The Cure é minha banda favorita desde sempre. E, detalhe importante, jamais me decepcionou. Robert Smith nasceu no mesmo dia que eu, o que evidentemente não significa nada, mas também significa tudo quando acompanhamos alguém por tantas décadas. Portanto, qualquer aparição dele fora da banda é recebida por mim com uma mistura pouco objetiva de curiosidade, proteção e, neste caso específico, uma ponta inevitável de ciúme. Olivia Rodrigo não apenas cantou com Robert Smith. Ela conseguiu levá-lo para o estúdio, gravar uma música com ele e transformar uma admiração herdada dos pais numa das parcerias mais improváveis e interessantes do pop atual.
Robert tinha 66 anos quando apareceu no palco com Olivia, então com 22, no Festival de Glastonbury, em junho de 2025. Hoje eles têm, respectivamente, 67 e 23. A diferença de idade chama a atenção, mas “amizade” não é a palavra que melhor define o que aconteceu entre os dois, além de emprestar à história uma intimidade desnecessária e um tanto esquisita. O que existe publicamente é uma troca artística entre uma jovem compositora e um músico que atravessou gerações sem jamais precisar correr atrás delas.

Olivia chegou a The Cure por meio do pai, fã da banda e responsável por apresentá-la às músicas de Smith ainda muito cedo. Ela já havia contado que ia a shows do grupo com ele e, ao ser convidada para encerrar o Glastonbury, decidiu procurar Robert. O convite partiu de alguém que não conhecia apenas “Friday I’m in Love”, como quem escolhe um clássico simpático para criar um momento viral. Olivia tratava Smith como um de seus heróis musicais e escolheu cantar com ele também “Just Like Heaven”, uma das canções mais perfeitas já escritas por qualquer pessoa em qualquer época.
A admiração, para surpresa de Olivia e talvez de todos nós, era recíproca. Smith conheceu seu trabalho por “Drivers License”, comprou Sour e Guts em CD e se declarou impressionado com a qualidade das composições, mesmo reconhecendo, com seu humor habitual, que as músicas não eram exatamente dirigidas à sua faixa etária. Quando ela o convidou para Glastonbury, ele não compareceu apenas como uma lenda convocada para legitimar uma estrela mais jovem. Parecia verdadeiramente interessado no que ela fazia.
Depois do festival, a parceria continuou no estúdio. Olivia levou “What’s wrong with me”, composição assinada por ela, Daniel Nigro e Sasha Alex Sloan. Smith não aparece nos créditos como autor, mas sua participação está longe de ser decorativa: ele gravou vocais, backing vocals, guitarra, piano e baixo de seis cordas, além de trabalhar na engenharia da faixa. Ou seja, não emprestou apenas a voz ou o nome. Entrou efetivamente na construção da música.
Isso faz diferença porque Robert Smith nunca pareceu interessado em distribuir sua aura indiscriminadamente. Ao longo dos anos, participou de projetos muito diferentes, mas quase sempre quando existe alguma afinidade real. Gravou “How Not to Drown” com o Chvrches e depois criou um remix para a faixa. Sua relação artística com o The Twilight Sad tornou-se ainda mais profunda: ele regravou “There’s a Girl in the Corner”, levou a banda para abrir turnês do The Cure e participou do álbum mais recente do grupo escocês. Também já apareceu ao lado de Gorillaz, Crystal Castles e Blink-182, mas cada encontro preserva alguma coisa de seu universo em vez de tratá-lo como um acessório gótico.
Smith não tem filhos por escolha e já disse que nunca se arrependeu disso, embora fale com carinho dos muitos sobrinhos. Em uma história quase perfeita, foi justamente aos sobrinhos adolescentes que ele recorreu antes de aceitar gravar com o Blink-182, querendo saber se a participação seria considerada interessante. Essa curiosidade talvez ajude a explicar por que ele continua escutando artistas muito mais jovens sem a condescendência habitual de quem acredita que a música relevante terminou na própria juventude. Ele não tenta parecer jovem. Continua apenas interessado.
Não deixa de ser coerente com o alcance do The Cure. De Trent Reznor, que fez um discurso profundamente pessoal ao introduzir a banda no Rock & Roll Hall of Fame, a Olivia Rodrigo, existe mais de uma geração de artistas que cresceu encontrando alguma forma de reconhecimento nas músicas de Robert Smith. Reznor falou sobre como The Cure o ajudou a sentir que não estava sozinho. Olivia chegou à banda pelos discos ouvidos em casa. A experiência muda, mas o ponto de encontro permanece: Smith criou uma música extremamente pessoal capaz de pertencer a pessoas que nasceram décadas depois dela.
