Ward McAllister: O arquétipo da vaidade na Era Dourada

Guardei alguns fatos reais que são retratados em The Gilded Age para quando fossem confirmados, e um dos mais esperados teve destaque no trailer da 3ª temporada: o lançamento do livro Sociedade como a Encontrei (Society as I Found It), de Ward McAllister. A obra pode ser vista como uma espécie de predecessor de Truman Capote, cujo livro Súplicas Atendidas (Answered Prayers) foi considerado um “suicídio social” — e todo o drama rendeu a excelente Capote e os Cisnes.

Publicado em 1890, Sociedade como a Encontrei (Society as I Found It) foi controverso e, assim como décadas depois aconteceria com Capote, teve consequências catastróficas para a posição social do autor. Tanto McAllister quanto Capote se colocaram como cronistas íntimos de uma classe que os tolerava enquanto se mantinham úteis e discretos, mas que rapidamente os rejeitou quando suas palavras passaram a expor demais. Fica a promessa de um paralelo mais específico mais à frente. Agora, vamos falar do “inocente” registro de um homem vaidoso que, como veremos na série, brincou com o fogo e se queimou.

Até que publicou “o” livro

Nas duas temporadas de The Gilded Age ficou mais do que clara a influência e importância de Ward McAllister na sociedade de Nova York — tanto que Bertha Russell (Carrie Coon) faz de tudo para tê-lo como amigo e mentor. “Certifique-se de que seja um sucesso”, diz Aurora Fane (Kelli O’Hara) para Bertha. “Ele não lhe dará uma segunda chance,” ela alertou. Afinal ele era o autoproclamado árbitro social da alta sociedade nova-iorquina, interpretado na série por Nathan Lane.

Antes, lembremos que estamos falando de um dos homens mais controversos e influentes da alta sociedade americana durante a chamada Era Dourada. Nascido em Savannah, Geórgia, em 1827, McAllister estudou Direito e chegou a atuar como advogado na Califórnia durante a Corrida do Ouro. Ainda jovem, viajou para a Europa, onde observou de perto os costumes e o cerimonial das cortes e da nobreza europeia — experiência que moldaria profundamente sua visão sobre etiqueta, prestígio e distinção social.

Ao retornar aos Estados Unidos, fixou-se em Nova York, a nova capital financeira e cultural do país, e dedicou-se a construir uma carreira social tão estratégica quanto qualquer empreendimento empresarial. Foi ele quem, por volta da década de 1870, articulou a ideia de uma aristocracia americana fundada não apenas no dinheiro, mas também no comportamento, nas boas maneiras e em uma rede restrita de relações. Tornou-se o braço direito e o “mestre de cerimônias” de Caroline Astor (Donna Murphy) — a famosa “Mrs. Astor” —, matriarca da sociedade nova-iorquina e grande responsável por determinar quem era ou não aceito nos círculos sociais mais altos.

“Ora, só há cerca de 400 pessoas na sociedade elegante de Nova York. Se você sair desse grupo, vai topar com gente que não se sente à vontade em um salão de baile — ou que faz os outros não se sentirem. Entendeu o ponto?”

Ward McAlister

McAllister foi o criador da expressão The Four Hundred, que designava as 400 pessoas que, segundo ele, representavam o círculo mais seleto da elite nova-iorquina. O número fazia referência à capacidade de lotação do salão de baile da casa dos Astor, embora o gesto também tivesse um caráter simbólico: uma linha de corte rígida e quase aristocrática dentro de uma sociedade que, em teoria, se orgulhava de sua mobilidade e meritocracia. Essa invenção de McAllister alimentou o fascínio popular por listas de exclusividade e rankings sociais — antecessoras diretas das listas da Forbes e das colunas sociais modernas.

Carismático, perspicaz e extremamente atento aos códigos sociais, McAllister era ao mesmo tempo admirado por seu domínio das regras da etiqueta e detestado por sua presunção e vaidade. Sua insistência em se apresentar como o árbitro definitivo do gosto e do prestígio o tornava uma figura ridicularizada por muitos membros da elite que ele ajudava a sustentar. Ainda assim, sua influência era inegável: organizava bailes, recomendava convivas, indicava fornecedores de luxo, chefs e vinhos, e redigia cartas de apresentação — tudo isso em nome da manutenção de uma ordem social “adequada” num tempo em que novos-ricos ameaçavam romper com as hierarquias estabelecidas. Tudo como vimos em The Gilded Age.

