tradicional, a série da HBO, assim como o jogo, inclui momentos que funcionam como prequels dentro da narrativa principal. O episódio Left Behind, baseado no DLC do primeiro jogo, explora a história de Ellie antes de conhecer Joel. Sabemos que Riley, sua amiga e possível primeiro amor, não sobreviverá. Sabemos que Ellie será marcada por essa perda. Mas isso não torna a história menos impactante – pelo contrário, torna cada momento entre elas mais precioso, pois já carregamos o peso da inevitabilidade.
A segunda temporada de The Last of Us também trabalhará com essa ideia, adaptando eventos do jogo The Last of Us: Part II. Como os jogadores já conhecem o destino de personagens importantes, a série poderá usar esse conhecimento para intensificar a carga emocional de cada cena, dando novos significados a momentos que antes pareciam triviais.


O segredo do sucesso de uma prequela está em sua capacidade de aprofundar os personagens e fazer com que sua jornada emocional seja envolvente o suficiente para que o público não se prenda apenas ao destino final. Quando bem-feitas, elas não apenas expandem a história de um personagem, mas enriquecem o universo ao seu redor. Prequelas bem construídas nos fazem ver eventos e personagens sob novas perspectivas, adicionando complexidade a histórias que já conhecemos. Em Andor, meu coração sente a cada passo que Cassian Andor dá para seu heroísmo e o desfile de personagens que não estão em outras histórias me faz temer por cada um que entra em cena.
Além do heróis de Star Wars, o mesmo com acontece com The Last of Us, ambas de volta às nossas vidas em abril de 2025. Saber o final de um personagem não significa que sua trajetória será menos interessante porque o verdadeiro peso não está no destino dos personagens, mas na maneira como elas reconfiguram nossa visão sobre o que já sabemos. Se bem construídas, elas transformam um final trágico em algo ainda mais significativo, porque, no fim, não importa apenas como um herói morre, mas sim como ele viveu. Você concorda?
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