Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
Mesmo nós que acompanhamos a “saga Sussex”, que completa uma década em 2026 (Harry e Meghan começaram a namorar em 2016), estamos cansados dos discursos que soam repetitivos do casal, alimentando a corrente que os acusa de teimosia e vitimização, sem efetivamente dar um passo em direção a uma vida sem mágoas. Só que estaríamos sendo injustos com eles? Há um caminho duplo nessa neurótica existência dos Sussex: tanto eles quanto os que os criticam monetizam essa polarização. Hoje, falar mal dos dois é ganha-pão de muitos youtubers que praticamente existem para encontrar defeitos em tudo o que fazem ou deixam de fazer. O ciclo parece impossível de quebrar porque exige que um dos lados simplesmente “pare” — mas nenhum deles quer ser o primeiro.
Por isso, sem surpresa, na viagem que estão fazendo pela Austrália (e que, diga-se, é um sucesso — ainda que críticos tenham que engolir), tanto Harry quanto Meghan voltaram aos discursos e frases que já disseram inúmeras vezes. Do lado dele, o trauma da morte da mãe aos 12 anos e a narrativa de que “nunca quis ser realeza” até entender que terapia e deixar a Família Real eram opções — além, claro, de escrever livros e transformar esse processo em contratos milionários. Do lado de Meghan, a questão é ainda mais complexa.
Quando Meghan Markle afirma que foi “a pessoa mais trollada do mundo”, a frase chama atenção não apenas pelo peso, mas pelo risco de simplificação. Não existe um ranking oficial que sustente essa afirmação de forma literal. A internet não organiza seu ódio em listas claras. Ainda assim, descartar a fala como exagero é ignorar um fenômeno mais complexo e, de certo modo, mais perturbador.
Porque, se talvez Meghan não tenha sido “a mais atacada do mundo”, ela certamente se tornou um dos casos mais consistentes, intensos e estruturalmente reveladores de assédio digital contemporâneo.
E isso não é uma questão de percepção. É uma questão de padrão.

O dado que muda a conversa
Em 2021, um relatório da Bot Sentinel analisou mais de 100 mil tweets relacionados à duquesa e ao Príncipe Harry. O que encontrou não foi apenas volume, mas concentração.
Cerca de 70% do conteúdo de ódio vinha de um grupo pequeno, pouco mais de 80 contas, extremamente ativas e com comportamento repetitivo. Não se tratava apenas de muitas vozes indignadas, mas de um núcleo produzindo e amplificando discurso negativo de forma contínua.
Esse dado desloca o eixo da discussão. A pergunta deixa de ser quantas pessoas odeiam e passa a ser como esse ódio circula, se sustenta e ganha escala.
A própria Twitter (hoje X) respondeu ao relatório com cautela, afirmando não ter encontrado evidência de coordenação em larga escala. A divergência importa, porque revela algo ainda mais interessante: mesmo quando não há consenso sobre intenção organizada, há um consenso implícito sobre o efeito. O volume existe. A repetição existe. A amplificação existe.
E, na prática, isso basta.
Cinco anos depois, Meghan não lidera nenhuma lista verificável de “pessoa mais trollada do mundo”, mas está longe de ser uma figura de associação neutra ou positiva. Sua imagem permanece marcada por uma leitura predominantemente negativa, que já não se limita às redes sociais, mas encontra eco em veículos de prestígio e voltados para a indústria do entretenimento, como The Hollywood Reporter e Variety.
Claro, qualquer cobertura crítica costuma ser imediatamente tensionada por publicações como People, Town & Country ou Us Weekly, que frequentemente operam como contraponto, às vezes soando quase como veículos oficiosos dos Sussex. Ainda assim, no ponto central, Meghan não está completamente errada.
A construção de um alvo
Nenhum fenômeno dessa magnitude acontece no vazio, e Meghan Markle não é apenas uma celebridade exposta. Ela ocupa um lugar simbólico particularmente sensível.
Mulher, birracial, americana, divorciada, atriz e inserida — ainda que brevemente — na estrutura mais tradicional da Família Real, ao lado de Harry, ela é também o rosto de uma ruptura que a instituição jamais administrou completamente. Esse conjunto cria um campo fértil para projeções. E projeções, na cultura digital, rapidamente se transformam em narrativa.
Durante anos, a cobertura de tabloides britânicos operou dentro de uma lógica quase didática de contraste. Meghan como excesso, inadequação, ruptura. Do outro lado, Catherine, a Princesa de Gales, é símbolo de continuidade, elegância e estabilidade. Não se trata apenas de duas mulheres, mas de dois arquétipos sendo organizados para consumo.
Mas essa lógica não é unilateral. Os fãs de Meghan também atacam Kate Middleton com o mesmo fervor e, em alguns casos, com uma violência difícil de ignorar. Houve quem dissesse que o câncer enfrentado por Kate nos últimos anos seria “karma”. Eu li. Ninguém me contou.
A agressividade e a ideia distorcida de “liberdade de expressão” nos dois lados — com grupos organizados como o chamado Sussex Squad — revelam um ambiente em que o debate já não existe. O que existe é reação.
O resultado imediato é a simplificação desses arquétipos. Um risco evidente, que encontra na internet não apenas espaço, mas incentivo.


