Carrossel aos 70 anos: o musical que ousou ser trágico

Setenta anos depois de sua estreia, completados em 16 de fevereiro de 2025, Carrossel permanece como um dos musicais mais estranhos e mais profundos já produzidos por Hollywood. Não porque lhe falte grandiosidade, romantismo ou canções memoráveis, mas porque se recusa a oferecer conforto. Ao contrário de praticamente todos os outros grandes títulos da era de ouro, este é um musical sobre fracasso, violência, culpa e redenção tardia. É também uma história sobre o amor quando ele não salva ninguém a tempo.

Dirigido por Henry King e estrelado por Gordon MacRae e Shirley Jones, o filme adapta o musical da Broadway criado por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II em 1945, por sua vez inspirado na peça Liliom (1909), de Ferenc Molnár. A transposição para o cinema preserva a ambiguidade moral da obra original, algo raríssimo para o gênero. Mas há um detalhe fascinante nos créditos que costuma passar despercebido: o roteiro foi assinado por Henry e Phoebe Ephron, casal de roteiristas que décadas depois seria lembrado também como os pais de Nora Ephron.

Essa genealogia criativa é reveladora. Antes de Nora redefinir a comédia romântica moderna, seus pais já trabalhavam dentro do sistema clássico de Hollywood, adaptando uma das histórias de amor mais dolorosas do teatro musical. Há algo quase irônico nisso: a futura autora de romances espirituosos e urbanos descende de um texto sobre um homem incapaz de dizer “eu te amo” enquanto ainda está vivo.

Uma história que começa depois da morte

A estrutura narrativa do filme também foge ao convencional.

A narrativa começa já depois da morte do protagonista. Billy Bigelow está morto há quinze anos e, diante dos portões do Céu, decide finalmente aceitar a chance de voltar à Terra por um único dia. Ele havia recusado essa oportunidade antes, mas agora sabe que há problemas com a esposa, Julie, e com a filha que jamais conheceu. Antes de descer novamente ao mundo dos vivos, precisa convencer o guardião celestial de que merece essa permissão, e é ao contar sua história que o filme mergulha em flashback.

Billy e Julie se conheceram quando ele trabalhava como animador de um carrossel e ambos insistiam que não acreditavam em amor nem casamento. Casaram-se mesmo assim. Demitido pela proprietária do parque, que tinha ciúme e desejava mantê-lo solteiro para atrair clientes, Billy passa a viver às custas da família da esposa, incapaz ou relutante em aceitar empregos considerados inferiores. A tentativa desesperada de provar que poderia sustentar a família o leva a se envolver com um criminoso, Jigger Craigin, decisão que culmina em sua morte. Ao retornar à Terra, ele deseja não apenas ajudar a filha, mas finalmente dizer a Julie o que nunca conseguiu expressar em vida.

Broadway: um sucesso ousado para um público traumatizado

Quando estreou na Broadway em abril de 1945, Carrossel já era visto como o trabalho mais complexo de Rodgers e Hammerstein. Não é o mais popular, nem o mais frequentemente montado, nem o mais luminoso. É, paradoxalmente, o mais amado pelos próprios autores, sobretudo por Rodgers, que sempre afirmou considerar esta sua melhor partitura. Setenta anos após a estreia da versão cinematográfica, a obra permanece como um ponto fora da curva na história do musical americano: grandiosa na forma, devastadora no conteúdo e surpreendentemente moderna na psicologia. O espetáculo teve cerca de 890 apresentações no Majestic Theatre, um feito notável para uma obra tão emocionalmente pesada.

O público do pós-guerra reconheceu na história algo íntimo: a tentativa de reconstruir a vida após perdas irreparáveis. A peça consolidou o modelo do “musical integrado”, no qual dança e música não funcionam como ornamento, mas como narrativa dramática. Esse DNA foi mantido na adaptação cinematográfica, talvez até intensificado.

E clássicos como If I Loved You e You’ll Never Walk Alone viraram mais do que standards: são verdadeiros hinos que se sustentam por si só fora dos palcos e das telas, atravessando gerações.

Hammerstein costumava dizer que Carrossel era “uma história sobre pessoas comuns que cometem erros irreparáveis”. Essa definição explica por que o espetáculo nunca se encaixou confortavelmente no molde do entretenimento escapista. A música não existe para aliviar a narrativa, mas para aprofundá-la.

Ao contrário de outros trabalhos da dupla, Carrossel não foi concebido como uma coleção de números independentes. A partitura funciona quase como uma ópera popular, com motivos recorrentes e progressão dramática contínua.

If I Loved You é o exemplo mais famoso. Não é uma declaração de amor direta, mas um dueto de evasivas, dois personagens incapazes de admitir o que sentem. Musicalmente, alterna passagens faladas e cantadas, algo inovador na Broadway dos anos 1940 e preservado no filme.

