Teatro Municipal do Rio ganha fôlego com gestão de Clara Paulino

Como publicado na Revista Bravo!

A atual presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Clara Paulino, estudou História e assumiu sua função em meio à Pandemia, encontrando um espaço de enorme importância cultural, mas que também enfrentava desafios — tanto de gestão quanto de programação. Desde então, Clara vem conduzindo uma administração focada em organização, previsibilidade e diversidade artística, sem abrir mão da excelência. Não tem sido um caminho fácil. Na semana em que a programação cultural do ano estava começando, ela se sentou para conversar com a Revista Bravo! sobre essa transformação no Municipal, lembrando os bastidores dessa gestão e o que vem pela frente para um dos palcos mais simbólicos do país.



BRAVO!
Quando foi a primeira vez que você esteve no teatro municipal?

CLARA
Foi com um passeio de escola na minha oitava série, foi lindo. A gente veio de metrô, eu estudava numa escola pública e era um hábito da diretora levar a gente em diferentes espaços. Confesso que depois tive um intervalo grande e só voltei ao teatro quando eu estava na faculdade pra assistir Carmen. Sentei lá no último lugar da Galeria, que era o que conseguia comprar. [risos]. Depois, voltei num evento de entrega de certificação quando trabalhava no Iphan e voltei para assistir, por conta própria, uma outra ópera com a minha família. Sempre achei o teatro lindo. Eu sou historiadora, então é uma referência, é um patrimônio. Mas nunca imaginei estar presidindo, né? Sempre vim como público e não era uma frequentadora assídua.  

BRAVO!
Como surgiu o convite para assumir a Presidência? Veio surgiu em plena pandemia da COVID 19 e o Teatro estava passando por vários problemas. Como é que você encarou esse convite? Pensou 2 vezes ou aceitou de primeira?
CLARA
Aceitei de primeira, mas com bastante nervosismo. Já trabalho na gestão há algum tempo, em todas as esferas, trabalhei na Prefeitura do Rio de Janeiro e depois no interior do estado, vim para o Iphan, trabalhei no governo federal. Na época, a secretária de cultura era a Eva Doris e me chamou para trabalhar na superintendência de museus do estado do Rio. Aceitei, fui trocando de funções e aí, no meio da pandemia, no meu aniversário e ela me disse que ia me tirar da presidência da instituição que eu estava, que era o Museu da Imagem e do Som, para assumir o Teatro Municipal. A ficha demorou a cair. Olhei para ela e falei ‘mas por que que você tá me colocando no Teatro? Eu não sei dançar, eu não sei tocar, eu não sei cantar…’ Ela falou ‘não preciso disso. Eu preciso de alguém que faça a gestão desse equipamento e eu acho que você tem esse perfil’.  Tenho essa visão. O Teatro é uma referência de um espaço de cultura, é a referência de um espaço que tem profissionais qualificados e que trabalham desde sempre em prol de fornecer Arte, de fornecer Cultura, então fiquei muito honrada, mas também com muito medo porque junto com essa possibilidade de trabalhar aqui, vinha uma série de exigências. Era um espaço imenso, um patrimônio que eu sabia a responsabilidade de conservar, com uma equipe grande e principalmente de servidores efetivos. E que eu já sabia que, de certa forma. Estavam desmotivados por n questões. E tinha a pandemia também.

BRAVO! Um senhor desafio
Sim, e a gente estava no meio da pandemia, onde eu precisava retomar uma programação. A pandemia foi decretada exatamente no dia de abertura da temporada do Teatro Municipal. Então aceitei de imediato, mas isso ficou rodando na cabeça por um bom tempo. Mas foi bom. Quando cheguei, fiz o que eu costumo fazer ao assumir uma instituição, sou muito certinha, muito metódica. Chamei todos os dirigentes para entender o que é que eles consideravam pontos positivos e negativos dentro do Teatro Municipal. Isso me possibilitava entender em que pé a gente.

BRAVO! E como foi?
CLARA
Depois das conversas montei um plano de ação, que podia dar certo ou não, mas que tinha as suas linhas entre uma regularização de contratos administrativos, a retomada da programação colocando um prazo e como, mesmo no meio da pandemia, isso teria seria retomado. E uma tentativa também de recuperar, de certa forma, e motivar a equipe.  Fazer com que eles voltassem a se sentir valorizados.

