Tentei entrar em Sterling Point porque a premissa sugeria algo um pouco mais intrigante do que o resultado final entrega. Há uma ilha herdada, uma mãe morta cercada de silêncios, fotografias antigas, relações familiares mal explicadas e a sensação constante de que alguma coisa importante foi escondida durante anos. Só que, apesar dessa embalagem de mistério, a nova série do Prime Video nunca deixa de ser essencialmente aquilo que parece desde o início: um drama adolescente bastante romântico, sentimental e deliberadamente açucarado sobre pertencimento, luto, família e primeiros amores.
A trama acompanha Annie Jacobson, vivida por Ella Rubin, uma adolescente de 17 anos que mora em Nova York com o irmão gêmeo Connor, interpretado por Keen Ruffalo, e que começa a história convencida de que consegue organizar o próprio futuro com a mesma precisão com que organiza todo o resto da vida. Quando perde uma importante oportunidade acadêmica que fazia parte desse planejamento, porém, surge uma mudança ainda maior: o avô materno que ela praticamente não conhecia morre e deixa para Annie e Connor uma propriedade em Muskoka, no Canadá, chamada Sterling Point.
É a viagem até essa ilha que desmonta aos poucos tudo aquilo que os dois irmãos acreditavam saber sobre a própria família. Annie e Connor foram adotados ainda crianças por Steven e Goldie, cresceram em Nova York e passaram boa parte da vida acreditando que a mãe havia morrido de câncer. Sterling Point, no entanto, está diretamente ligada ao passado de Goldie e guarda não apenas pessoas que a conheceram antes daquela vida que os filhos lembram, mas também uma jovem chamada Ramona, que vive no local e cuja existência imediatamente transforma a história familiar em algo muito mais complicado.

Ramona é filha biológica de Goldie, o que significa que Annie e Connor passaram anos sem saber que a mulher que os criou havia tido outra filha. A descoberta coloca os três adolescentes no centro de uma herança compartilhada e, ao mesmo tempo, abre a principal pergunta da temporada: por que Goldie escondeu Ramona e o que realmente aconteceu durante os últimos anos de sua vida?
Apesar de parecer exatamente o tipo de série que poderia ter nascido de um romance YA popular no BookTok, Sterling Point não é adaptação de livro. A história foi criada diretamente para a televisão por Megan Park, cineasta de The Fallout e My Old Ass, e tem entre os produtores Josh Schwartz e Stephanie Savage, dupla ligada a The O.C. e Gossip Girl, além da LuckyChap, produtora de Margot Robbie. Essa combinação ajuda a entender bastante o resultado, porque há aqui algo do universo de jovens bonitos, famílias privilegiadas e dramas afetivos de Schwartz e Savage, mas filtrado por uma sensibilidade mais contemporânea e emocionalmente cuidadosa.
A série também distribui seus conflitos entre os romances e a investigação do passado. Annie se envolve com Ellis, vivido por Jacob Whiteduck-Lavoie, enquanto Rory funciona como outra possibilidade amorosa; Ramona vive sua própria história com Oona; Connor começa a demonstrar interesse maior por suas origens biológicas; e a própria decisão sobre manter ou vender Sterling Point se transforma em uma discussão sobre o significado daquele lugar para cada um deles. Nada disso, porém, impede que o principal motor da temporada continue sendo Goldie e aquilo que todos decidiram esconder depois de sua morte.
A partir daqui, portanto, entram os spoilers completos da temporada.
A primeira grande revelação é que Goldie não morreu de câncer, como Annie e Connor sempre acreditaram. Ela morreu ao dar à luz Ramona, vítima de complicações ligadas a uma condição cardíaca. A verdade já muda completamente a maneira como os irmãos enxergam a própria infância, porque significa que a morte da mãe e a existência de Ramona foram transformadas em uma narrativa muito diferente daquela que realmente aconteceu.
