Silo: o passado dá um banho no presente em “Radio”

Há um problema delicioso acontecendo nesta terceira temporada de Silo: toda vez que a série volta ao presente, eu quero saber o que vai acontecer com Juliette. Mas toda vez que sai do passado, quero Daniel e Helen imediatamente de volta. Sete episódios depois, não tem muito como negar: o passado está dando um banho no presente.

Não porque a história de Juliette tenha deixado de ser importante. É no Silo 18 que vemos as consequências de decisões tomadas séculos antes e onde a série continua tendo Rebecca Ferguson como seu centro emocional. Mas Daniel Keene e Helen Drew estão vivendo algo ainda mais sedutor para quem acompanha Silo desde o início: eles estão vendo o mistério nascer.

“Radio” finalmente nos leva até lá. Durante duas temporadas perguntamos quem construiu os silos, por que eles existem, quem criou o sistema de vigilância, quem decidiu que memórias poderiam ser apagadas e que uma inteligência artificial teria autoridade para exterminar milhares de pessoas. Agora Daniel e Helen estão literalmente entrando no espaço onde essas respostas começaram.

Eles finalmente conhecem Per Stensen, interpretado por Colin Hanks, um dos homens mais ricos e poderosos do mundo e alguém que já vinha sendo associado a projetos de inteligência artificial e controle. Stensen deixa claro que Daniel, Helen, Charlotte e os demais estão diante de algo gigantesco, um segredo que supostamente existe para “salvar o mundo”. Como sempre em Silo, quando alguém diz que está salvando a humanidade, convém desconfiar.

Helen hesita antes de aceitar entrar no projeto justamente porque é jornalista. A promessa de que poderá contar aquela história no futuro soa quase irônica para nós, que sabemos que o mundo que está nascendo ali será construído precisamente sobre silêncio, segredo, censura e esquecimento.

Stensen ainda conta uma história aparentemente absurda sobre cientistas que chegaram perto de criar geneticamente um unicórnio e sobre outro bilionário disposto a financiar o projeto apenas para poder caçá-lo depois. Parece excentricidade, mas a história funciona como uma pequena parábola sobre poder. A questão nunca é apenas o que alguém consegue criar. É o que decide fazer depois de descobrir que pode.

E então vem a imagem que muda o episódio inteiro. Daniel e Helen olham para o chão da Geórgia e veem máquinas gigantescas perfurando a terra. Não precisamos mais imaginar quando começou o projeto. Os silos estão sendo construídos diante deles.

É difícil competir com isso.

Enquanto o passado nos mostra o nascimento do sistema, o presente mostra seu funcionamento mais perverso. Robert Sims descobre que Camille não pretende esperar: o Vitamin D+ já foi colocado na água do Silo 18. Portanto, não estamos mais diante da ameaça de apagar memórias. O processo começou.

Juliette antecipa a missão de Lukas e Patrick Kennedy ao Silo 17. Eles precisam encontrar as plantas que indiquem onde passa o sistema do Safeguard, porque Juliette quer neutralizar a possibilidade de o Algoritmo liberar o veneno capaz de exterminar toda a população.

Lukas e Kennedy saem durante a noite e, por alguns instantes, Silo até permite alguma beleza. Lukas, que passou a vida olhando para pontos luminosos sem compreender exatamente o que eram, finalmente está do lado de fora vendo as estrelas. Só que a paz nunca dura muito nesta série.

Perto dos corpos deixados pela rebelião do Silo 17, os dois começam a ouvir um zumbido estranho. A transmissão falha, Walker escuta tiros e depois vem o silêncio. O Algoritmo informa que os dois foram “neutralizados”, enquanto Camille conta a Juliette que houve um problema com os trajes.

Por boa parte do episódio, somos levados a acreditar que Lukas e Kennedy morreram. Mas o final desmonta essa impressão. Kennedy consegue novamente contato pelo rádio. Está vivo, aparece com o capacete de Lukas e confirma que as crianças do Silo 17 também sobreviveram.

Isso abre imediatamente outra pergunta: onde está Lukas? Seu destino fica em aberto, assim como a origem do zumbido e dos tiros. Portanto, qualquer sentença de morte para ele ainda é prematura.

Mas a revelação mais perturbadora de “Radio” está em outro lugar. Bernard reaparece com Gloria Hildebrandt e leva até Juliette o diário de Mission, escrito durante uma rebelião anterior. Glória ainda se lembra de Juliette. Juliette, que também teve sua memória manipulada, não se lembra dela.

