No aniversário de 15 anos do lançamento de Game of Thrones, vale revisitar uma personagem extremamente popular entre os fãs, uma senhora de mais de 80 anos, exímia jogadora e uma personagem que nunca precisou mentir sobre si mesma. Estamos falando, claro, da “Rainha dos Espinhos”, Olenna Tyrell.

Existe um erro recorrente na forma como ela é lembrada. Ele começa no entusiasmo do público, passa pela ironia que a transformou em ícone e termina numa espécie de absolvição silenciosa. Olenna virou a personagem “que fala o que todos pensam”, a única capaz de enfrentar Cersei Lannister, a mente mais afiada de Game of Thrones. Ninguém esquece de suas últimas palavras: “Diga à Cersei que fui eu [que matou o filho dela]. Eu quero que ela saiba”.
Mas essa leitura diz menos sobre ela do que sobre quem a assiste.
Porque Olenna nunca se apresentou como algo além do que era. Não construiu discursos de honra, não reivindicou justiça, não tentou disfarçar o cálculo por trás de suas decisões. A diferença é que, ao contrário de personagens que encenam virtudes, ela tornou o pragmatismo elegante. E, com isso, tornou a própria crueldade mais fácil de aceitar.
A Casa Tyrell e a insegurança estrutural do poder
A lógica de Olenna começa muito antes do que vimos no ar (e muitos acreditam que vale até um spin-off). Como a Casa Tyrell não carrega o peso ancestral de outras casas de Westeros, seu poder é resultado de uma ascensão relativamente recente e consolidada após a Conquista Targaryen, quando a administração eficiente foi recompensada com domínio sobre o Reach e sobre Highgarden, ela é uma aparente “coadjuvante” no jogo.

Esse detalhe cria uma diferença fundamental.
Os Tyrell não governam ostensivamente porque sempre governaram silenciosamente porque conseguiram se tornar indispensáveis. A fertilidade do Reach sustenta o reino, mas não garante legitimidade. Ela precisa ser constantemente negociada, defendida, reafirmada.
É um poder que não pode falhar.
E é dentro dessa estrutura que Olenna se forma e passa a operar.
Olenna Redwyne e o aprendizado precoce da instabilidade
Antes de ser Tyrell, Olenna é Redwyne. Nascida na Arbor, filha de uma das casas mais ricas e estratégicas do sul, ela já cresce inserida em um ambiente onde alianças definem destinos.
Ainda jovem, é prometida ao príncipe Daeron Targaryen, filho de Aegon V (que conhecemos criança em A Knight of the Seven Kingdoms) e parte direta da linhagem que ocupa o Trono de Ferro. O casamento nunca acontece. As versões divergem entre o desprezo que Olenna declara sentir pelo noivo e o fato de que ele próprio teria rompido o acordo.
Mas o impacto não está na explicação.
Está no aprendizado.
Olenna entende cedo que alianças não são garantias, que o poder prometido pode desaparecer e que depender de estruturas externas é sempre um risco. Ao se casar com Luthor Tyrell, um homem gentil e notoriamente pouco estratégico — cuja morte, aliás, ocorre de forma quase absurda (e suspeita?), ao cair de um penhasco enquanto caçava —, ela não apenas entra em uma nova casa. Ela passa a controlá-la.

A mente por trás de uma casa inteira
Nos livros de George R. R. Martin, tudo isso é ainda mais evidente. Olenna não é apenas uma matriarca. Ela é a correção permanente das fragilidades da própria família. Despreza a falta de inteligência do filho, Mace, conduz negociações, interfere em decisões e, sobretudo, garante que a Casa Tyrell continue relevante em um sistema que não perdoa erros.
Ela não governa formalmente, mas governa de fato. Isso se traduziu para o ar também.
E não por acaso. A escolha da atriz Diana Rigg foi determinante para que Olenna funcionasse dessa forma na série. Rigg não apenas interpretou a personagem, ela entendeu exatamente o que estava em jogo ali. Captou a ironia como mecanismo de defesa, a frieza como método e a arrogância como linguagem de poder. Em cena, tudo isso aparece com uma precisão quase invisível, sem esforço aparente, o que só reforça a sensação de controle absoluto. É uma atuação perfeita porque não suaviza Olenna, mas a torna ainda mais sofisticada e, por isso mesmo, mais fácil de admirar, mesmo quando suas ações são indefensáveis.

