Há algo estranho no ar. O que mais me anima em assistir And Just Like That é observar os restaurantes — para atualizar minha agenda — do que me envolver com o fiapo de trama que a série propõe. A terceira temporada está com fracos sinais de pulso. Falta muito para chegar a ser válida de ser comentada semanalmente porque… NADA ACONTECE.
Primeiro, nos alimentam com a falsa esperança de que Carrie vai voltar a decifrar a noite de Manhattan, quando encontra a ex-vizinha Lisette em um bar descolado no Village. Mas nada acontece. Ouvimos uma queixa que, em dias melhores, teria sido o tema do episódio — como se relacionar em tempos digitais —, quando Lisette, uma jovem millennial, solta uma crítica improvável: elogia a geração X por não ter sido criada com os aplicativos e por não ser escrava do telefone. Voltarei a esse ponto.
Enquanto isso, Miranda descobre os prazeres do hate watching — e se torna a porta-voz de quem ainda assiste And Just Like That só para reclamar. O alvo da vez? A geração millennial que consome realities bregas sobre relacionamentos. Claro que, no meio da crítica, ela mesma se vicia neles. Um ótimo tema que poderia ter sido explorado… mas não. É apenas desculpa para mais uma cena de flerte fracassado com mulheres indisponíveis. Miranda admite estar interessada na jornalista da BBC que conheceu na temporada passada — a mesma que diz não misturar trabalho com vida pessoal. Ah, claro.

Seema, a substituta de Samantha Jones, segue presa no carrossel de primeiros encontros, tão descolada que descarta qualquer homem em questão de segundos. Eu adoro a Seema. Mas aqui está a diferença que nunca a colocará no mesmo patamar de Samantha: enquanto esta era absolutamente consciente e honesta sobre o fato de que encontrar “o homem ideal para casar” não era nem provável nem desejável, Seema, aos 60, ainda fala em príncipes encantados. Samantha teria aproveitado todos esses encontros que Seema rejeita — para se divertir, para transar, ou ao menos para rir depois.
Seema ainda tem algo engessado, como se estivesse interpretando a versão “empoderada e chique” de si mesma, enquanto Samantha — sim, com alma de personagem gay icônico — era absolutamente entregue ao prazer e ao risco, sem precisar parecer nada além do que era. A curiosidade maior aqui, porém, está em outro ponto: a volta das casamenteiras. Está na moda em Manhattan. E teria sido sensacional se a série tivesse se aprofundado nesse mercado analógico que, ironicamente, faz o mesmo trabalho que os apps — só que com carne, osso e julgamento humano. Sex and the City teria feito isso, só dizendo.
E Charlotte? Ela e Lisa seguem em um tom acima da comédia forçada, agora obcecadas em escolher uma mentora para preparar os filhos para boas universidades. É mais um retrocesso que aproxima a série de Gossip Girl na competição de mães ricas e neuróticas em escolas caras. Só piora com o fato de que é gravado no mesmo cenário da série teen (que, by the way, era a versão adolescente de Sex and the City, com doses generosas de dramalhão mexicano). Charlotte, tão ocupada com isso, mal nota que Anthony agora tem uma loja no Upper East Side. E daí?
Voltando à Carrie: ela está em seu apartamento novo, no jardim privativo, rascunhando o próximo livro quando descobre uma infestação de ratos. Sua primeira reação é ligar para Aidan — mas, veja bem, eles combinaram de “não se comunicarem”. Sério?
E alguém ensina à Carrie como se manda um áudio no celular? A cena inteira dela ditando mensagens — sem nunca enviá-las — até concluir que é melhor usar emojis (uau, que moderna!) foi… pífia.
Aidan então aparece do nada, sem um telefonema, sem um emoji, sem nada. Ele surge para se desculpar e admitir que as regras que eles criaram são bizarras, e que precisam se comunicar mais e se ver com mais frequência. Carrie fica feliz. O século 21 bateu à porta deles, enfim.
Meu recap está preciso. Foi exatamente assim que tudo aconteceu. Só omiti um detalhe: Carrie contrata um jardineiro bonitão que poderia, teoricamente, ser um novo interesse amoroso. Mas ela está tão asséptica que duvido. O trailer sugere que é a Seema quem vai tentar “cultivar” algo ali — na jardinagem e além.

And Just Like That continua com um sério problema: está fora de sintonia com seu próprio público. E não é só por tentar rejuvenescer. De certo modo, é coerente com a insegurança da geração X ao lidar com os millennials. Mas Carrie e cia nem sequer exploram essa tensão de forma consistente. Ainda estão achando graça em comparar os tempos pré-digitais com um romantismo ingênuo, como se fosse fofo não dominar tecnologia. E acreditam, sinceramente, que os dilemas são os mesmos. Isso é raso. E cansativo.
O episódio tinha, sim, material para ser interessante. Poderiam ter explorado como os apps ainda falham em criar conexões reais (Lisette e Seema, a ponte perdida); como realities tolos de pessoas “reais” estabelecem vínculos com os jovens (Miranda); ou mesmo as angústias dos adolescentes pressionados por pais ansiosos (Charlotte e Lisa).
Mas é via Miranda que entendemos o que And Just Like That está fazendo. A série abraçou com amor o hate watching. É o Bi Island das quarentonas. Todo mundo reclama, todo mundo assiste. E seguimos para a próxima semana, resignadas — mas com o Google Maps aberto para anotar mais um restaurante.
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