É pelo diário que finalmente entendemos, de maneira muito mais concreta, o que a droga faz. Mission registra a própria deterioração mental enquanto ela acontece. As pessoas começam a esquecer. Perdemos acontecimentos, referências, relações e partes da própria biografia. O desespero provocado por essa deterioração teria levado muitos ao suicídio.

É impossível assistir sem pensar, como imagem dramática, em uma espécie de surto de Alzheimer provocado deliberadamente pelo Estado. Evidentemente não é Alzheimer do ponto de vista médico, mas o horror emocional se aproxima: continuar vivo enquanto aquilo que sustenta sua identidade, seus afetos e sua história começa a desaparecer.

Só que em Silo alguém escolheu provocar isso.

E talvez esta seja uma das ideias mais perversas de toda a série. O sistema não precisa convencer a população de que uma rebelião está errada. Basta fazê-la esquecer que houve uma rebelião. Não é necessário reescrever a História se ninguém consegue se lembrar dela.

Sem memória, não existe aprendizado. Sem aprendizado, não existe História. E sem História, cada geração pode ser enganada como se fosse a primeira.

Essa descoberta leva Juliette até uma posição moralmente muito desconfortável. Sem as plantas do Silo 17, Teddy sugere explodir Judicial para tentar destruir o sistema do Safeguard. O problema é que ninguém sabe exatamente quais seriam as consequências e a explosão poderia matar cerca de mil pessoas.

Bernard coloca diante dela uma matemática monstruosa: não fazer nada pode significar ainda mais mortes provocadas pelo caos da perda de memória, além de deixar toda a população submetida à droga.

Juliette acaba autorizando a operação. É um momento importante porque ela passou a série inteira enfrentando autoridades que justificavam atrocidades dizendo que eram necessárias para salvar o Silo. Agora está perigosamente perto de usar exatamente o mesmo argumento.

A explosão só é abortada quando Kennedy reaparece no rádio e Juliette percebe que a missão ao Silo 17 talvez ainda tenha funcionado. Ela ganha tempo antes de cruzar uma linha da qual talvez não pudesse voltar.

Enquanto isso, Camille e Robert Sims finalmente deixam de estar apenas em crise conjugal e passam a representar visões de mundo opostas. Os dois acreditam estar protegendo Anthony, mas Camille entende sobrevivência como obediência ao sistema, enquanto Robert começa a perceber que sobreviver sem memória talvez não seja exatamente viver.

E é aí que o Pez que ele guarda para o filho passa a ter um significado ainda mais bonito e assustador. Em um mundo no qual uma droga pode apagar até o reconhecimento entre mãe, pai e filho, um pequeno objeto vira uma âncora. Uma lembrança dizendo: você me conhecia antes de alguém mandar você me esquecer.

O episódio ainda traz outra revelação importante. Knox começa a desconfiar da versão oficial sobre a morte do pai e descobre que pode estar certo. Tudo indica que seu pai não morreu e que outra pessoa foi enterrada em seu lugar depois que ele construiu alguma coisa para Ed Harwood, que teria ajudado a forjar sua morte.

Ainda não sabemos o que ele construiu nem onde está, mas é difícil imaginar que essa história seja pequena. Ao mesmo tempo, Billings e Hank continuam investigando a morte de Orla e as movimentações de Glenda, enquanto Harwood parece cada vez mais envolvido numa rede clandestina que funciona paralelamente às estruturas oficiais do Silo.

Mas, mesmo com tudo isso acontecendo no presente, “Radio” termina pertencendo ao passado.

Helen e Daniel olham para baixo e veem uma máquina gigantesca perfurando a terra. Depois de três temporadas tentando subir, escapar, descobrir o que existe do lado de fora e entender por que milhares de pessoas foram enterradas vivas dentro de estruturas subterrâneas, Silo finalmente nos mostra o movimento contrário.

Alguém começou a cavar.

Alguém decidiu que 51 silos seriam necessários. Alguém desenvolveu uma tecnologia capaz de interferir na memória. Alguém entregou a uma inteligência artificial poder suficiente para decidir quando uma população deveria esquecer — ou morrer.

Ainda não sabemos exatamente o que aconteceu com o mundo para justificar tudo isso. Também não sabemos se os silos foram realmente criados apenas para sobreviver a uma catástrofe ou se seus próprios criadores tiveram alguma participação no que tornou o mundo inabitável.

Mas agora conhecemos algumas das pessoas que estavam ali quando o futuro começou a ser desenhado.

É por isso que o passado está funcionando tão bem nesta temporada. No presente, Juliette tenta descobrir como destruir a máquina. No passado, Daniel e Helen estavam conhecendo as pessoas que decidiram construí-la.

E toda vez que a série corta deles para voltar ao Silo 18, por mais que eu ame Juliette, minha reação já é automática: volta.


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