O casamento como instrumento de continuidade
A estratégia dos Tyrell em King’s Landing não é improvisada, mas construída como um projeto de inserção no centro do poder. Essas alianças “indiretas” eram feitas através dos casamentos, os chamados “casamentos políticos”.
A neta de Olenna, Margaery Tyrell, é astuta como a avó e é sucessivamente posicionada ao lado de diferentes reis — primeiro Renly Baratheon, depois Joffrey Baratheon e, por fim, Tommen Baratheon — não por afeto, mas por cálculo. Como ela dizia, ela não queria ser “uma” rainha, mas “a” rainha de Westeros. Afinal, o trono não precisa ser amado, mas certamente precisa ser ocupado.
E Olenna, até mais do que Margaery, entende isso melhor do que qualquer outro personagem naquela corte.
Joffrey e a decisão que revela tudo
A praticidade dos Tyrells foi usada por Littlefinger de forma exemplar. Inicialmente posicionados contra os Lannisters e apoiando um dos ramos dos Baratheons, após o assassinato de Renly por/à mando de Stannis Baratheon, eles mudam de lado atrás de vingança. Aliás, esse detalhe que nunca fica óbvio, mas Olenna Tyrell é uma mulher vingativa e sempre foi.
Na série, só a conhecemos justamente quando Littlefinger traz os Tyrells para apoiar os Lannisters contra os Starks e quem mais se rebelar contra a Coroa. Uma vez que é negociado o casamento de Margaery com Joffrey, finalmente conhecemos o quanto inteligente e calculista a rainha dos espinhos é.
Ela trata Sansa com aparente carinho, mas nunca esconde que é interesse. Até concorda com Varys em casar Loras com a filha de Ned Stark, mas isso desperta a ira de Twyin. Com ameaça direta para evitar que além da Coroa os Tyrells indiretamente tivessem o Norte, ele chantageia Olenna e os dois fecham outro acordo: Joffrey se casa com Margaery, mas Loras se casa com Cersei (algo que Olenna odeia, mas concede). E a virada de toda história vem a seguir.


Margaery será a Rainha dos Sete Reinos, como ela queria e como Olenna assegura. Tirar Cersei do circuito, para que Joffrey só ouça a esposa, é uma das razões pelas quais ela acaba concedendo o casamento de seu neto, até aí está tudo cristalino. Mas há uma informação que apenas Sansa pode fornecer e ela é determinante para o que Olenna é capaz e quer fazer para ter o Poder e manter seus netos salvos.
Olenna chama Sansa para uma conversa direta: como é Joffrey? E na inicial hesitação da traumatizada jovem, ela se irrita sem a menor empatia. Não há tempo para política e nada vai mudar a ascensão de Margaery como rainha, mas é essencial preparar a neta pelo que realmente a espera. Até ali e até onde poderia adivinhar, Olenna assume que todas as atrocidades são de autoria de Cersei. Mas logo descobre a verdade.
“Joffrey é um monstro”, Sansa confessa. Olenna dá de ombros. “Isso é lamentável”, responde. Resposta estranha, não acham?
Pois na festa de casamento, inesperadamente, Joffrey engasga com o veneno colocado em seu vinho e morre na frente de todos. Os culpados, segundo Cersei? Tyrion e Sansa. Nós sabíamos que o casal era inocente, mas quem mais teria nos feito esse favor?
Littlefinger estava envolvido, sempre ele, pois Sansa é resgatada e foge, iniciando outro calvário, mas pelo menos segura quanto à ameaça Lannister. Já Tyrion? É preso, humilhado e quase executado, não fosse a ajuda de Varys e Jamie. Seguimos assim por anos, sem saber ao certo quem matou Joffrey. (A Internet logo foi bombardeada de teorias e Olenna foi “descoberta”, mas oficialmente o caminho foi mais longo.)

