Há histórias que parecem escritas pelo destino. Stranger Things, por exemplo, foi recusada por praticamente todas as plataformas e canais de televisão antes de encontrar abrigo na Netflix. Ninguém acreditava que uma trama sobre crianças enfrentando forças sobrenaturais em uma cidade fictícia dos anos 80 pudesse dar certo. Era “estranha demais”, “infantil demais”, “arriscada demais”. Até que Shawn Levy, com a 21 Laps, levou o projeto aos executivos da Netflix, que apostaram no improvável. O resultado, em julho de 2016, foi um estouro imediato: o primeiro fenômeno global do streaming nascido sem um criador consagrado ou uma franquia já existente.
Esse caminho tortuoso não é exceção. Grandes marcos da cultura pop nasceram da rejeição. Harry Potter foi recusado por uma dezena de editoras até a Bloomsbury aceitar publicar a história de um bruxinho que se tornaria um império literário e cinematográfico. Star Wars quase não saiu do papel porque os estúdios achavam a proposta “confusa e nerd demais” — até que a Fox apostou e mudou o cinema para sempre. Breaking Bad foi recusada pela HBO e pela Showtime antes da AMC transformá-la em uma das maiores séries de todos os tempos. E até recentemente, The Queen’s Gambit passou quase 40 anos esquecida até virar minissérie de sucesso, provando que ideias boas às vezes precisam apenas de um espaço certo para florescer.


O caso de Stranger Things é emblemático porque vai além do sucesso. Ele mostra como a cultura pop absorve, recicla e transforma referências. Os irmãos Duffer mergulharam em Spielberg, King e Carpenter para criar algo familiar e, ao mesmo tempo, original. O público não só abraçou os personagens, como fez da série um fenômeno multimídia: da moda com jaquetas bomber e scrunchies aos hits musicais como “Running Up That Hill”, “Separate Lives” e “Should I Stay or Should I Go” voltando às paradas décadas depois. E agora, a Netflix “perdeu” a dupla para a Paramount…
Mais do que uma série, Stranger Things virou uma linguagem compartilhada. É nostalgia para quem viveu os anos 80, descoberta para quem nasceu no streaming, e inspiração para a forma como Hollywood e o entretenimento hoje pensam franquias, crossovers e produtos derivados. O improvável que ninguém queria se transformou no inevitável que todos consomem.
No fundo, Stranger Things prova que a cultura pop ainda precisa de estranheza. Porque é no risco, no “não” que se transforma em “sim”, que surgem os fenômenos que ficam para sempre.

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