Soliloquy, por sua vez, é um tour de force raríssimo para um protagonista masculino. A canção acompanha Billy imaginando o futuro do filho ainda não nascido, que ele presume ser um menino, até perceber, gradualmente, que pode ser uma menina. O tom muda da bravata para a ternura e, finalmente, para o medo de não ser capaz de protegê-la. Poucas músicas do teatro musical expõem com tanta franqueza a fragilidade masculina.

A Real Nice Clambake tem origem curiosa: foi inicialmente escrita para Oklahoma! e descartada, sendo reaproveitada aqui com nova função dramática. Já June Is Bustin’ Out All Over representa o contraponto solar do espetáculo, um momento de euforia coletiva que torna ainda mais doloroso o que vem depois.

E então há You’ll Never Walk Alone, talvez a canção mais transcendente da dupla. Não é romântica nem narrativa; é espiritual. No contexto da história, surge como consolo diante da morte e da perda. Fora dela, tornou-se um hino universal de resistência, cantado em estádios, cerimônias e momentos de luto coletivo.

O balé de Louise: psicologia contada pela dança

No centro emocional do filme está o célebre balé da personagem Louise, filha de Billy e Julie. A sequência dura aproximadamente 12 a 13 minutos no cinema e é uma das primeiras grandes narrativas psicológicas inteiramente dançadas em um musical hollywoodiano, justamente por funcionar como peça autônoma dentro da história. Antes disso, a dança no cinema musical geralmente servia como espetáculo decorativo ou virtuosismo técnico, pouco ligado ao desenvolvimento emocional dos personagens.

Sem diálogo, o número revela a adolescência marcada pela vergonha social, pela solidão e pela herança emocional deixada pelo pai. É uma coreografia de trauma: o corpo expressa aquilo que a linguagem falha em articular.

A origem está na revolucionária coreografia de Agnes de Mille para a montagem da Broadway, que introduziu o conceito de balé dramático no teatro musical americano. No filme, a sequência ganha uma qualidade quase onírica, misturando memória e fantasia com imagens do parque de diversões, um eco visual da vida interrompida de Billy.

O balé segue uma lógica criada por de Mille em Oklahoma!, onde introduziu o chamado dream ballet, uma sequência que expressa desejos e conflitos internos, comum nos balés clássicos. Em Carrossel, ela levou esse conceito a um nível mais sombrio e maduro.

É isso que torna a sequência extraordinária. Não é interlúdio, mas revelação.

Bastidores: Sinatra desistiu e a tecnologia complicou tudo

Poucas produções da época tiveram um processo tão turbulento.

Frank Sinatra foi originalmente escalado para interpretar Billy Bigelow e chegou a gravar as músicas, mas abandonou o projeto antes de acabar ao descobrir que as cenas poderiam ter de ser filmadas duas vezes, uma para o CinemaScope convencional e outra para o CinemaScope 55, tecnologia então experimental.

Anos depois surgiram versões mais novelescas sugerindo que Sinatra teria abandonado o projeto para acompanhar a esposa da época, Ava Gardner, que estava filmando Mogambo na África. A atriz Shirley Jones, que conseguiu o papel após o estúdio descartar Judy Garland, relatou que Ava teria ligado exigindo sua presença e insinuado um possível envolvimento com Clark Gable (que na verdade estava envolvido com Grace Kelly durante as gravações, mas isso é outra história). Obcecado por ela, o cantor-ator teria partido imediatamente, levando à substituição por Gordon MacRae, que já interpretara o papel nos palcos.

A versão mais plausível, admitida pelo próprio Sinatra, foi mesmo a questão técnica. Ele chegou a ser processado pelo estúdio pelo cancelamento. A realidade, como quase sempre, parece mais banal e mais reveladora do funcionamento da indústria.

Sinatra queria desesperadamente o papel de Billy Bigelow e vinha tentando interpretá-lo havia anos. Quando finalmente foi chamado, aceitou imediatamente, desde que as filmagens não interferissem em compromissos já assumidos. O problema surgiu ao chegar ao Maine e descobrir que o filme poderia exigir a repetição integral das cenas para dois formatos distintos de exibição.

A reação foi explosiva, mas não caprichosa. O próprio ator explicou depois: “O acordo para Carrossel aconteceu de repente… Quando cheguei ao Maine, eles me surpreenderam com essa ideia absurda. Eu simplesmente não trabalho assim.”

Ele descreveu o processo como tecnicamente inviável e artisticamente frustrante: “Isso significaria filmar uma tomada, depois reiluminar tudo, mudar as marcas e refazer a cena inteira… cinco ou seis semanas a mais de trabalho.”

Sinatra insistiu que não abandonara o projeto por falta de interesse, ao contrário: “Eu queria fazer Carrossel havia sete anos. Aquilo partiu meu coração.” E acrescentou um detalhe que desmonta a ideia de estrelismo: “Dinheiro não era problema… estavam me pagando bem. E, de qualquer forma, você não pode ficar com o dinheiro se não trabalha.”

