Corrida dos Bichos: uma aposta ambiciosa para a ficção científica brasileira

Existe algo admirável em Corrida dos Bichos antes mesmo de sabermos se todas as suas apostas funcionam. Em um momento em que o cinema brasileiro ainda produz relativamente poucas obras de ficção científica de grande escala, ver a O2 e Fernando Meirelles investirem em uma distopia ambientada em um Rio de Janeiro transformado pelas mudanças climáticas já é, por si só, um acontecimento.

A premissa é inteligente. Ao transformar o jogo do bicho em uma competição mortal acompanhada por apostadores e patrocinadores, o filme encontra uma metáfora que dialoga tanto com a cultura brasileira, especialmente a carioca, quanto com temas universais como desigualdade, espetáculo, poder e sobrevivência. É uma ideia que nasce de algo profundamente nosso e, ao mesmo tempo, possui potencial para viajar pelo mundo.

E poucas coisas poderiam ser mais cariocas. O jogo do bicho nasceu no Rio de Janeiro em 1892, criado como uma forma de aumentar a arrecadação do antigo zoológico de Vila Isabel. O que começou como uma promoção baseada na associação entre números e animais rapidamente ultrapassou os portões do zoológico e acabou se transformando em uma das instituições informais mais persistentes da cidade. Mais de um século depois, Corrida dos Bichos pega justamente esse imaginário — os animais, a aposta, o dinheiro, o poder paralelo — e o projeta para o futuro. É uma ficção científica que olha para frente carregando uma história profundamente enraizada no passado do Rio.

Talvez por isso a sensação ao final seja menos de fracasso e mais de oportunidade parcialmente realizada.

Como diretor, Fernando Meirelles continua demonstrando qualidades que o colocam entre os cineastas mais importantes do país. A qualidade visual é inegável. A fotografia, a construção daquele Rio futurista, o desenho de produção e a condução das sequências de ação revelam uma realização técnica raramente vista em produções nacionais dessa escala. Mesmo quando o roteiro perde força, a direção permanece segura e elegante.

O elenco também ajuda a reforçar a dimensão do projeto. O desfile de rostos conhecidos transforma Corrida dos Bichos em uma das produções mais ambiciosas do cinema brasileiro recente. Ao mesmo tempo, porém, essa escolha acaba expondo uma questão que nossa indústria ainda precisa enfrentar: a busca por maior consistência interpretativa quando se aventura em universos altamente estilizados.

Nem todos os atores encontram o tom exigido pela narrativa. Ainda assim, há destaques claros. Rodrigo Santoro domina a tela sempre que aparece e constrói um antagonista que consegue escapar dos clichês mais óbvios. Seu Jorge traz humanidade a uma história que, por vezes, corre o risco de se tornar excessivamente conceitual. Já Matheus Abreu, no papel de Gato, convence como protagonista e oferece ao espectador o ponto de apoio emocional necessário para atravessar aquele universo.

Parte do estranhamento também vem do próprio gênero. O cinema brasileiro não possui uma tradição consolidada de grandes distopias futuristas, e isso inevitavelmente influencia tanto a produção quanto a maneira como recebemos um projeto como este. Talvez por isso algumas referências permaneçam tão visíveis. É difícil não reconhecer ecos de Jogos Vorazes, Round 6, Rollerball e de outras histórias que transformaram competição, violência e desigualdade em espetáculo.

Influências são inevitáveis e não constituem um problema em si mesmas. O desafio está em absorvê-las até que deixem de parecer referências e passem a integrar uma identidade própria. Em diversos momentos, Corrida dos Bichos consegue fazer exatamente isso através do imaginário do jogo do bicho e de seu Rio distópico. Em outros, porém, as inspirações ocupam espaço demais.

Curiosamente, o aspecto que mais prejudica a experiência não está nas corridas, nos efeitos visuais ou mesmo na longa duração do filme. Está na narração que acompanha a competição.

Escalada como a voz oficial do espetáculo, Anitta faz o que o papel permite, mas a personagem retorna tantas vezes e explica tanto aquilo que já está acontecendo diante dos olhos do espectador que acaba produzindo o efeito oposto ao desejado. A impressão é que o roteiro não confia plenamente na capacidade do público de compreender as regras do jogo ou interpretar os acontecimentos por conta própria. Como essa estrutura se repete ao longo de duas horas e de múltiplas rodadas, a insistência cria uma sensação de redundância e contribui para que o filme pareça mais longo do que precisava ser.

É uma pena porque existe algo muito mais interessante acontecendo quando Corrida dos Bichos simplesmente permite que aquele universo exista. O Rio transformado pelo clima, a espetacularização da violência, os patrocinadores, as apostas e a possibilidade de pessoas arriscarem a própria vida diante de uma audiência que transforma tudo em entretenimento já dizem muito sem que alguém precise constantemente explicar o que estamos vendo.

Nada disso compromete completamente a experiência. Corrida dos Bichos continua sendo uma produção relevante pela escala de sua ambição e pela coragem de explorar um território ainda pouco frequentado pelo audiovisual brasileiro. O que fica é a sensação de que o filme funciona melhor como demonstração do que nossa indústria já é capaz de realizar tecnicamente do que como a obra definitiva que inaugurará uma nova era da ficção científica nacional.

Ainda assim, é um passo importante. Talvez seja injusto exigir que um único filme abra sozinho esse caminho. O mais interessante em Corrida dos Bichos é justamente provar que histórias brasileiras podem dialogar com o imaginário global sem precisar abandonar aquilo que as torna brasileiras.

Um jogo criado em um zoológico carioca em 1892 chega ao futuro transformado em espetáculo mortal. Entre apostas que funcionam melhor e outras que poderiam ter sido mais bem calculadas, talvez seja justamente aí, mais do que nas corridas, que esteja a maior vitória do filme.


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