Existe um certo preconceito em chamar uma série de novela. Como se melodrama, personagens maiores que a vida e conflitos familiares fossem sinônimos de algo inferior. Gilberto Braga jamais acreditou nisso. Taylor Sheridan também não. E é justamente por isso que talvez não exista comparação mais adequada para o criador de Yellowstone: ele é, em essência, o Gilberto Braga dos cowboys.
Assim como o autor de Vale Tudo e Celebridade, Sheridan construiu um universo onde os personagens são mais importantes do que qualquer trama específica. Seus mundos são movidos por disputas familiares, romances impossíveis, heranças, traições, vinganças e vilões fascinantes. A fórmula é tão reconhecível que se repete quase como uma assinatura. Funcionou em Yellowstone, foi transportada para as prequelas 1883 e 1923, reapareceu em produções primas-irmãs como Landman e deve voltar em Madison. É sempre a mesma história, mas contada com rostos diferentes. Como toda boa novela.



Quando Kevin Costner deixou Yellowstone, muitos imaginavam que o império criado por Sheridan corria perigo. Afinal, John Dutton era o patriarca, o centro gravitacional daquele universo. Mas a reação dos fãs revelou algo interessante. As personagens mais populares da série já não eram necessariamente John, e sim o filho mais novo, Kayce Dutton, e, sobretudo, o casal formado por Beth Dutton e Rip Wheeler.
Interpretado por Luke Grimes, Kayce sempre ocupou um lugar curioso na narrativa. Veterano de guerra, casado com Monica e pai de Tate, ele era apresentado como a consciência moral dos Dutton, embora nem sempre fosse tão íntegro quanto a série fazia parecer. Foi atirador de elite, matou para proteger a família e viveu dividido entre a violência herdada do sobrenome e a vida simples que desejava para si. O personagem acabou “ganhando” Marshals, uma série que, ironicamente, mostrou que popularidade nem sempre é suficiente. Apesar do carinho dos fãs, a produção nunca encontrou o mesmo equilíbrio do original.
Beth e Rip eram outra história. Kelly Reilly e Cole Hauser se tornaram donos de uma química que poucas séries conseguem criar. Apaixonados desde adolescentes, separados pelas circunstâncias e reunidos décadas depois, os dois passaram anos sendo a alma emocional de Yellowstone. Mas chamá-los de mocinhos seria impossível.

Beth passou a série destruindo adversários, manipulando aliados e transformando vingança em estilo de vida. Em um dos acontecimentos mais traumáticos da trama, perdeu a possibilidade de ter filhos após uma decisão tomada por Jamie, algo que alimentou durante décadas uma guerra quase shakespeariana entre os irmãos. Rip, por sua vez, talvez seja o personagem mais romântico e mais assustador daquele universo. Capaz de morrer por Beth, mas também responsável por inúmeros assassinatos cometidos em nome dos Dutton, ele foi o executor silencioso de John durante anos. Entre os dois, há mais cadáveres e crimes do que na maioria dos vilões da televisão.
Ainda assim, ou justamente por isso, o público os transformou em um dos casais mais amados da TV americana. Sheridan compreendeu aquilo que Gilberto Braga também entendia: personagens moralmente corretos são interessantes; personagens contraditórios são inesquecíveis.
O final de Yellowstone foi polêmico. A despedida de John Dutton, as resoluções para Jamie, Beth e Kayce dividiram os espectadores. Mas também deixaram evidente que ainda havia histórias para contar. Assim nasceu Dutton Ranch.
Ao lado de Kelly Reilly e Cole Hauser, o spin-off trouxe Ed Harris, Annette Bening, Natalie Alyn Lind, Jai Courtney, Juan Pablo Raba e Finn Little. A premissa era deliciosamente simples: o pequeno rancho de Beth e Rip contra o poderoso 10 Petal Ranch, liderado pela imponente Vivienne Whitaker. Era Vale Tudo com cavalos. Ou Celebridade no Texas.

Por alguns episódios, porém, parecia que Sheridan estava prestes a cometer um erro. A rivalidade entre os ranchos foi cedendo espaço a alianças improváveis e a tensão desapareceu. A série corria o risco de perder exatamente aquilo que a tornava divertida.
Mas o autor, que conhece a mecânica do folhetim como poucos, percebeu isso a tempo. Os episódios mais recentes recuperaram as velhas armas do gênero: festas que terminam em tragédia, chantagens, filhos problemáticos, segredos de décadas, paixões proibidas, alianças rompidas e personagens capazes de mudar de lado em questão de minutos. A possível morte de Vivienne Whitaker pode ser mais uma dessas viradas destinadas a redefinir completamente o rumo da história.
Tudo é exagerado. Tudo é previsível. Tudo é absurdamente viciante.
Gilberto Braga entendia que o público nunca se apaixonava pelas empresas de Vale Tudo, mas por Odete Roitman. Não era a revista de Celebridade que importava, mas Laura e Maria Clara. Da mesma forma, os fãs de Yellowstone nunca estiveram realmente interessados em gado, petróleo ou cercas. Eles voltam semana após semana por causa de Beth, Rip, Kayce e dos inimigos que entram em suas vidas.
No fim das contas, Taylor Sheridan faz novelas. E talvez não exista elogio maior do que esse.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
