O sotaque britânico na trajetória do filme I Swear pesa. Um filme pequeno, humano, baseado em uma história real, celebrado em casa, premiado por sua atuação principal e ainda assim praticamente ignorado pela maquinaria internacional de prêmios. Dirigido por Kirk Jones, o drama acompanha a vida do escocês John Davidson, ativista pela conscientização sobre a síndrome de Tourette, e transforma décadas de incompreensão social em um retrato doloroso, às vezes surpreendentemente engraçado, da luta por dignidade em um mundo que prefere rotular do que entender.

A narrativa começa com um gesto que resume todo o paradoxo do protagonista. Em 2019, prestes a receber uma honraria oficial da rainha, Davidson grita um insulto involuntário diante da própria monarca. O constrangimento público não nasce de rebeldia política, mas de um tique incontrolável. A partir daí o filme retrocede aos anos 1980, quando o jovem John ainda não tinha diagnóstico, nome ou explicação para o que acontecia com seu corpo. Crescer em uma pequena cidade escocesa naquela época significava enfrentar bullying, violência física, isolamento afetivo e uma sucessão de mal-entendidos que moldaram toda a sua vida adulta.
Robert Aramayo constrói o personagem com uma precisão impressionante. Conhecido por papéis em universos fantásticos (Game of Thrones, Rings of Power e Behind My Eyes), ele troca espadas e elfos por um trabalho profundamente físico e emocional, baseado na convivência direta com o verdadeiro Davidson. O resultado não é uma imitação, mas uma presença que transmite simultaneamente vulnerabilidade e tensão constante. Seu John deseja uma vida comum, mas sabe que qualquer situação banal pode se transformar em desastre. Uma entrevista de emprego pode terminar em humilhação pública. Uma noite em um bar pode virar violência real. O filme sustenta esse estado de alerta permanente, não apenas para o protagonista, mas também para quem está ao redor dele.
O elenco de apoio reforça a densidade do retrato. Maxine Peake,Shirley Henderson e Peter Mullan representam diferentes formas de reação ao sofrimento do personagem, da compaixão ao ressentimento. Henderson, especialmente, cria uma figura materna marcada por raiva e sensação de injustiça, como se a condição do filho fosse algo infligido a ela própria. Esse olhar deslocado ajuda a mostrar como a Tourette não afeta apenas quem a possui, mas todo o tecido de relações ao redor.


No Reino Unido, I Swear tornou-se um sucesso inesperado de público e crítica, arrecadando valores expressivos para um drama independente e despertando discussões sobre diagnóstico e estigma. O filme se insere na tradição dos grandes crowdpleasers sociais britânicos das décadas de 1990 e 2000, histórias calorosas com fundo político, como Billy Elliot ou The Full Monty, que combinavam humor e denúncia sem perder a acessibilidade. A diferença é que hoje essas narrativas enfrentam debates mais complexos sobre representação, identidade e quem tem o direito de contar determinadas histórias.
Aramayo foi reconhecido com o BAFTA de Melhor Revelação em 2026 e tirou de Timothée Chalamet o prêmio de Melhor Ator, o que sinaliza não apenas o impacto da atuação, mas também a percepção de que ali nasce uma nova fase de sua carreira. A escolha é significativa porque o papel exige equilíbrio delicado entre respeito e espontaneidade. A síndrome pode gerar momentos involuntariamente cômicos, mas também destrói oportunidades, relacionamentos e autoestima. O filme insiste em manter as duas dimensões visíveis ao mesmo tempo, recusando tanto a exploração quanto a santificação.
A ausência no Oscar não diminui essa conquista. Pelo contrário, evidencia a diferença entre reconhecimento local e visibilidade global. Trata-se de uma produção profundamente enraizada na experiência britânica, sem a escala, a campanha ou o sentimentalismo calculado que frequentemente impulsionam indicados internacionais. Não há arco triunfal clássico nem redenção simplificada. Há sobrevivência, ativismo e um reconhecimento tardio que nunca apaga as cicatrizes anteriores.

O que torna I Swear essencial é a maneira como desloca a narrativa da doença para a sociedade. A Tourette não é apresentada como espetáculo nem como metáfora inspiradora, mas como condição concreta que revela o quanto a normalidade depende da tolerância coletiva. O filme não pede admiração pelo protagonista. Pede que o espectador encare o desconforto de perceber quantas humilhações poderiam ter sido evitadas com um mínimo de compreensão.
Talvez seja por isso que ele permaneça na memória muito depois de terminar. Não como uma história de vitória, mas como um testemunho de resistência silenciosa. Em um ano dominado por produções grandiosas, I Swear prova que ainda há espaço para o cinema que observa de perto, sem filtros, a fragilidade humana. E às vezes é justamente esse tipo de filme, premiado em casa e esquecido lá fora, que mais merece atravessar fronteiras.
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