Até que publicou “o” livro

Em 1890, McAllister publicou seu livro Society as I Have Found It, uma espécie de memorial social no qual relata com franqueza — e, para muitos, com indiscrição — os bastidores da elite nova-iorquina. O livro contém observações detalhadas sobre festas, refeições, hábitos de consumo, tipos sociais e até dicas sobre o que beber, como se portar em jantares, como contratar um bom cozinheiro ou evitar gafes sociais. A publicação, embora ambiciosa, teve um efeito devastador sobre sua reputação: muitos dos que ele mencionava — direta ou indiretamente — passaram a vê-lo como traidor do pacto de silêncio e discrição que sustentava a alta sociedade. A obra foi recebida com zombarias em parte da imprensa, e McAllister foi progressivamente excluído dos círculos que havia ajudado a construir.

Sua morte, em 1895, ocorreu em relativo ostracismo. No entanto, sua figura permanece como símbolo de um momento singular da história americana, em que a elite buscava imitar as tradições aristocráticas europeias enquanto enfrentava o crescimento desorganizado e frenético de uma nova ordem social. Com sua mistura de vaidade, inteligência social e espírito normativo, Ward McAllister representa a tentativa de impor regras e elegância a um mundo em transformação — e sua trajetória é também um estudo sobre os limites da influência individual dentro das estruturas voláteis do prestígio.

Entre as revelações mais polêmicas ou indiscretas, destacam-se:

1. Exposição dos “Quatrocentos”

McAllister explicitamente se vangloria de ter cunhado a ideia de que apenas 400 pessoas realmente “contavam” na sociedade nova-iorquina, baseando-se no número de convidados que o salão de baile de Mrs. Astor comportava. Embora ele não publique uma lista oficial no livro, todos sabiam de quem ele falava — os nomes circulavam em colunas sociais e listas não oficiais —, e sua insistência nesse conceito foi vista como exclusivista, ofensiva e pretensiosa por muitos que se viam fora da lista. Para a elite emergente de milionários industriais (os chamados nouveaux riches), isso foi um insulto velado. Para os membros da velha guarda, a ideia de que McAllister — um sulista sem linhagem nobre — estivesse autorizado a definir essa aristocracia era intolerável.

2. Detalhes sobre festas e convivas

McAllister revela, com minúcias consideradas grosseiras à época, o funcionamento interno dos bailes, jantares e reuniões sociais da alta sociedade. Comenta sobre os convites, sobre quem merecia ser convidado, sobre as intrigas que ocorriam nos bastidores e chega a oferecer opiniões pessoais sobre a sofisticação (ou a falta dela) de certos anfitriões. Fala, por exemplo, de jantares onde “grandes nomes” não sabiam usar corretamente os talheres ou cometiam gafes de comportamento — sem necessariamente dar nomes, mas insinuando o suficiente para que os leitores bem informados compreendessem as indiretas.

3. Críticas à nova riqueza

Um tema recorrente no livro é o desconforto de McAllister com os milionários recém-chegados que tentavam comprar seu lugar na sociedade com ostentação. Ele ironiza os excessos dos novos-ricos, chamando atenção para festas desmedidas, para a contratação de cozinheiros franceses que mal falavam inglês e para casas decoradas com luxo importado, mas sem “gosto”. Embora ele mesmo tenha sido um intermediário desses recém-chegados buscando legitimação, suas críticas soaram hipócritas e ofensivas — um tiro no próprio pé que gerou mal-estar.

4. Menções (quase) diretas a figuras reais

Embora McAllister tenha tentado evitar litígios, ele cita e descreve pessoas reais com nomes completos ou pseudônimos facilmente identificáveis. Entre os alvos está a própria Mrs. Astor, com quem mantinha uma relação simbiótica, mas tensa. Ao escrever sobre ela com um tom possessivo e celebratório — chamando-a de “Rainha da Sociedade” —, acabou expondo o funcionamento interno de sua autoridade social, o que enfraqueceu sua mística. Outros nomes citados incluem membros das famílias Vanderbilt, Schermerhorn, Rhinelander e Goelet. Embora raramente tenha sido abertamente ofensivo, o simples fato de escrever sobre essas pessoas em um livro público foi considerado uma traição.

5. Detalhes sobre costumes e hábitos

McAllister descreve rotinas e costumes privados com um tom de superioridade e prescrição moral. Fala, por exemplo, sobre o número ideal de pratos num jantar elegante, sobre como se deve receber convidados estrangeiros (como príncipes europeus) e critica aqueles que ignoram o protocolo — inclusive alguns dos “novos-ricos”. Ao fazer isso, revela as tensões entre tradição e modernidade e acaba expondo a fragilidade de uma elite que queria parecer segura, mas era obcecada por aparência e validação social.

6. Vaidade e autopromoção

O escândalo final, talvez o mais duradouro, foi o próprio tom do livro. McAllister escreveu como se fosse o único verdadeiro conhecedor da etiqueta e das hierarquias sociais. Apresenta-se como mentor, guia, legislador e até árbitro moral — o que muitos viram como uma mistura de arrogância e ridículo. O livro é recheado de autoelogios e frases que exaltam sua própria influência, como quando diz que, sem ele, a sociedade de Nova York teria se tornado um “caos de vulgaridade”.