BRAVO!
Como é que você os encontrou, porque o Teatro passou por vários momentos difíceis, mas esse certamente foi ainda pior…

CLARA
Sim, agravado pela pandemia. A gente fala que ‘casa fechada acaba se deteriorando com mais rapidez’ e foi isso que aconteceu no Teatro. Não tinha contrato vigente quando cheguei ao teatro, precisava retomar tudo. Segurança, limpeza, recarga de extintor, sistema de incêndio, ar-condicionado, elevador. A gente ficou quase um ano subindo de escada porque os elevadores estavam desligados. O carpete estava ruim, os estofados estavam velhos, o Teatro necessitava de pintura. Você andava pelos corredores e tinham buracos, áreas estufadas. A instituição teve a sua grande obra entregue em 2010 e não tinha passado por manutenção até 2021. Eram 10 anos com pessoas circulando, usando, transitando e logicamente, tudo se desgasta, tudo acaba. Então foi necessário sentar, pensar com calma e estabelecer prioridades.



BRAVO!
Também tinha a questão dos salários atrasados…
CLARA
Exato.  Os salários estavam sendo pagos, mas estado tinha passado por uma situação difícil, o salário de todo o estado ficou atrasado. E a gente tinha alguns benefícios também atrasados e que precisavam ser regularizados. Foram essas diversas frentes. Primeiro, na parte administrativa cuidando do básico para a gente poder reabrir o teatro:  os contratos de limpeza, os contratos de segurança, o elevador, porque a gente tem um público muito grande de idosos vindo ao teatro. Era fundamental a questão da regularização da parte de incêndio e do ar-condicionado. Essas foram as prioridades. Recarga de extintor e tal. Isso feito, a gente começou a atuar em outros pontos.

BRAVO!  Em quanto tempo conseguiu ajustar o básico?
CLARA
Um ano, mais ou menos um ano e 2 meses para a gente conseguir fazer tudo. E aí a gente começou a atuar em outros pontos. A troca das cortinas, a troca de carpete. Por último, a troca dos estofados. Desde janeiro de 2025 a gente vem fazendo a pintura da área social de circulação, do teatro. Os serviços na parte dos funcionários, a gente regularizou. Tinha ainda benefício de 2019 a ser pago, a gente pagou. Hoje em dia a gente paga regularmente.

BRAVO! E contratações?

CLARA
A gente vem conversando com o governo do estado para a realização de concurso e o processo está tramitando. Temos muita esperança que aconteça, uma vez que os corpos artísticos estavam defasados, por isso a gente teve autorização de fazer a contratação temporária para reforçar tanto a área administrativa técnica quanto os próprios corpos artísticos. Isso não para.

BRAVO! Enquanto isso tudo o Teatro continuou aberto e funcionando?

CLARA
A gente brinca que a gente é que é especialista em trocar o pneu com um carro andando. [risos] No ano retrasado, para mudar o estofamento de toda a sala de espetáculos a gente pegava os ensaios no palco e o período de montagem e trabalhava por espaço. Era a plateia, depois outro pedaço.

BRAVO! E por ser do governo, todo o processo é mais complicado, não?
CLARA
Não recebemos verba diretamente. A gente recebe o orçamento do Tesouro. O Teatro até tem trabalha com uma fonte para além da fonte do Tesouro, que é uma fonte de recursos próprios, mas essa fonte tem que ser licitada. É uma questão de transparência da malha pública. Realmente as pessoas esquecem que a gente segue uma legislação e segue alguns ritos, que é a burocracia que existe em todo lugar.

BRAVO!
E Anão ficou a sendo prioridade em muitos anos, né?
CLARA
Exatamente. Exatamente. A gente sabe que hoje em dia, felizmente, a gente faz parte de um governo que acredita na cultura. A gente tem uma parceria muito grande com a Secretária de Cultura, que veste a camisa e acredita nessa questão da democratização, na valorização. Mas em outros momentos não foi uma prioridade. Até porque a gente disputa verba e orçamento com Educação, Saúde, Segurança Pública. Hoje em dia a gente tem uma complementação de recurso grande por Patrocínio também. Mas que esse cenário um pouco mais confortável só está acontecendo de 2 anos para cá. Já tínhamos patrocínio, mas o patrocínio no ano passado aumentou consideravelmente.