Do outro lado, Gordon MacRae afirmou que a troca não o surpreendeu. Segundo ele, já tinha a impressão de que Sinatra não ficaria com o papel. Disse que avisara o poderoso produtor Darryl F. Zanuck de que estava disponível e disposto a assumir a qualquer momento, mesmo depois de o anúncio oficial de Sinatra. Por precaução, recusou cortar o cabelo após concluir as filmagens de Oklahoma! e manteve-se em forma para o papel. Chegou inclusive a interpretar Billy em uma produção do musical na Feira Estadual do Texas, em Dallas, naquele verão, como se estivesse aguardando o chamado que acabaria chegando.

O mais irônico é que a equipe técnica acabou encontrando uma solução para filmar nos dois formatos sem duplicar as cenas, descoberta que chegou tarde demais para convencer Sinatra a voltar.

Hollywood perdeu um Billy potencialmente mais ambíguo e perigoso, mas ganhou outra coisa: uma lenda. Como toda boa história do cinema clássico, a versão mais dramática acabou sobrevivendo melhor do que a mais plausível.

Por que Judy Garland não fez Carrossel

A ideia de Judy Garland como Julie Jordan em Carrossel parece hoje ao mesmo tempo perfeita e impossível. Perfeita porque nenhuma intérprete do século 20 encarnou com tanta intensidade a mistura de vulnerabilidade e força que define a personagem. Impossível porque, em meados dos anos 1950, Garland já era vista pelos estúdios como um risco financeiro e logístico difícil de administrar.

Ela chegou a ser considerada seriamente para o papel, mas acabou descartada justamente após anos de conflitos com a MGM, atrasos em filmagens e problemas de saúde ligados ao uso de medicamentos, e, para um projeto tecnicamente complexo como Carrossel, rodado em CinemaScope 55 e parcialmente em locações, a Fox buscava segurança absoluta.

Seu retorno triunfal em Nasce uma Estrela havia reafirmado seu talento, mas também evidenciado um processo de produção longo, caro e emocionalmente desgastante. Executivos temiam repetir essa experiência. Além disso, Julie Jordan costuma ser interpretada como uma jovem operária no início da vida adulta, e os produtores desejavam um rosto que transmitisse inocência quase pastoral. Shirley Jones, então associada ao sucesso de Oklahoma!, encaixava-se perfeitamente nessa nova estética do musical em cores e widescreen.

A escolha também sinalizava uma transição geracional. Garland, com pouco mais de 30 anos, já representava a era clássica da MGM, enquanto Jones simbolizava o novo musical da Fox, mais luminoso na aparência, mesmo quando o conteúdo era sombrio.

Imaginar Garland cantando If I Loved You ou You’ll Never Walk Alone é imaginar um filme diferente, provavelmente mais intenso e menos lírico. Sua presença teria deslocado o centro emocional da narrativa, talvez tornando Julie menos ingênua e mais consciente da própria dor. Hollywood, porém, optou pela pureza aparente em vez da complexidade.

Bilheteria modesta, trilha triunfal

A recepção comercial do filme foi ambígua. Embora elogiado pela crítica, Carrossel não teve desempenho expressivo nas bilheterias, especialmente quando comparado a outros musicais da época, como O Rei e Eu, lançado no mesmo ano e transformado em enorme sucesso.

A trilha sonora, porém, tornou-se um best-seller nacional e hoje, o longa é um clássico.

O filme que Hugh Jackman quis fazer e não conseguiu

Após o sucesso de Les Misérables, em 2012, Hugh Jackman anunciou planos de produzir e possivelmente protagonizar uma nova adaptação cinematográfica de Carrossel. Um roteiro chegou a ser concluído, mas o projeto nunca saiu da fase de desenvolvimento, vítima das dificuldades de financiar musicais dramáticos sem garantia de retorno comercial.

Talvez seja inevitável. Carrossel exige empatia sem oferecer absolvição, lirismo sem anestesia. É exatamente o tipo de obra que Hollywood admira, mas teme.

Por que continua sendo um mega clássico

Carrossel resiste ao tempo porque não pertence completamente ao seu próprio gênero. É grandioso como um musical, mas estruturado como uma tragédia moral. Billy não é um herói redimido, Julie não é uma vítima passiva e o final não promete felicidade absoluta, apenas a possibilidade de seguir em frente.

Há algo profundamente moderno nessa recusa de simplificar emoções. O filme entende que o amor pode coexistir com a violência, que o arrependimento pode chegar tarde demais e que a herança emocional de uma família não desaparece com a morte.

Setenta anos depois, o carrossel continua girando, não como símbolo de infância ou alegria, mas como metáfora do ciclo humano entre culpa, memória e esperança. Alguns clássicos sobrevivem porque nos fazem sonhar. Este sobrevive porque nos obriga a sentir.


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