Há semanas em que o Top 10 do streaming parece uma lista de novidades. Nesta, ele funciona quase como um mapa das marcas, personagens e universos aos quais o público escolhe voltar. Isso não significa necessariamente conteúdo velho. Silo, Reacher, House of the Dragon e The Shards estão entregando episódios novos. Mas existe algo familiar em praticamente tudo que domina as plataformas: uma série já amada, uma franquia conhecida, um universo que continua se expandindo ou um nome que diminui o risco de escolher entre milhares de opções.
É uma lógica interessante porque também revela como cada streaming está construindo sua personalidade. Netflix continua entendendo muito bem o apetite contemporâneo por YA, documentários e true crime. HBO Max vive de grandes propriedades e prestígio. Disney tem talvez o arsenal mais assustador de marcas reconhecíveis do mercado. Prime Video encontrou em ação e franquias um terreno seguro. Paramount+ praticamente transformou familiaridade em estratégia. E a Apple TV chega ao segundo semestre com um dos catálogos de séries mais consistentes e impressionantes de 2026.

Netflix: YA, documentário e crime real
Confesso que estou pasma que The Last House, com Wagner Moura e Greta Lee, continue liderando entre os filmes porque não gostei dele. Mas essa é justamente uma das graças de acompanhar rankings: gosto pessoal e comportamento de audiência nem sempre andam de mãos dadas. O thriller de Louis Leterrier encontrou seu público e ficou no topo mesmo enfrentando uma recepção crítica bastante mais complicada.
Entre as séries, a Netflix parece ter colocado em uma única lista praticamente a fórmula do espectador do século 21. My Life with the Walter Boys está em primeiro, trazendo o universo YA que a plataforma conhece tão bem. Logo aparecem documentário, reality, ficção de conforto e, claro, true crime. MOURINHO está em terceiro, enquanto The Bombing of Pan Am 103 e The Idaho Murders fecham o Top 10.
Pode parecer uma combinação aleatória, mas não é. Romance jovem, celebridades reais, crimes reais e histórias que convidam imediatamente ao “só mais um episódio” são talvez algumas das formas mais eficientes de transformar curiosidade em horas assistidas. A Netflix não inventou esse comportamento, mas sabe alimentá-lo como poucas.

HBO Max: Westeros ainda não saiu de cena
Seria estranho se House of the Dragon não estivesse em primeiro nesta semana. O final da terceira temporada chegou há poucos dias, dividiu opiniões, provocou discussões e confirmou que, concordemos ou não com as escolhas de Ryan Condal, Westeros continua sendo um acontecimento.
Os números deixam isso ainda mais evidente. O episódio final chegou a 21 milhões de espectadores nos primeiros três dias, mais de 11 milhões deles apenas nos Estados Unidos. A temporada está com média de 34 milhões de espectadores por episódio, praticamente empatada com os 35 milhões da segunda. Não é apenas um primeiro lugar circunstancial: é uma das maiores propriedades da HBO funcionando exatamente como uma grande propriedade deve funcionar.
Stuart Fails to Save the Universe aparece logo atrás e está conseguindo se manter muito bem, mas esse Top 10 deve sofrer outra sacudida quase imediata. Lanterns, com Aaron Pierre e Kyle Chandler, estreia neste domingo, 16 de agosto, e é difícil imaginar que não vá rapidamente ocupar um dos primeiros lugares. A DC entra em campo justamente quando os dragões deixam espaço livre no calendário.
Nos filmes, Mortal Kombat II está em primeiro, reforçando de novo a tese da semana: reconhecimento importa. Pode mudar a plataforma, o gênero ou a geração. Quando o espectador conhece aquele universo antes mesmo de apertar o play, metade da batalha pela atenção já foi vencida.