BRAVO! E como foi que isso mudou?
CLARA
Tivemos alguns percalços. Tínhamos dois patrocinadores quando cheguei no Teatro e a gente trabalhou com eles por algum tempo. Pouco depois que a gente retomou a programação, um dos patrocinadores deixou o Teatro. Na época teve uma matéria que falava que o Teatro não oferecia condições para retomar a programação e a gente chegou a responder porque não era informação verídica, mas, por mais que a gente tivesse explicado, fiz um documento formal confirmando que aquela informação não procedia, um dos patrocinadores deixou o Teatro. Quem continuou patrocinando o Teatro Municipal foi a Petrobras, que já é parceira há 20 anos da instituição. Ela patrocinava parte da temporada, mas há mais ou menos uns 3 anos conversamos e a Petrobras, felizmente, com uma visão muito acolhedora e entendendo a importância do trabalho do Teatro, abraçou e e conseguimos um patrocínio de 20 milhões de reais, com parte da verba destinada à programação e outra destinada à manutenção do espaço.

BRAVO! A divisão é igual?
CLARA
Não, são 60% desse valor para a programação porque a temporada sempre é a prioridade. Mas com esse recurso tiveram ações como a revitalização do Boulevard, como a própria manutenção do ar-condicionado. As pessoas nem sempre veem, né? São trabalhinhos que a gente faz e que ninguém olha, como o ar-condicionado do teatro.

BRAVO! Até estar no espetáculo pro sentido calor.
CLARA
Exatamente, até reclamar. Mas encaro isso sempre na vida, né? Sempre há uma possibilidade de aprendizado. Cheguei entendendo de patrimônio, de conservação – que são as minhas áreas de estudo, especialização e de gestão – e quando eu cheguei no Teatro, não sabia qual era a formação de uma orquestra, como funcionavam os naipes, qual a necessidade desses artistas, a questão de manutenção de instrumento. A mesma coisa de um bailarino: você assiste o espetáculo, acha muito bonito, mas tem que pensar que cada figurino é feito para aquela pessoa, quantas sapatilhas ela vai utilizar, que se o piso não tiver adequado, ela pode ter uma lesão. Muitas pessoas pedem que a gente faça récitas, mas existe um desgaste físico. Na equipe do teatro, a gente tem um médico, fisioterapeuta, enfermeiro. Como uma boa dona de casa, você tem que ir vendo onde coloca cada peça para que a casa funcione. Problemas vão existir, mas desde que funcione minimamente e que funcione para todos, né?

BRAVO! E os ingressos a custo popular esgotam rapidamente, não é?
 CLARA
Em 40 minutos, por isso dividimos por lote, porque esgota e assim tem uma possibilidade de comprar depois. São essas coisas que a gente pouco a pouco vai entendendo se dá certo ou se não dá.

BRAVO!
O valor do ingresso deve ser complexo porque as montagens de espetáculos completos são muitas vezes luxuosos, mas à preços populares. Se eleva o preço, não necessariamente enche o teatro, mas a conta fecha?

CLARA
Isso vem também da visão da Secretaria de Estado de Cultura. Que eu já tinha também, porque a Arte, a Cultura e a Educação têm que ser acessíveis a todas as pessoas. Passei por isso. Quantas, vezes não vim ao Teatro porque não tinha como pagar o ingresso? Com o tempo, isso gera um distanciamento das pessoas da instituição. Por mais que eu conhecesse o Teatro Municipal, admirasse a programação, nem sempre me senti pertencente, ou tinha recursos para estar aqui. Esse mote da democratização de acesso é um dos grandes desafios, ainda maior do que retomar a programação. Eu acho que, enquanto servidora pública, o nosso papel é servir. E as pessoas precisam usufruir dos seus espaços.

BRAVO! E também tem o clichê de que Arte erudita não é popular, mas quando se vê o Teatro lotado, sabemos que não é assim.
CLARA
Não, não existe isso. E aí a gente já vem até discutindo, né? Porque, Ah, a arte erudita não é popular. Mas se você pegar a base de inúmeras músicas que são julgadas extremamente populares, como funk, a base do funk é a música clássica. Então, assim, é uma contradição muito grande, né? A arte erudita, para quem quer consumir a arte erudita. E aí a gente se depara, por exemplo, com o Lago, onde você tem vários comerciais que tem um trecho daquela música, né? E assim como tantas outras, então, a arte é para qualquer pessoa e tem que ser consumida e eu preciso oferecer.

