Circular pelo universo de Ryan Murphy pode nos levar de dramas açucarados a releituras históricas banhadas em glamour ou terror, passando por histórias que não apenas beiram o bizarro, mas mergulham alegremente nele. Não importa qual seja a vertente: a possibilidade de colocar os dois pés na cafonice nunca está descartada. Em algum nível, isso resume The Beauty, uma série que discute temas atuais e importantes, como a obsessão pela aparência e os excessos da indústria da beleza, mas faz tudo de maneira tão irregular que se torna difícil elogiá-la e igualmente injusto desprezá-la.
Agora, aparentemente, talvez nem tenhamos a oportunidade de descobrir se ela encontraria um equilíbrio. The Beauty não foi oficialmente cancelada pela FX, mas seu elenco foi liberado dos contratos e não existem planos atuais para uma segunda temporada. Na linguagem cuidadosa do streaming, a série está “em pausa”. Na prática, dificilmente continuará.

Na linguagem cada vez mais cautelosa do streaming, isso significa que a produção foi colocada em “pausa”. Na prática, Evan Peters, Rebecca Hall, Ashton Kutcher, Anthony Ramos, Jeremy Pope e os demais atores estão livres para assumir outros trabalhos, sem qualquer obrigação de retornar. Caso a FX decida recuperar a série no futuro, precisará renegociar os contratos e conciliar novamente todas essas agendas.
A notícia é especialmente frustrante porque The Beauty não terminou como uma minissérie. A primeira temporada encerrou seus 11 episódios com Cooper atravessando uma nova e misteriosa transformação, Byron cercado por processos e uma disputa pelo controle de sua empresa, enquanto a Beauty já começava a escapar definitivamente de qualquer contenção.
Evan Peters, aliás, falou abertamente sobre a continuação após a exibição do último episódio, em março. Para o ator, o cliffhanger preparava uma segunda temporada capaz de explorar, em escala muito maior, um mundo no qual a Beauty havia sido liberada. Havia, portanto, uma história imaginada para os próximos capítulos, embora a FX nunca tivesse confirmado oficialmente sua produção.

O mais curioso é que The Beauty chegou cercada por números impressionantes. O trailer acumulou quase 190 milhões de visualizações nas redes sociais e se tornou o mais assistido da história da FX. A série também reuniu um elenco enorme, filmagens internacionais, sequências de ação e muitos efeitos visuais. O problema é que toda essa ambição provavelmente tornou a produção cara demais para uma audiência que não acompanhou o tamanho do investimento.
Ainda existe uma pequena brecha porque séries de Ryan Murphy podem permanecer adormecidas durante anos antes de serem recuperadas. Mas Murphy também já está envolvido em inúmeros outros projetos, enquanto os atores de The Beauty começam a seguir suas próprias agendas. Quanto mais tempo passar, mais difícil será reunir novamente esse elenco.
Por enquanto, a FX evita pronunciar a palavra “cancelamento”, mas os sinais apontam para o mesmo destino. Seria a nova estratégia da indústria para lidar com decisões equivocadas? Apenas desaparecer no limbo do streaming?
A “pausa” de The Beauty sem revelar o que aconteceu com seu protagonista me lembra o cancelamento de Raised by Wolves pela HBO Max. As duas séries receberam enorme liberdade criativa. Se The Beauty transforma pessoas segundo um ideal de beleza apenas para, literalmente, fazê-las explodir depois, Raised by Wolves tinha seres humanos convertidos em árvores, uma serpente voadora meio orgânica, meio robótica, e ainda se despediu com seu anti-herói flutuando de cabeça para baixo após ser aparentemente possuído ou controlado pela entidade do planeta. Percebem como é complicado até explicar?


A HBO Max nem sequer tentou resolver a loucura em que Raised by Wolves havia se metido. A FX, provavelmente por se tratar de uma criação de Ryan Murphy, está sendo mais cautelosa e evita anunciar formalmente o cancelamento. “Liberar” o elenco talvez seja uma ironia cruel para uma série inteiramente construída em torno da promessa da transformação e da brutalidade do descarte. No mundo do entretenimento, porém, faz todo sentido.
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