Disney+: o poder quase assustador do catálogo
A capacidade da Disney de conversar ao mesmo tempo com adolescentes, jovens adultos, pais e fãs de franquias é francamente assustadora. Basta olhar os dois rankings.
Nas séries, The Shards ocupa o primeiro lugar e Fúria (Furious) aparece logo atrás. São dois conteúdos que chegam ao Disney+ pela força do ecossistema Hulu/FX e ajudam a expandir a imagem da plataforma para muito além de princesas, super-heróis e animações.
The Shards é FX, adaptação de Bret Easton Ellis com Ryan Murphy como produtor executivo, e tem todos os ingredientes que Murphy sabe explorar como poucos: crime, sexo, desejo, mistério, gente linda tomando péssimas decisões e uma trilha sonora oitentista espetacular. Ryan Murphy pode repetir alguns de seus próprios vícios, mas ninguém constrói sucesso durante tanto tempo sem entender profundamente como capturar nossa curiosidade.

Fúria, que vou abordar também na coluna da CLAUDIA, vem da Hulu e tem a assinatura de Liz Meriwether. Emmy Rossum e Lola Petticrew ocupam os dois lados de uma história de violência, obsessão e vingança que também é muito representativa do tipo de thriller adulto que a Hulu transformou em especialidade. Não precisa ser revolucionário para funcionar; precisa saber exatamente o que quer discutir e como manter o público dentro da história.
Mas são os filmes que mostram o tamanho do monstro Disney. The Devil Wears Prada 2 está em primeiro, mas olhe o que vem atrás: Avengers: Infinity War, Avengers: Endgame, The Avengers e Avengers: Age of Ultron, além dos filmes do Homem-Aranha.
E o efeito Marvel atravessa inclusive o ranking de séries, onde Loki reaparece no décimo lugar. Faz sentido. Com Avengers: Doomsday se aproximando, rever Loki é praticamente obrigatório para quem quer chegar preparado à próxima fase, enquanto retornar aos Vingadores serve ao mesmo tempo para matar saudades e reorganizar na cabeça uma mitologia que já ficou gigantesca.
É a vantagem competitiva que poucas empresas conseguem reproduzir: a Disney lança algo novo e, imediatamente, dezenas de títulos antigos voltam a adquirir valor.

Prime Video: Reacher volta dando chute na porta
Aqui não houve surpresa alguma. Reacher voltou e foi diretamente para o primeiro lugar.
Aliás, depois de assistir ao retorno, seria quase decepcionante se ele tivesse entrado discretamente. Reacher não sabe fazer nada discretamente. A violência continua elevada a níveis quase absurdos, Alan Ritchson continua parecendo capaz de derrubar uma parede sem ajuda e, ainda assim, a fórmula funciona. Talvez justamente porque a série nunca finge ser outra coisa.
O mais divertido, porém, está nos filmes. Mestres do Universo não foi nos cinemas o sucesso que Amazon e Mattel certamente imaginaram para uma produção desse tamanho. Arrecadou cerca de US$ 114 milhões mundialmente depois de custar perto de US$ 200 milhões antes mesmo do marketing. Mas pelos poderes de Grayskull, He-Man encontrou sua segunda vida: é agora o filme mais visto do Prime Video.
É um excelente lembrete de que fracasso no cinema e fracasso no streaming não são necessariamente a mesma coisa. Uma propriedade conhecida pode não convencer alguém a comprar ingresso, enfrentar trânsito e pagar pipoca, mas pode parecer irresistível quando está a um clique do sofá. Para a Amazon, talvez essa sempre tenha sido parte da equação.

Paramount+: familiaridade como estratégia
Poucas listas explicam tão bem uma plataforma quanto a da Paramount+. Lioness está em primeiro, seguida por South Park e Yellowstone. Depois aparecem SEAL Team, Criminal Minds, Dutton Ranch, Tulsa King e Star Trek: Strange New Worlds.
É quase impossível olhar para isso sem perceber uma estratégia. A Paramount+ não está tentando reinventar sua identidade a cada lançamento. Está transformando propriedades reconhecíveis, personagens estabelecidos e universos que permitem expansão em hábito.
Lioness é o melhor exemplo desta semana. A série voltou forte, ocupou imediatamente o topo e conviveu ali com várias outras produções ligadas à mesma ideia de televisão muscular, serializada e extremamente fácil de reconhecer. Taylor Sheridan ajudou a criar boa parte dessa gramática, mas ela já se tornou maior do que um único criador.
Nos filmes acontece a mesma coisa. Avatar Aang: The Last Airbender está em primeiro, seguido por Scream 7 e Top Gun: Maverick. É franquia, franquia e franquia. Nem sempre a familiaridade significa falta de imaginação. Às vezes significa simplesmente saber exatamente por que o assinante abriu aquela plataforma.