Há uma ideia equivocada de que The Cure é uma banda essencialmente sombria que, de vez em quando, resolveu produzir uma canção pop. Na realidade, a veia pop sempre esteve lá. Mesmo nos discos mais densos, Robert Smith escreve melodias que se fixam imediatamente na memória. Em alguns momentos, mergulhou de cabeça no gênero, como em “Let’s Go to Bed”, “The Lovecats”, “In Between Days”, “Close to Me”, “Just Like Heaven”, “Friday I’m in Love” e “Mint Car”. Ainda assim, nada soa genérico. As músicas podem ser luminosas, dançantes ou até alegres, mas continuam estranhas, obsessivas e absolutamente pessoais. A felicidade, no universo de Smith, nunca deixa de desconfiar de si mesma.
É provavelmente isso que Olivia compreendeu melhor do que muitos artistas que tentam reproduzir apenas a superfície do The Cure. “What’s wrong with me” é uma balada de atmosfera melancólica, construída sobre sintetizadores e sobre a sensação de mal-estar que permanece depois do fim de uma relação. As duas vozes não tentam se fundir. Olivia soa jovem, exposta e inquieta; Robert entra carregando aquele cansaço emocional que sua voz parece conhecer desde antes de todos nós. A diferença entre os timbres e até entre os sotaques se torna parte da música.

A recepção foi majoritariamente positiva, embora não unânime. O The Guardian destacou a faixa entre os melhores momentos do álbum, enquanto a Pitchfork chamou a atenção para o contraste encantador entre as vozes. Rob Sheffield, na Rolling Stone, descreveu a canção como uma grande composição nova e ressaltou a intuição gótica do encontro. Já a NME foi mais reticente, observando que uma música com Olivia Rodrigo e Robert Smith “deveria ter sido um sucesso estrondoso”, numa formulação que sugere que a ideia da colaboração talvez seja mais irresistível do que seu resultado.
O público, de qualquer forma, respondeu. “What’s Wrong with me” chegou ao 17º lugar da parada americana, dando a Smith sua primeira entrada no Hot 100 como artista creditado individualmente, fora do nome The Cure. Não é pouca coisa para alguém que jamais pareceu medir a importância de uma música pela posição que ela ocupa numa lista.
Há ainda uma deliciosa coincidência no mesmo álbum: Olivia gravou uma canção chamada “The Cure”. Ela já esclareceu que o título não é uma referência à banda e que a sobreposição aconteceu por acaso. A música fala sobre a fantasia de encontrar em outra pessoa a solução para a própria insegurança, até perceber que o amor não funciona como tratamento e ninguém pode nos curar de nós mesmos. A Pitchfork a escolheu como “Best New Track”, destacando justamente a maturidade com que Olivia desmonta a ideia romântica de que outra pessoa será capaz de salvá-la.
A coincidência fica ainda mais divertida porque o álbum contém, sim, uma referência intencional ao The Cure. Em “drop dead”, Olivia evoca “Just Like Heaven” e a história por trás da composição. Portanto, talvez “The Cure” não seja sobre The Cure, mas a presença de Robert Smith e de sua música atravessa o disco de maneira difícil de ignorar.
The Cure também está entre as bandas mais regravadas das últimas décadas, embora não exista uma contagem oficial de quantos artistas já registraram suas músicas. A plataforma WhoSampled cataloga aproximadamente 790 gravações de covers — número que representa versões, não necessariamente 790 intérpretes diferentes. Adele e 311 regravaram “Lovesong”; Dinosaur Jr. transformou “Just Like Heaven” numa tempestade de guitarras que o próprio Smith adorou; Phoebe Bridgers cantou “Friday I’m in Love”; OK GO gravou “The Lovecats” e Bat for Lashes recriou “A Forest”.
Olivia Rodrigo conseguiu surpreender porque não tratou Robert Smith como uma referência vintage colocada no disco para produzir prestígio. Ela conhecia a música, entendeu a arquitetura pop escondida sob a melancolia e lhe ofereceu espaço para ser mais do que uma participação especial. Smith, por sua vez, não tentou transformá-la numa discípula do The Cure. Entrou no universo dela e acrescentou sua voz, seus instrumentos e seu estranho romantismo sem tomar a canção para si.
Continuo com ciúme, naturalmente. Olivia cantou “Just Like Heaven” com Robert Smith em Glastonbury, gravou com ele e ainda colocou uma música chamada “The Cure” no mesmo álbum. Há limites para a generosidade crítica. Mas preciso reconhecer: ela não apenas conheceu um ídolo. Conseguiu surpreendê-lo — e criou uma parceria que faz sentido justamente porque, à primeira vista, parecia não fazer nenhum sentido.
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