O impacto foi imediato e devastador. McAllister foi ridicularizado na imprensa, satirizado em caricaturas e excluído dos círculos mais íntimos da elite que antes o tolerava ou usava. A própria Mrs. Astor distanciou-se dele após a publicação. O livro não apenas lhe custou reputação, mas marcou simbolicamente o início do fim da sua era como “mestre de cerimônias da sociedade”. Ainda assim, sua obra hoje é uma fonte histórica riquíssima: um testemunho do esforço para aristocratizar uma nação jovem, desigual e em rápida transformação. Suas “fofocas” revelam tanto sobre os indivíduos quanto sobre o sistema de prestígio, exclusão e encenação que sustentava a elite americana do século XIX.

O que ele revelou sobre Caroline Astor — e por que foi escandaloso

Em seu livro, McAllister confirmou publicamente que Caroline Astor era a soberana da sociedade novaiorquina. Até então, o domínio dela era tácito, um “segredo aberto” que só circulava entre os iniciados. Ao declarar explicitamente que ela era “a verdadeira líder da sociedade” e a principal figura entre os “Four Hundred”, McAllister deu um nome e um rosto à aristocracia informal da América — o que muitos consideraram deselegante, vulgar e até mesmo perigoso. Ele a tratou como uma monarca social, descrevendo como os convites para seus bailes eram disputados e como ela “legitimava” famílias e indivíduos por meio da aceitação.

Parte desse ritual foi explorado nas duas temporadas de The Gilded Age, com Bertha tentando agressivamente obter a aprovação da Sra. Astor no baile que encerra a 1ª temporada, além do embate entre as duas na chamada Guerra das Óperas — conflito do qual Bertha (no lugar de Alva Vanderbilt) saiu vitoriosa.

Como já mencionei mais de uma vez, o fato de McAllister ter revelado os bastidores da criação dos “Four Hundred” foi a gota d’água da sua traição. Embora ele afirmasse que o número vinha da capacidade do salão de baile da Mrs. Astor, ficou claro que se tratava de uma lista excludente e rigidamente curada. McAllister admitiu que ele e a Sra. Astor decidiam juntos quem merecia entrar nesse círculo — uma admissão de nepotismo e controle social. Isso derrubou o mito do mérito e revelou que a sociedade era uma construção deliberada, não uma ordem natural.

Se não bastasse, ele detalhou os critérios para ser aceito, descrevendo em minúcias o que considerava “boas maneiras”, “linhagem” e “comportamento aceitável” — revelando, indiretamente, o que Caroline Astor esperava de seus pares. Isso escancarou que muitos dos novos-ricos eram sistematicamente excluídos não por falta de refinamento, mas por puro preconceito de classe.

O que o texto inocente e esnobe deixa claro é que ele era um bajulador — e isso gerou repulsa. Mesmo elogiando Mrs. Astor, o modo como o fez — exaltando cada detalhe de sua postura, suas festas, seus julgamentos — foi visto como vaidoso, servil e comprometedor para ambos. Ele transformou a Sra. Astor em personagem pública num momento em que a discrição era o verdadeiro luxo.

Para muitos leitores da época, parecia que ele queria usar o prestígio dela para reafirmar o próprio poder — como se dissesse: “vejam, eu sou o conselheiro da rainha”.

O mais humilhante foi o fato de que McAllister tornou público o mecanismo de controle social ao explicar como a Sra. Astor “salvava” ou “bania” famílias inteiras com um gesto. Assim, revelou que o glamour da alta sociedade era sustentado por dinâmicas duras de exclusão, humilhação e diplomacia estratégica — um sistema semelhante à corte absolutista, mas sem coroa.

Embora não o tenha criticado publicamente, a Sra. Astor rompeu com McAllister após a publicação do livro. O nome dele foi aos poucos retirado da sociedade que ajudara a construir, e ele passou a ser visto como um velho vaidoso, oportunista e antiquado — incapaz de perceber que havia ultrapassado o limite do que podia ser revelado, especialmente sobre uma figura tida quase como sagrada. Quando morreu cinco anos depois de publicar o livro, McAllister havia caído em desgraça a tal ponto que quase ninguém apareceu em seu funeral — incluindo a Sra. Astor. Ela tinha um jantar naquela noite.

Assim, embora não tenha feito como Truman Capote, que publicou fofocas explícitas sobre casos extraconjugais, falências ou humilhações pessoais, Ward McAllister revelou algo ainda mais imperdoável para os padrões da Gilded Age: ele expôs os bastidores do poder. Tornou público o que era para ser segredo — e, naquele universo regido por aparências, isso foi mais escandaloso do que qualquer traição sexual. Porque, ao rasgar o véu, ele não apenas traiu Caroline Astor — traiu o próprio mito que sustentava toda a elite.


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