O assassinato de um dos piores vilões da série costuma ser tratado como um gesto de justiça, mas essa leitura ignora o que realmente está em jogo. Olenna não mata um tirano para salvar o reino. Mata um obstáculo para proteger seu projeto político.
O mais revelador não é o ato em si, mas a engenharia que o sustenta. Ela executa o envenenamento de forma pública, calculada, irreversível.
Inocentes de quem até gosta são condenados dentro de um sistema que Olenna compreende perfeitamente e não interfere. Quase que ao contrário. Com os dois fora da jogada e Joffrey eliminado, Margaery parte para cima de Tommen e é rainha de verdade, com total controle do marido.
Ensinar a manipular também é perpetuar o sistema
A relação de Olenna com Margaery nunca é apenas afetiva. Olenna forma a neta para operar dentro de um mundo onde tudo é instrumento. Ensina a usar a aparência, o desejo, a empatia como ferramentas de poder. O sexo também.
Com Tommen, isso se torna explícito. Margaery constrói influência não pela imposição, mas pela capacidade de moldar a percepção do rei.
É uma estratégia sofisticada, eficiente e profundamente violenta.
Porque elimina qualquer possibilidade de espontaneidade. Porque transforma o próprio afeto em performance.

O erro diante de Cersei
Olenna domina o jogo político tradicional, mas comete um erro estrutural ao lidar com Cersei Lannister, porque acredita que todos operam dentro de limites.
Cersei não opera.
Cersei não desconfia do envolvimento dos Tyrells na morte de Joffrey (seu ódio por Tyrion é tão cego que convenientemente abraça a chance de matá-lo), mas está mais do que ciente e atenta à estratégia de controlar Tommen, algo que, como mãe e como rainha, não admite.
Tommen e Myrcela eram bons de alma, o oposto de Joffrey e Cersei via nos dois uma ponta de rendição a tudo que fez e faria ainda. E não consegue impedir Margaery de usar sexo para controlar o filho, aumentando todo o ressentimento. E é o que Olenna, assim como Margaery, subestima: a intensidade do amor de Cersei pelos filhos.

Para afastar Margaery de Tommen e se livrar de ter que se casar com Loras, Cersei perigosamente abraça a militância religiosa do High Sparrow, expondo Loras como gay e Margaery como cúmplice. É uma jogada perigosa, mas que pega Olenna desprevinida, afinal, Cersei não é conhecida por integridade, falta de amantes e pior, seus filhos são frutos de incesto.
No acordo que fez com Tywin, Olenna sabe que não vale a pena expor Cersei porque se os Lannisters saíssem do Poder, os Tyrrells sofreriam junto. Era também de interesse dela, pelo bem de seus netos, manter a aliança e unir as famílias.
Jamais considerou que Cersei fosse flertar com o perigo de tal forma a fim de atingir seus inimigos. E a prisão de ambos se torna irreversível, mesmo depois que a própria Cersei é presa por seus crimes (relatados por uma vingativa Margaery). A única alternativa de sair é confessar os crimes, publicamente, humilhada com a caminhada da vergonha. Margaery se recusa e faz um acordo: além de entregar Cersei, ela “se converte” e leva Tommen, o rei, a abraçar a fé também.
Sem alternativa, Cersei faz a caminhada da vergonha. Para nós, mais uma vez sádicos em treinamento pelos showrunners, é bom vê-la perdendo. Mas Cersei volta pior.


O segundo erro de Olenna, depois de já ter testemunhado do quanto Cersei era capaz, foi manter a mágoa e se recusar a criar uma aliança para “salvar” Tommen, Margaery e Loras da fé militante. Um erro que se tornou, literalmente, fatal.
Olenna humilha Cersei, recusa a ajudá-la e ironiza: o que ela iria fazer? Explodir todos os inimigos de uma só vez? Isso mesmo, foi Olenna que indiretamente deu a Cersei a alternativa mais radical para eliminar todos os seus problemas, incluindo Loras e Margaery.
Ao destruir o Septo de Baelor em uma das sequências mais lendárias de toda a série, Cersei não vence uma disputa. Ela elimina o próprio sistema que sustentava tudo. E, nesse momento, a inteligência estratégica de Olenna se torna insuficiente.
Ela não perde por falta de capacidade.
Perde porque ainda acredita em regras, quando já deveria estar mais atenta.