Ainda falta, porém, descobrir quem é o pai de Ramona, e a série passa algum tempo apontando para Joe, personagem de Jeffrey Dean Morgan, homem que conhecia Goldie e teve uma relação importante com ela no passado. Tudo parece ser construído para que o público conclua que Joe é o pai, inclusive porque essa possibilidade criaria novas complicações entre os personagens, mas Sterling Point guarda uma segunda virada e revela que essa interpretação estava errada.
O pai biológico de Ramona é Steven, o mesmo homem que adotou Annie e Connor, foi casado com Goldie e os criou em Nova York. Portanto, Steven e Goldie adotaram os gêmeos e depois tiveram juntos uma filha biológica, Ramona, cuja existência permaneceu escondida durante anos. O segredo deixa de ser apenas sobre uma gravidez e passa a envolver também a maneira como Steven reconstruiu para Annie e Connor a história da própria família depois da morte de Goldie.
Também descobrimos que a relação entre Goldie e Steven já havia se rompido e que Steven deixou Sterling Point levando Annie e Connor com ele. Goldie pretendia reencontrar as crianças, mas entrou em trabalho de parto e morreu antes que isso acontecesse. A partir daí, Steven manteve Ramona fora da vida dos gêmeos e permitiu que eles crescessem acreditando em uma versão muito mais simples, e falsa, da morte da mãe.
É justamente nesse ponto que fica claro que todo o suspense construído em torno de Sterling Point nunca pretendia conduzir a um thriller ou a uma revelação realmente sombria. A série usa os mecanismos do mistério para contar um melodrama familiar, no qual a grande questão não é descobrir um crime escondido, mas entender quem amou quem, quem abandonou quem e até onde adultos podem ir ao tentar controlar aquilo que crianças sabem sobre a própria história.
O problema, pelo menos para quem entra esperando algo mais tenso, é que a própria encenação frequentemente sugere que existe uma descoberta muito maior esperando no final. A ilha, o passado apagado de Goldie, os objetos antigos, as relações mal explicadas e a presença de Joe ajudam a construir uma atmosfera de segredo que, no fim das contas, desemboca em paternidade, adoção, separação e versões conflitantes sobre uma família.
Isso não significa necessariamente que a proposta fracasse. Para quem gosta de dramas YA sobre identidade, luto, romance e reconciliação, Sterling Point oferece exatamente esse tipo de narrativa e ainda tem um elenco bastante eficiente sustentando personagens que poderiam facilmente virar caricaturas. Megan Park também demonstra novamente interesse por jovens tentando compreender adultos que tomaram decisões por eles muito antes que tivessem idade para entendê-las.

O final preserva essa mesma lógica. Annie escolhe Ellis em vez de Rory e decide permanecer ligada a Sterling Point, abandonando a ideia de simplesmente vender a ilha e voltar para a vida que havia planejado. Ramona, por outro lado, parte para Nova York depois de descobrir que Steven é seu pai biológico e tenta conhecer melhor o homem cuja existência passou a ter um significado completamente diferente para ela. Connor também termina a temporada mais interessado em investigar suas próprias origens, deixando abertas novas histórias caso a série continue.
No fim, portanto, o segredo de Sterling Point é menos explosivo do que sua construção faz parecer. A série não está escondendo uma conspiração, um assassinato ou uma mudança radical de gênero, mas uma família formada por adoção, relações interrompidas, mentiras contadas como forma de proteção e filhos tentando reconstruir uma história que os adultos decidiram editar por eles.
Talvez essa seja também a melhor maneira de decidir se vale continuar assistindo. Quem se envolver com os romances, com o drama familiar e com essa ideia de um verão capaz de reorganizar a vida inteira provavelmente encontrará bastante coisa para gostar. Quem estiver esperando que a ilha esconda uma história muito mais sombria, porém, pode ajustar as expectativas: Sterling Point é um melodrama desde o primeiro episódio até o último, apenas com alguns segredos familiares guardados no caminho.
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