Eleanor de Aquitânia: a rainha que moldou o mito

Poucas figuras femininas da Idade Média resistiram tão vivas ao tempo quanto Eleanor de Aquitânia (ou Elaine, como algumas fontes literárias a chamaram). Herdeira, rainha, mãe de reis, prisioneira e estrategista política, ela atravessou o século 12 como protagonista de uma história que mistura poder, arte e lenda. Foi rainha de duas nações — França e Inglaterra —, senhora de um dos maiores domínios feudais da Europa e peça central no jogo de alianças e traições que definiram a monarquia inglesa.

Nascida em 1122, Eleanor cresceu em uma corte culta, refinada e ousada. O ducado de Aquitânia era conhecido por valorizar trovadores, poesia e filosofia — um ambiente no qual se gestou o ideal do amor cortês, que ela própria ajudaria a espalhar pela Europa. Casou-se primeiro com Luís VII da França, de quem se divorciou por incompatibilidade política e pessoal. Em 1152, uniu-se a Henrique Plantageneta, o futuro Henrique II da Inglaterra, e com ele construiu (e depois destruiu) um império que ia dos Pirineus ao norte da Escócia.

Entre o trono e a prisão

O casamento com Henrique II é uma das alianças mais célebres e tempestuosas da história. Eleanor era tão inteligente e independente quanto o rei era autoritário e impetuoso. Juntos, tiveram dez filhos, entre eles Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra — nomes que definiriam o futuro da Inglaterra e ecoariam nas baladas populares. Quando Eleanor apoiou os filhos em uma rebelião contra o pai, pagou caro: foi presa por quase 16 anos, enclausurada entre castelos e mosteiros, até ser libertada por Ricardo após a morte de Henrique.

Durante o reinado de Ricardo, que passou longos períodos fora do país nas Cruzadas, Eleanor governou na prática. Administrou o reino, negociou resgates, assinou tratados e manteve a estabilidade de um império em colapso. Já idosa, ainda interveio nas disputas entre os filhos e sobreviveu o bastante para ver o trono passar ao infame João Sem Terra — o mesmo vilão histórico que inspiraria a figura do tirano nas lendas de Robin Hood.

O elo entre a História e o Mito de Robin Hood

O mito do fora-da-lei que “roubava dos ricos para dar aos pobres” nasce justamente nesse período de transição entre o reinado de Ricardo e o de João. Com o rei ausente e o povo oprimido por impostos e corrupção, as baladas populares do século 13 criaram em Sherwood o herói que desafiava o poder. Eleanor, a mãe dos dois reis, tornou-se uma presença indireta nesse imaginário — a mulher que representava a antiga ordem justa e culta, contrastando com a tirania do novo governo.

Se Ricardo é o rei ausente e Robin o herói da resistência, Eleanor é o símbolo da memória: a guardiã da linhagem e da nobreza que a Inglaterra perdera. Sua corte em Aquitânia havia sido berço do amor cortês, e muitos estudiosos veem nesse ideal — de fidelidade, honra e resistência à injustiça — o embrião da moral cavaleiresca que permeia as lendas de Robin Hood.

Katharine Hepburn: o rosto definitivo da rainha

No cinema, ninguém encarnou essa complexidade melhor do que Katharine Hepburn em The Lion in Winter (1968). Ao lado de Peter O’Toole, ela deu vida à rainha envelhecida, mas ainda astuta e fascinante. No filme, o Natal de 1183 se transforma em uma guerra verbal e emocional entre marido, filhos e ambições. Hepburn constrói uma Eleanor ferida e sarcástica, mas também apaixonada e lúcida — uma mulher que compreende o poder e suas feridas melhor do que qualquer homem à mesa.

Sua interpretação lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, e consolidou a imagem de Eleanor como a rainha que manipula reis e cria mitos. Desde então, toda personagem feminina que combina razão, sensualidade e ferocidade em histórias medievais deve algo a Hepburn — e, por consequência, à verdadeira Eleanor.

A Rainha nas versões de Robin Hood

Curiosamente, Eleanor aparece ou é evocada de formas diferentes nas adaptações do mito de Robin Hood. Em algumas, é apenas uma sombra do passado — a mãe venerada de Ricardo, lembrada com respeito ou ressentimento. No clássico animado da Disney (Robin Hood, 1973), ela está ausente fisicamente, mas o Rei João chora por não ter o amor da mãe, reclamando que ela sempre preferiu Ricardo — uma caricatura que ecoa o trauma familiar histórico.

Já em versões mais recentes, o papel de Eleanor ganha corpo. Ridley Scott, em seu épico Robin Hood (2010), devolve a ela a grandiosidade política que a história lhe reservou. Connie Nielsen interpreta uma Eleanor de Aquitânia envelhecida, lúcida e altiva, que observa com frieza os jogos de poder entre os filhos — Ricardo (Danny Huston) e João (Oscar Isaac) — e antagoniza a jovem rainha Isabella (Léa Seydoux). A personagem de Nielsen é uma mescla fascinante entre Lucilla, de Gladiador, e Cersei Lannister: uma líder de pulso firme, enigmática e estratégica, mais próxima da figura histórica real do que de uma rainha romântica.

Nos filmes anteriores — os de Errol Flynn e as versões mais idealizadas do herói — Eleanor costuma estar ausente, citada apenas como parte do passado real do reino. Já nas reinterpretações modernas, ela volta com mais peso simbólico: o retrato da mãe que encarna o poder e o preço do poder.

Na releitura de 2018, com Taron Egerton como Robin Hood, Eleanor novamente não aparece, mas sua influência está em todo o subtexto — nas mulheres que herdaram sua inteligência e pragmatismo, nas rainhas sem trono que movem o jogo político à sombra dos heróis.

A rainha que se tornou imortal

Eleanor de Aquitânia morreu em 1204, aos 82 anos — uma longevidade incomum para a época —, em um convento fundado por ela mesma. Viveu o suficiente para ver o mundo mudar e o seu nome se transformar em lenda. Foi rainha, prisioneira, mãe de reis, patrona das artes e inspiração de poetas. E, sem o saber, mãe espiritual do herói que desafiaria os poderosos em nome da justiça popular.

Entre a história e o mito, Eleanor é o elo invisível que une a nobreza e a rebelião, o trono e a floresta, o poder e a liberdade — a rainha que, mais do que qualquer outra, fez do século 12 o berço da Inglaterra lendária. Na série da MGM+ ela será uma perigosa antagonista, e uma que promete transformar a vida de Robin Hood em um inferno.


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