Daenerys e a frase que reconfigura o futuro
Com a derrota e o suicídio de Tommen, os Tyrrells se retiram de King’s Landing como uma casa sem futuro, pois os dois únicos heredeiros morreram. Por um tempo, perdemos Olenna de vista, mas ela volta, graças a Varys.
Quando Daenerys Targaryen finalmente desembarca em Westeros, ela precisa imediatamente alinhavar uma frente contra Cersei, mas mesmo que muitas casas tenham desejo de vingança contra os Lannisters, graças ao pai de Danny, os Targaryens são considerados ainda piores. Tyrion e Varys precisam apelar para os que buscam vingança imediata, que são os Martells e os Tyrrells, aproveitando de alguma forma o conflito entre os Greyjoys também. O encontro da Mãe dos Dragões com a Rainha dos Espinhos é breve, épico e definitivo para a História.
Ali, Olenna já perdeu tudo. Sua casa foi destruída, sua linhagem interrompida, seu poder reduzido a um gesto final. E esse gesto é uma frase.

Vendo Tyrion apostar em diplomacia enquanto Daenerys tem armas nucleares sob comando, ela dá https://miscelana.com/2024/03/30/daenerys-targaryen-a-rainha-das-cinzas-a-historia-completa-emila-clarke/um conselho: ninguém vai dar a ela o Poder se pedir com educação. Ela tem uma única alternativa: “Ser um dragão”.
A frase costuma ser lida como empoderamento. Mas dentro da lógica de Olenna, ela é outra coisa.
Ela legitima a destruição.
Olenna identifica a fragilidade de Daenerys, sua necessidade de afirmação, sua dificuldade em se impor em Westeros e oferece uma solução que dispensa mediação. Se o poder não pode ser negociado, ele pode ser imposto.
Essa não é uma ordem.
É uma autorização. Ainda mais porque Cersei jamais pode inspirar segurança.

King’s Landing e a vingança deslocada
Mas Olenna altera o enquadramento dessa decisão. Somada às últimas palavras de Missandei, “Dracarys”, ela contribui para tornar legítima a decisão de queimar tudo e todos, dentro da lógica de quem a executa.
Se existe uma vingança dos Tyrell, ela não acontece de forma direta. Ela se desloca no tempo, atravessa personagens e se realiza quando Olenna já não está mais viva. Ao fim, Olenna tirou de Cersei seus filhos e seu trono, só não estava lá para testemunhar.

A morte como último ato de controle
Cersei, sempre subestimada, conseguiu anular o poder de três dragões, uma frota de navios dos Greyjoys, a força dos Martells, a hora dos dothrakis e os imortais. Na primeira vitória, os Tyrrells foram os primeiros a cair, sem força ou comando de resistir à represália dos Lannisters.
Cersei queria prender e humilhar Olenna, mas Jamie a convence a deixá-la tirar a própria vida, que é a escolha da rainha dos espinhos.
Na cena final com Jaime Lannister, Olenna mantém o controle até o fim. Toma o veneno, aliviada de saber que não a faria sofrer e antes de morrer confessa ter matado Joffrey. Friamente. E garante que Cersei saberá que foi ela. Em sua última apariÇão, transforma sua própria morte em mais uma peça dentro do jogo.
Não há arrependimento.
Não há redenção.
Há vingança.

A personagem que é lembrada depois de sair do tabuleiro
Olenna Tyrell não é apenas uma estrategista eficiente. Ela é uma personagem que compreende o funcionamento do poder a ponto de agir para além da própria presença.
Suas decisões não terminam com ela e talvez seja isso que a torna tão fascinante e tão desconfortável ao mesmo tempo. Porque, no fim, Olenna nunca fingiu ser outra coisa. Ela sempre soube exatamente quem precisava ser sacrificado.
E nós sempre soubemos também.
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