Apple TV: talvez o melhor catálogo de séries de 2026
Tenho dito isso ao longo do ano e o ranking só reforça minha impressão: o catálogo de séries da Apple TV é um dos mais impactantes e consistentes de 2026. A empresa prometeu novos originais todas as semanas em 2026 e, olhando para o ranking, o resultado aparece.
Silo está em primeiro e já pode ser chamado sem exagero de fenômeno. A terceira temporada está no ar, ainda caminhando para sua conclusão em setembro, enquanto a quarta já foi definida como a última. E esta fase está particularmente interessante porque, enquanto as reviravoltas dentro do Silo ficam cada vez maiores, os flashbacks abrem outra frente narrativa, apresentam novos rostos e começam a explicar como aquele mundo foi criado. O passado está literalmente disputando espaço com o presente.
Mais impressionante ainda é que Silo segurou a volta de Ted Lasso, que aparece em segundo. E aí temos uma contradição deliciosa: a recepção criativa à quarta temporada tem sido mais morna, exatamente como se imaginava depois de três anos de ausência e de uma história que parecia encerrada, mas curiosidade não faltou.


A estreia da temporada registrou 296,6 milhões de minutos assistidos em apenas dois dias, o maior lançamento da história da Apple TV. Foram cerca de 7,1 milhões de visualizações estimadas, e somente em 5 de agosto a série ultrapassou 200 milhões de minutos assistidos nos Estados Unidos. Portanto, “morno” aqui definitivamente não significa ignorado.
Depois aparecem Lucky, Severance, Cape Fear, Women in Blue, Your Friends & Neighbors, Sugar, Widow’s Bay e Shrinking. É difícil encontrar dez séries juntas com essa variedade e, principalmente, esse nível de identidade autoral. A Apple já teve o problema de produzir coisas boas que pouca gente percebia que existiam. Em 2026, isso deixou de ser o problema.
Nos filmes, porém, a história é outra. F1 continua na pole. O filme chegou aos cinemas há mais de um ano e está no streaming desde dezembro de 2025, mas ainda ocupa o primeiro lugar. Foi um fenômeno comercial, ultrapassou US$ 629 milhões nos cinemas e se tornou o maior filme esportivo da história em bilheteria. Mas sua longevidade dentro da Apple TV também expõe uma diferença importante em relação às séries: há menos lançamentos cinematográficos capazes de desafiar sua liderança.
Até que outro grande filme apareça, Brad Pitt pode continuar dando suas voltas tranquilamente.

O que a semana revela
Talvez o ponto mais interessante deste Top 10 seja que familiaridade e novidade deixaram de ser opostos.
The Shards é nova, mas chega com Bret Easton Ellis e Ryan Murphy. Lanterns estreia agora, mas carrega décadas de DC nas costas. Mestres do Universo fracassou nos cinemas, mas He-Man continua sendo He-Man. Reacher, Silo, House of the Dragon, Lioness e Ted Lasso voltam sabendo que não precisam mais se apresentar ao público. E a Marvel consegue transformar a expectativa por um filme futuro em audiência para títulos lançados muitos anos atrás.
No fim, o ranking deixa de ser apenas uma lista dos programas mais vistos. Ele vira um mapa de como escolhemos assistir televisão e cinema quando temos opções demais.
A novidade ainda seduz. Mas, em um universo infinito de escolhas, reconhecer alguma coisa continua sendo um convite poderoso para apertar o play.
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