Aurora Fane: A Traição e a Hipocrisia na Gilded Age

No coração do livro de Edith Wharton vencedor do Pulitzer, A Época da Inocência está a impossibilidade e o escândalo que ela um divórcio em “uma família decente”. A heroína, a Condessa Ellen Olenska, é traída e humilhada pelo marido, mas, quando ousa considerar a separação formal, esbarra com a sociedade se virando contra ela. Seu verdadeiro amor, Newland Archer, que vai se casar com a prima dela, é eleito para convencê-la a aceitar um casamento de fachada, mas quando ele se apaixona por Ellen, desabafa em uma frase lendária: “As mulheres deviam ser livres — tão livres quanto nós,” declarou ele. “Estou farto da hipocrisia que preferiria enterrar uma mulher viva a deixá-la divorciar-se de um homem.”

Essa fala resume o conflito moral e social central do romance: a hipocrisia de uma sociedade que exige das mulheres a manutenção de aparências mesmo às custas da própria felicidade — ou sanidade. Ela também mostra o conflito interno de Archer, que, mesmo reconhecendo a injustiça, acaba por ceder à convenção.

Há muito que traçamos paralelos da série The Gilded Age com os livros de Edith Wharton e Henry James, mas a terceira temporada se aproxima ainda mais dos autores através de uma personagem involuntária: Aurora Fane.

Confesso que quando deram o teaser que haveria divórcio na trama, todos pensaram em Bertha e George Russell, nem tanto por problemas entre eles mas porque são inspirados nos Vanderbilts que notoriamente se divorciaram naquele período, causando furor e drama em Nova York. Eu sempre acertei quando apostei que Julian Fellowes não iria ser tão rápido ou literal com a história verdadeira. Apostei e insisto que o problema estará na casa dos Astors (a filha mais velha de Caroline vai deixar o marido por outro homem), mas os spoilers de quem viu todos ou apenas o primeiro episódio da terceira temporada revelam que o escândalo vai estar mais perto dos Van Rhijn do que a família gostaria.

Aurora Fane: A diplomacia da velha guarda sob ataque

Entre os muitos personagens que transitam pelos salões reluzentes e pelas escadarias ornamentadas de The Gilded Age, Aurora Fane é uma das figuras mais discretas e, ao mesmo tempo, mais fundamentais para o equilíbrio social retratado na série criada por Julian Fellowes. Sobrinha do falecido marido de Agnes van Rhijn, portanto prima de Oscar van Rhijn e Dashiel Montgomery, ela adota a jovem Marian Brook como parente e amiga, sem nenhum esforço.

Aurora é o tipo de personagem que nunca toma o centro do palco, mas cujas ações e palavras moldam sutilmente o curso dos eventos. Interpretada com elegância por Kelli O’Hara — atriz premiada da Broadway, dona de um timbre refinado e presença nobre — Aurora personifica a face mais conciliadora e moderna da aristocracia novaiorquina do final do século 19.

Aurora Fane pertence ao seleto grupo da old money de Nova York, a velha guarda que descende dos primeiros grandes nomes da sociedade americana, e que, no momento retratado pela série (início dos anos 1880), se vê ameaçada pelo surgimento de uma nova elite: os milionários industriais e ferroviários como George Russell e sua esposa, Bertha. Sempre discreta, Aurora parecia não adotar a mesma postura rígida e orgulhosa de sua tia Agnes, que se recusava terminantemente a reconhecer os recém-chegados. Não que ela os aceitasse, mas era menos agressiva.

Isso foi um golpe de sorte porque eventualmente ela é levada a se posicionar como uma mediadora — uma ponte entre a tradição e a transformação. Como compreende o valor da etiqueta, do pedigree e das convenções sociais, mas também acaba por enxergar a inevitabilidade da mudança e a força crescente dos novos ricos. Essa sensibilidade coloca-a em posição de destaque nos bastidores das tensões sociais, atuando como uma espécie de diplomata da sociedade novaiorquina.

Relações, conexões e traição

Aurora é casada com o vereador de Nova York, Charles Fane (interpretado por Ward Horton), um homem calmo e discreto, que acompanha a esposa em compromissos sociais mas raramente interfere nas decisões dela.

Quando involuntariamente tanto Aurora como Charles se vêem em conflito com os Russells graças aos esnobes Morris, eles viram uma peça na vingança de George contra os que maltrataram Bertha. Charles é forçado à demandar de Aurora que ajude Bertha a se integrar à alta sociedade, e ela aceita o desafio com carinho e obediência, mesmo que fique mal com os Astors e sua tia. É Aurora, por exemplo, que apresenta Ward McCalister à Bertha, e sempre está por perto para apoiá-la e orientá-la.

Aurora também tenta ajudar ao primo, Oscar, a encontrar uma esposa (mesmo que involuntariamente ela caia no golpe e Maud Beaton e leve ao primo também a ser enganado), assim como quer encontrar um bom marido para Marian.

A essa altura, Marian e Aurora são grandes amigas e foi Aurora que percebeu e alertou à jovem sobre as verdadeiras intenções de Tom Raikes na 1ª temporada, sendo ao mesmo tempo um ombro amigo e uma confidente discreta. Tenho certeza que Marian não a abandonará.

Isso porque, o casamento com Charles, à primeira vista estável e convencional, desmorona em uma das reviravoltas mais impactantes da terceira temporada. Aurora descobre que Charles mantém um caso extraconjugal. Mais do que isso: ele está emocionalmente envolvido com a amante, o que rompe qualquer possibilidade de manter as aparências.