BRAVO! E essa democratização: foi menos complicada?
CLARA
Quando retomei a programação com balé coloquei o ingresso gratuito, mas terminei com a porta da bilheteria literalmente quebrada. A fila foi longa e as pessoas ficaram frustradas. Falei ‘não posso mais botar ingresso gratuito’. A gente tem que cobrar, mas, se a gente quer que o público venha, o primeiro passo foi diminuir o custo dos ingressos com 100 reais o valor máximo.  E aí a gente foi investindo em outras ações e para valorizar não só o público, mas ações em que a gente pensasse no estado, porque somos um órgão do governo do estado e a gente foi fazendo pequenos projetos, como exposição itinerante, reuniões, oficinas de vivência musical pelo interior do estado, convidando as pessoas a virem ao teatro. Em paralelo, dentro da própria instituição, a gente começou a trabalhar com projetos é que traziam o interior para o teatro municipal. Outro projeto que eu tenho muito carinho é o Projeto Escola que trabalha com os professores da rede pública de ensino e com alguns projetos sociais encaminhando material para trabalhar em sala de aula e em um dia específico a gente faz o espetáculo às 2:00 da tarde e recebe esses alunos e professores. É uma cartilha educativa com a história contada de maneira mais lúdica e algumas atividades como palavra cruzada, caça, palavra e etc. As crianças é vibravam no final do Lago. E aí eu vi que elas tinham entendido a história e que o propósito tinha sido cumprido.  

BRAVO! E a programação de 2025?
CLARA
A gente abre com outro projeto gratuito, que é um projeto que aconteceu no teatro há 22 anos e que os artistas, principalmente do coro, sempre pediram muito a retomada, que é a ópera ao meio-dia, com grandes títulos de ópera, Como Dom Pasquale, que é apresentado na escadaria principal. Não é a produção completa, é uma coisinha pop com alguns artistas caracterizados, mas o cenário é a escadaria principal do Teatro. A gente tem a expectativa de atender de 60 a 80 pessoas sentadas. Esse projeto está fechado até as vésperas do Natal. Também tem as visitas guiadas que acontecem de terça a sábado, visita aos bastidores, que é para conhecer somente o palco do Teatro. Em outubro, a gente também faz a “visita fantasma”, que é uma visita teatralizada e fala dos grandes fantasmas do Teatro e conta a história por meio deles. E a gente ainda tem alguns projetos feitos com parceiros do Teatro como a oficina de desenho. Também vamos lançar a segunda edição da revista interdisciplinar do Teatro Municipal. A primeira edição foi lançada em 2024 falando  da relação do Teatro com o Carnaval,  a segunda é sobre Moda. Na próxima revista o tema previsto é sobre africanidade, para falar da relação com a cultura afro.

BRAVO! Fora as temporadas de concerto, balé e ópera, não é?
CLARA:Tudo isso ainda tem outras coisas, muitas que a gente faz é.  Abril é mês de ópera, ballet é em maio, junho é concerto, julho é ópera, agosto é ballet. A gente vai até dezembro assim.


BRAVO! Olhando para o futuro, que legado espera deixar da sua administração?
CLARA Uma instituição consolidada e funcionando de maneira correta. Para valorizar os artistas e para os artistas terem um ambiente de trabalho mais aprazível, é necessário que a instituição esteja totalmente saudável e pra isso a gente precisa de estrutura, de movimento, de um trabalho diário, e precisa se sentir bem fazendo este trabalho. Acho que o principal mote é esse. Falo por mim mesma. Eu optei por trabalhar com cultura, por ter esses desafios e amo o que faço. E acho que isso faz uma diferença tamanha porque eu não venho obrigada a trabalhar. Eu sei todos os problemas que eu vou encontrar durante o meu dia, mas eu não venho obrigada porque respeito os meus colegas de trabalho, porque dialogo e aprendo com eles. E eu acho que isso de certa forma vai se propagando pelas pessoas, né?  A partir do momento em que o teatro está fornecendo programação e que os artistas estão trabalhando num ambiente minimamente aprazível e saudável a gente consegue fornecer algo melhor para o público.  BRAVO! E o Teatro Municipal está “pronto”?

CLARA
Eu acho que nunca está pronto, sempre tem uma coisinha para fazer. A gente avançou, fez muita coisa, mas enquanto uma instituição que já é centenária e que já tem toda uma história, a gente sempre pode avançar mais. A gente pode sempre fornecer mais. A gente sabe que existem gargalos que precisam ser contornados, como a carência de profissional, a manutenção dessas pessoas. Então assim, a gente está falando de um patrimônio que é material histórico, mas a gente também está falando de vários outros patrimônios que são quase 600 vidas que a gente lida diariamente e que a gente sempre vai trabalhar para tentar melhorar.


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