Três anos depois da implosão que matou cinco pessoas a caminho dos destroços do Titanic, as autoridades canadenses divulgaram o relatório final sobre a tragédia do Titan. E, se ainda havia algum mistério em torno do que aconteceu em junho de 2023, a conclusão é dura: o desastre não foi provocado por um evento imprevisível das profundezas do oceano, mas por uma combinação de falhas de engenharia, excesso de confiança e uma cultura empresarial que ignorava alertas de segurança.
Com 136 páginas, o documento do Conselho de Segurança nos Transportes do Canadá praticamente encerra o caso. A investigação concluiu que a OceanGate nunca conseguiu comprovar que o casco de fibra de carbono do Titan possuía a resistência teórica prevista em seu projeto e que a construção e os testes da embarcação não seguiram práticas convencionais de engenharia.
Em outras palavras, a empresa simplesmente não sabia quantas viagens o submersível seria capaz de suportar antes de sofrer uma falha estrutural. A implosão aconteceu justamente em sua 88ª missão.
Os investigadores calcularam que a ruptura do casco ocorreu apenas 5,397 segundos depois da última mensagem enviada pela tripulação, quando o Titan já estava a mais de 3 mil metros de profundidade. As últimas palavras registradas pelo submersível foram simples: “All good” (“Tudo bem”). Poucos segundos depois, a embarcação deixou de existir.
A bordo estavam Stockton Rush, fundador da OceanGate, o especialista francês em Titanic Paul-Henri Nargeolet, o explorador britânico Hamish Harding e o empresário Shahzada Dawood, acompanhado do filho Suleman, de apenas 19 anos.

Ao longo dos últimos anos, diferentes investigações revelaram uma sucessão de sinais de alerta ignorados. Ex-funcionários relataram preocupações com segurança, engenheiros apontaram problemas nos testes e especialistas criticaram a decisão da empresa de não buscar certificações independentes. Segundo testemunhos apresentados à Guarda Costeira americana, Stockton Rush considerava esse processo lento, caro e uma barreira à inovação.
O relatório canadense vai além e aponta que nenhum órgão governamental era efetivamente responsável por conectar todas as informações existentes sobre as operações do Titan. Havia dados dispersos em diferentes departamentos, mas ninguém tinha uma visão completa dos riscos envolvidos. O resultado foi uma embarcação experimental operando sem supervisão adequada.
Um dos detalhes mais curiosos da investigação veio dos destroços recuperados no fundo do Atlântico. Entre eles estava uma câmera de titânio equipada com uma janela de cristal de safira, construída para suportar profundidades extremas. Apesar da implosão, a estrutura sobreviveu parcialmente e, surpreendentemente, o cartão de memória ainda funcionava.
Os investigadores conseguiram recuperar 12 fotografias e nove pequenos vídeos. Mas não havia ali imagens da viagem fatal. Os arquivos mais recentes haviam sido gravados em maio de 2023, cerca de um mês antes do acidente, durante treinamentos em águas rasas no Canadá. As imagens mostravam apenas procedimentos de calibração e preparação dos equipamentos. Nenhum registro dos momentos finais do Titan foi encontrado.
Em retrospecto, a ausência dessas imagens parece quase simbólica. Depois de três anos de especulações, buscas e audiências, o que ficou registrado não foi o instante da tragédia, mas tudo aquilo que veio antes dela.
Se havia uma narrativa romântica em torno da ideia de explorar o local onde repousa o Titanic, o relatório final deixa uma conclusão menos cinematográfica e muito mais humana: o Titan não foi derrotado pelas profundezas do oceano, mas pelas limitações de um projeto que nunca foi completamente compreendido por aqueles que o criaram.
E talvez exista uma ironia inevitável em tudo isso. Mais de um século depois do naufrágio do Titanic, outra tragédia ligada ao mesmo local terminou com uma conclusão semelhante: a confiança excessiva na tecnologia e a convicção de que as regras existentes poderiam ser ignoradas tiveram um preço fatal.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
