Stephen King encontrou uma comparação perfeita para descrever Maximum Pleasure Guaranteed. Segundo o escritor, a série da Apple é como se Alfred Hitchcock tivesse voltado para dirigir mais uma vez. Pode parecer exagero, mas basta assistir aos primeiros episódios para perceber que há algo profundamente hitchcockiano em sua construção. E não apenas na atmosfera de suspense ou no humor sombrio que atravessa a narrativa, mas também em uma de suas ideias mais clássicas: a pessoa errada, envolvida involuntariamente em uma conspiração que pode lhe custar a vida.
Foi assim em Intriga Internacional, em Os 39 Degraus e em tantos outros filmes do mestre do suspense. Em Maximum Pleasure Guaranteed, essa figura é Paula Sanders, interpretada por Tatiana Maslany. Recém-divorciada, trabalhando como checadora de fatos em uma revista e tentando sobreviver a uma desgastante disputa pela guarda da filha, ela parece a protagonista improvável de um thriller. É justamente essa aparente banalidade que torna tudo mais interessante.


Solitária e tentando preencher os vazios da nova vida, Paula começa a conversar pela internet com Trevor, um cam boy. O que parece apenas uma forma moderna de companhia logo se transforma em algo muito mais sombrio. Durante uma dessas conversas, ela presencia algo perturbador pela câmera. Pouco depois, Trevor desaparece, surgem ameaças de exposição de seus vídeos íntimos e a protagonista se vê mergulhada em uma trama de chantagens, assassinatos e segredos que jamais imaginou existir.
É uma premissa que Hitchcock certamente reconheceria. A diferença é que, em vez de um executivo confundido com um espião internacional ou um turista perseguido por agentes estrangeiros, a vítima da vez é uma mulher comum vivendo as ansiedades muito contemporâneas da solidão, do divórcio e da intimidade digital.
Criada por David J. Rosen, roteirista de Hunters, Citadel e Sugar, a série nasceu durante a pandemia, quando o autor passou a refletir sobre os efeitos da tecnologia nas relações humanas. Produzida por Simon Kinberg e dirigida por David Gordon Green, conhecido pelos filmes recentes de Halloween, Maximum Pleasure Guaranteed transforma essa premissa em um thriller que alterna tensão, humor e absurdo sem nunca perder de vista o drama humano de sua protagonista.


Grande parte do sucesso da série, no entanto, está nos ombros de Tatiana Maslany. Aos 40 anos, a atriz canadense continua sendo uma espécie de segredo bem guardado da televisão. Ela ganhou o Emmy em 2016 por Orphan Black, série em que realizou um dos trabalhos mais impressionantes da história recente da TV ao interpretar mais de dez clones diferentes, muitas vezes contracenando consigo mesma. Depois, assumiu o papel de Jennifer Walters em She-Hulk: Attorney at Law, da Marvel, tornando-se conhecida por um público muito mais amplo.
Ainda assim, havia entre seus admiradores a sensação de que ela merecia outro personagem à altura do que fizera em Orphan Black. Paula parece ser justamente essa oportunidade. Fragilizada, engraçada, desesperada, paranoica e profundamente humana, a personagem oferece a Maslany espaço para mostrar novamente por que ela é considerada uma das atrizes mais talentosas de sua geração.
Talvez por isso a série venha sendo tratada por muitos críticos como o melhor trabalho da atriz desde os tempos dos clones de Orphan Black. E não deixa de ser curioso que esse retorno aconteça justamente em uma produção que olha para o passado para encontrar sua identidade.

Em uma televisão dominada por franquias, universos compartilhados e propriedades intelectuais conhecidas, Maximum Pleasure Guaranteed parece lembrar que algumas fórmulas nunca envelhecem. Afinal, existe algo irresistível em acompanhar uma pessoa comum descobrir, da pior maneira possível, que entrou em uma história da qual talvez não consiga sair viva.
Hitchcock entendia isso. Stephen King percebeu imediatamente. E Maximum Pleasure Guaranteed faz dessa velha fórmula algo surpreendentemente novo outra vez.
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