Casamentos “políticos” em Westeros

Já postei aqui, falando de séries históricas onde o papel anulado da mulher na sociedade patriarcal foi um dos fatores que provocaram guerras e mortes, das mais variadas maneiras.

Em O Último Duelo, uma história verídica, um homem se casa com uma jovem por questões financeiras, outro a cobiça e a violenta e os dois cavalheiros se enfrentam até a morte. Oficialmente pela honra dela, na verdade por um acerto de contas dinheiro e posição política. Nas séries das Rainhas britânicas, como A Princesa Branca ou A Princesa Espanhola, vimos os casamentos de mulheres com inimigos, homens mais velhos e grosseiros, mas transformados rm aliados ao unirem as famílias.

Claro que homens sendo homens, criaram a lei sálica para usarem convenientemente quando quisessem barrar que – justamente por conta do casamento – inimigos conseguissem a coroa do outro. A hereditariedade e ordem sucessória se aplicava apenas para os homens e o papel de uma mulher nesse cenário é absolutamente nulo. O drama dos Tudors e Becoming Elizabeth mostra o problema da falta de um herdeiro homem.

Em nenhum desses casos, as mulheres tinham voz ou poder de decisão. Obedeciam, davam os filhos que os homens esperavam e viviam sob suas leis. Raramente se rebelavam.

Como se inspirou nas histórias medievais, George R. R. Martin levou essa particularidade para deu universo de Game of Thrones e House of the Dragon, ambas séries da HBO. As mulheres de Westeros até onde vimos, continuavam sob o domínio dos homens até o fim da saga. Aliás, foi essa relação complicada que gerou muito problema.

Primeiro, na ordem do que foi ao ar, Game of Thrones.

As mulheres de Westeros, rainhas ou nobres, não se casaram por amor. Quando conhecemos Catelyn, ela amava Ned Stark, mas os dois se casaram por um acerto entre famílias e por sorte se apaixonaram depois. Já no primeiro episódio descobrimos que outra união prometida – juntar Robert Baratheon con Lyanna Stark – que derrubou os Targaryens. Bem mais tarde, na temporada 6 é que confirmamos que na verdade Lyanna tinha se apaixonado e casado em segredo com Rhaegar Targaryen, mas seu aparente sequestro instigou no ex-noivo o sentimento de vingança e rebelião contra os Targaryens. Esse amor proibido acabou criando conflitos ainda piores.

Literalmente todos os casamentos em Game of Thrones foram arranjados, mas, em geral, os que eram genuínos – como o de Robb Stark com Talysa (paar o qual ele quebrou o arranjo de casar com uma Grey) selou tragicamente o destino do casal. Os homens em geral aceitavam com praticidade a união sem amor, mas sem dúvida para as mulheres sempre foi pior.

Após a morte de Lyanna, Cersei Lannister se casou com Robert Baratheon, apaixonada pela ideia de ser Rainha. Se decepcionou com os dois papéis. O de esposa por saber que o marido nunca esquecera a noiva, e, mesmo Rainha, não tinha voz no conselho do Rei. Servia apenas para gerar filhos. Nem mesmo a viuvez a poupou de sua “função”. Quando acho necessário, Tywin voltou a prometê-la em casamento para firmar uma aliaça política com os Tyrells. Cersei gritou, esperneou e argumentou, mas precisou “obedecer”. Bom, na verdade ela resolveu a questão radicalmente, como sabemos.

Ainda em Game of Thrones, Sansa Stark foi uma mulher completamente alinhada com o que esperavam dela. Cresceu sonhando com um casamento e quando soube que Robert e Ned acertaram que se casaria com Joffrey Baratheon, fazendo dela Rainha um dia, não observou a armadilha que tinha caído. Ela contribuiu para expor sua Casa e sua família às piores adversidades, mas também, sofreu o pão que o diabo amassou. Seus sonhos, na verdade pesadelos, vieram a ser realidade. Foi casada contra sua vontade duas vezes, sempre com os inimigos que estiveram envolvidos diretamente ou não com as mortes de seu pai, seu irmão e mãe. Foi violentada e torturada por Ramsay Bolton. Terminou a história sozinha, mas Rainha do Norte.

Margaery Tyrell foi outra noiva “usada”, mas, diferentemente das outras, estava alinhada com sua família para todas as relações que teve, portanto ela não tinha outra expectativa além de poder e prestígio. O oposto do que aconteceu com Daenerys Targaryen.

Daenerys foi literalmente vendida a um bárbaro em troca de um exército. Ela e Khal Drogo vieram a se entender e amar, mas a violência marcou seus primeiros momentos de casada. Viúva, mesmo sendo uma khaleesi e Targaryen, vivia sob a ameaça de estupro e tortura. Homens queriam sua mão em troca do acesso e controle dos dragões, mas ela soube driblar sua sina.

Sim, se casa novamente com um estranho para ganhar estabilidade política em Meereen, mas foi quando se apaixona por Jon Snow que perdeu tudo, inclusive a razão. Danny não teria problemas em se casar com Jon, seu sobrinho, porque a tradição de sua família era essa, mas Jon não foi educado com os mesmos princípios e desandou tudo.

Agora estamos vendo House of the Dragon onde os casamentos não nos enganam, são em grande parte, arranjados. Rhaenys e Corlis Velaryon se gostam, mas usam sua filha de 12 anos para tentar recuperar o que era para ser da Rainha que nunca Foi. Isso mesmo, Laena Velaryon foi oferecida como segunda esposa para Viserys I. Era o esperado, mas Otto Hightower estava ligado muito antes de todos na imensa oportunidade aberta com a morte da Rainha Aemma.

Alicent como jovem é uma moça ansiosa, mas obediente. Praticamente prostituida pelo pai, ela age resignada com o que é esperado dela. Como vimos no segundo episódio (e no trailer do terceiro), sua sedução de Viserys foi recatada, precisa e vencedora. Será a rainha. evai gerar os filhos homens que – em tese – suplantariam Rhaenyra na sucessão.

E pobre Rhaenyra: em breve terá o mesmo problema que seu pai. Seu papel no jogo do trono sempre foi um de poder passageiro, algo que ainda não entendeu, nem com o alerta de Rhaenys. No trailers já aparece a pressão de que cumpra seu papel de mulher para gerar filhos, não necessariamente de encontrar um casamento de amor.

“Amor é a morte do dever”. Um herdeiro Targaryen vai resumir séculos depois. Por hora, os casamentos de Westeros estão longe dos sentimentos e ainda despertarão o pior das pessoas.

O triste da História – real ou fictícia – é de que apenas no século 21 que as mulheres começaram finalmente a combater o patriarcado. Por isso é que o período escolhido para House of the Dragon é tão relevante. A saga de Rhaenyra para vencer o preconceito contra as mulheres está apenas começando. Será uma grande jornada.

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