Quando Dionne Warwick subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2023, havia uma sensação compartilhada entre o público: estávamos assistindo a um adeus.
Aos 83 anos, uma das maiores vozes da música popular americana retornava ao Brasil — país onde viveu, construiu amizades e para o qual sempre demonstrou enorme carinho — em uma turnê anunciada como sua despedida dos palcos. Naquela noite, tive o privilégio de assisti-la acompanhada dos meus pais, que me apresentaram à sua música ainda criança. Parecia impossível imaginar que haveria outra oportunidade.
Agora, três anos depois, Dionne Warwick anuncia mais uma vez sua despedida. A turnê “Over and Out – A Farewell Tour” passará pelo Brasil em outubro, com apresentações no dia 16 na Vibra São Paulo, dia 17 no Vivo Rio, dia 21 no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, e dia 22 no Teatro Guaíra, em Curitiba.
Não é uma contradição: artistas como Dionne Warwick simplesmente nunca se despedem de uma única vez.

Hoje, aos 85 anos, a cantora acumula uma trajetória praticamente impossível de ser resumida. São mais de 100 milhões de discos vendidos, seis prêmios Grammy, mais de 75 sucessos nas paradas e uma influência que ajudou a moldar a própria história da música popular americana. Descoberta por Burt Bacharach e Hal David em 1961, Dionne transformou composições como “Walk on By”, “I Say a Little Prayer”, “Alfie”, “A House Is Not a Home” e “Do You Know the Way to San Jose?” em clássicos definitivos do século 20.
Seu legado, no entanto, ultrapassa os números. Dionne foi pioneira em uma indústria que oferecia poucas oportunidades para mulheres negras, tornou-se a primeira artista afro-americana solo de sua geração a conquistar o Grammy de Melhor Performance Vocal Feminina Contemporânea e participou de alguns dos momentos mais emblemáticos da cultura pop global, incluindo “We Are the World”, o concerto beneficente Live Aid e a gravação de “That’s What Friends Are For”, cujo sucesso ajudou a arrecadar milhões de dólares para pesquisas sobre HIV/AIDS.
Nas últimas décadas, as homenagens se multiplicaram. Em 2019, recebeu o Grammy Lifetime Achievement Award. Em 2023, foi uma das homenageadas do Kennedy Center Honors, ao lado de nomes como Billy Crystal, Renée Fleming, Barry Gibb e Queen Latifah. Em uma das sequências mais emocionantes da cerimônia, Chloe Bailey interpretou “Walk on By”, Gladys Knight cantou “I Say a Little Prayer” e Cynthia Erivo entregou uma versão arrebatadora de “Alfie”, lembrando a todos por que Dionne Warwick permanece uma referência para gerações inteiras de artistas.
No ano passado, a cantora também foi incluída no Rock & Roll Hall of Fame, recebendo o Musical Excellence Award, reconhecimento reservado a artistas cuja originalidade e influência alteraram permanentemente os rumos da música popular.
Agora, para acompanhar este capítulo final, Dionne prepara o lançamento de “DWuets”, anunciado como seu último álbum de estúdio. O projeto reúne artistas de diferentes gerações, incluindo Cynthia Erivo e John Legend, em canções inéditas escritas por Diane Warren e centradas em temas como amor, esperança, resiliência e conexão humana.
A nova turnê promete revisitar sucessos como “Heartbreaker”, “I’ll Never Love This Way Again”, “That’s What Friends Are For” e, claro, “I Say a Little Prayer”. Mas, para muitos fãs, a experiência vai muito além de ouvir grandes canções.
Existe algo profundamente comovente em assistir a Dionne Warwick hoje. Talvez porque, ao contrário de tantos artistas, ela nunca tenha cantado apenas sobre amor. Dionne sempre cantou sobre memória, perda, saudade e passagem do tempo. E talvez por isso faça sentido que sua própria despedida também aconteça assim: não como um único adeus definitivo, mas como uma série de reencontros.
Se esta será realmente sua última turnê, ninguém pode afirmar com absoluta certeza. Mas, para quem já teve a oportunidade de ouvi-la ao vivo, existe uma verdade que permanece: a voz de Dionne Warwick faz parte da trilha sonora de nossas vidas. E algumas despedidas merecem ser celebradas mais de uma vez. Eu certamente tentarei estar lá de novo.
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