E piora: Charles quer o divórcio. Mesmo sendo a parte traída, Aurora se vê rapidamente julgada e isolada por setores da sociedade que consideram o fim do casamento uma mancha maior para a mulher do que para o homem infiel. O divórcio, na Nova York da Gilded Age, era mais do que um escândalo — era um exílio. Como apontava Ward McAllister em seu livro Society As I Have Found It (1890), que também terá destaque na temporada, mulheres que buscavam ou eram vítimas do divórcio, por mais justificadas que fossem, eram vistas como “problemáticas”, “decadentes” e indignas do convívio nos salões. O peso do escândalo recaía quase exclusivamente sobre elas, não importa o que tivesse acontecido.

A decisão de Aurora rompe com a imagem de perfeição silenciosa atribuída às damas da alta sociedade. Ela permanece elegante, mas agora encara diretamente a hipocrisia de sua classe — e paga um preço alto por sua integridade. Sua escolha reforça o aspecto mais trágico e, ao mesmo tempo, mais moderno de sua personalidade: Aurora representa a mulher aristocrática que, mesmo criada para ceder, decide resistir.

Atitudes e postura: dignidade como resistência

Aurora Fane nunca é escandalosa nem subversiva no sentido vulgar, mas é firme em sua moderação e agora, com a revelação da traição, também em sua coragem. Ao longo da série, ela age com discrição, evitando confrontos abertos, mas não abre mão de seus princípios. Ao optar pelo divórcio, ela desafia não apenas o marido, mas toda a estrutura patriarcal da elite novaiorquina.

Essa dignidade contida a diferencia da impulsividade de Marian Brook ou da ambição insaciável de Bertha Russell. Aurora trilha um caminho próprio — doloroso, mas coerente com sua ética. Não busca escalar socialmente, tampouco destruir o outro. Apenas reivindica o direito de viver com honestidade.

Kelli O’Hara: refinamento e força silenciosa

A escolha de Kelli O’Hara para o papel de Aurora Fane é particularmente feliz. Reconhecida por seus papéis em musicais como The King and I (que lhe rendeu um Tony Award), O’Hara traz uma aura de refinamento e autocontrole que se encaixa perfeitamente na personagem. Sua presença em cena é sempre sutil, mas magnética, e sua atuação nunca busca o espetáculo, e sim a verossimilhança de uma mulher aristocrática que entende o jogo social como uma arte silenciosa — até o momento em que é forçada a romper com ele.

O “D” que acabava com as vidas das mulheres

O divórcio era raro, estigmatizado e juridicamente complicado — especialmente para as mulheres. A sociedade americana vivia sob um rígido código de moralidade vitoriana, em que o casamento era visto como uma instituição sagrada e imutável, sobretudo entre as classes altas. Romper com esse ideal era escandaloso, mesmo que o casamento estivesse infeliz, abusivo ou corrompido por traições.

Durante a Gilded Age, não existia o divórcio sem culpa (no-fault divorce). A única forma legal de se divorciar era provar culpa de uma das partes, geralmente com base em uma das seguintes alegações: Adultério (a mais comum e a mais aceita); Crueldade extrema (mas exigia provas severas); Abandono ou deserção (após um período estipulado); Bigamia ou Impotência (em casos raros).

As leis variavam de estado para estado. Em Nova York — o cenário de The Gilded Ageo único motivo legal aceito para divórcio era o adultério. Mesmo assim, era preciso comprovar o caso de forma inequívoca, o que tornava o processo altamente público e vergonhoso.

Muitas vezes, casais ricos forjavam escândalos para facilitar o divórcio: maridos pagavam prostitutas ou arranjavam “flagrantes” para que a culpa recaísse formalmente sobre eles e liberassem a esposa — uma prática conhecida como “divórcio por conveniência invertida”.
O divórcio sem atribuição de culpa (no-fault divorce) só foi legalizado nos Estados Unidos em 1969. Isso significava que, antes disso, era quase impossível conseguir um divórcio, não importava o quanto você fosse rico.

“No patriarcado, se o homem pedia o divórcio, isso pouco importava. A identidade da mulher estava atrelada a ser a Sra. George Russell ou a Sra. Charles Fane. Esse era seu lugar no mundo”, explicou a produtora da série, Sonja Warfield. Ou seja, assim como Ward McCalister ao publicar seu livro, Aurora será vítima de um suicídio social. Ou mais corretamente: um assassinato social.

Ao colocar Aurora Fane no centro de uma das histórias definitivamente mais tristes da série – afinal ELA não fez nada errado e sempre paga a conta – teremos mais chances de ver as injustiças da sociedade na época. Pelo que vimos no trailer, Marian fica desolada pois é testemunha de como Aurora seguia as regras. Por conta do egoísmo de Charles, é Aurora que enfrentará o ostracismo, sublinhando a hipocrisia de uma sociedade que condena a mulher traída e dependente do marido.

Aurora é, assim, uma personagem que sintetiza a tensão entre os velhos valores e a lenta, porém inevitável, emancipação feminina. Ela pode ainda ser um retrato poderoso da mulher que era tudo como esperado, mas que eventualmente será o símbolo para novas gerações da recusa de ser apenas um ornamento social. Que pena que apenas assim Aurora brilha sob o holofote!


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