A economia que depende do conflito
Por isso, quando Meghan fala de uma “indústria bilionária baseada na crueldade”, a frase pode soar defensiva à primeira vista. Mas ela toca em um ponto estrutural.
A economia da atenção não recompensa equilíbrio. Ela recompensa reação.
Conteúdos que geram indignação, polarização ou identificação extrema circulam mais, são mais compartilhados, produzem mais engajamento. Isso vale para redes sociais, mas também para parte da mídia tradicional, que há décadas opera com títulos que organizam personagens em polos claros de simpatia e rejeição.
Nesse contexto, Meghan não é apenas uma figura pública. Ela se torna um vetor de tráfego.
E, quando isso acontece, a narrativa deixa de ser apenas sobre quem ela é e passa a ser sobre o que ela representa para diferentes públicos.
O efeito de escala e a ilusão de unanimidade
O dado mais inquietante do relatório da Bot Sentinel talvez não seja o volume de ataques, mas a forma como eles são produzidos.
Um número relativamente pequeno de contas pode gerar uma sensação de consenso. A repetição constante, a circulação em diferentes espaços e a amplificação algorítmica criam uma impressão de maioria que nem sempre corresponde à realidade e transforma ruído em clima. E, uma vez estabelecido esse clima, ele retroalimenta a própria cobertura. A mídia reporta a repercussão, a repercussão gera mais conteúdo, e o ciclo se fecha.
É, como Meghan mesmo afirma, uma dinâmica que pode ser percebida como sistematizada e, em alguns momentos, até como uma campanha de difamação. Vale lembrar que difamação é crime, mas também é um fenômeno difícil de conter uma vez que se espalha.
O problema, muitas vezes, é que esse processo começa com críticas que parecem legítimas. E é justamente aí que a fronteira entre análise, opinião e ataque se torna mais difícil de identificar e, portanto, mais fácil de ultrapassar.


Mais do que um caso individual
Comparações são inevitáveis. Outras figuras públicas, como Taylor Swift ou Kim Kardashian, também enfrentaram ondas massivas de ataque online. A diferença, no caso de Meghan, está na persistência e na natureza desses ataques.
Há uma dimensão racial, uma dimensão institucional e uma dimensão de ruptura que se sobrepõem e essa sobreposição transforma o caso em algo menos episódico e mais estrutural.
O que realmente está em jogo
Talvez o ponto mais honesto seja reconhecer que a fala de Meghan Markle não precisa ser literalmente precisa para ser essencialmente verdadeira.
Não importa se ela foi, de fato, “a pessoa mais trollada do mundo”. Em alguns momentos, ela parece, sim, estar entre as mais atacadas — e isso diz muito, sobretudo porque não ocupa hoje uma função pública formal nem sustenta uma carreira artística tradicional. Meghan se tornou um tipo específico de celebridade contemporânea: alguém cuja presença pública é construída a partir da própria narrativa. Palestras, livros, programas e contratos orbitam essa experiência pessoal — e também a transformam em produto.
Nesse contexto, faz sentido que uma das frentes de atuação dos Sussex seja justamente o combate aos efeitos negativos da internet. Nesse campo, Meghan Markle não apenas fala — ela vive o fenômeno. E há um dado que não pode ser ignorado: sua resiliência pública é, em si, um ativo.
O que importa, no fim, é que seu caso expõe com clareza como funciona o ecossistema que produz esse tipo de experiência.
Um sistema em que poucos podem gerar muito.
Em que repetição vira percepção.
E em que a crueldade, longe de ser um desvio, muitas vezes é parte do modelo de negócio.

No fim, a história de Meghan Markle diz menos sobre ela do que sobre o ambiente que a transformou em personagem.
E, talvez por isso, seja tão difícil encerrar essa narrativa.
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