Ted Lasso encontra seu adversário no futebol feminino

Talvez a quarta temporada de Ted Lasso esteja finalmente começando a responder à pergunta que venho fazendo desde que a série voltou: onde está aquela antiga magia que fazia até os conflitos mais difíceis encontrarem algum tipo de acolhimento, esperança ou possibilidade de transformação? Depois do terceiro episódio, começo a achar que a resposta é justamente que ela não desapareceu, mas encontrou um adversário muito mais difícil de enfrentar. Desta vez, não existe um Jamie Tartt que pode amadurecer, um Roy Kent que pode baixar a guarda ou uma Rebecca que pode perceber o que está fazendo e mudar de direção. O problema que a equipe feminina do AFC Richmond enfrenta não depende necessariamente de uma pessoa mal-intencionada, porque está embutido no próprio sistema. E talvez por isso pareça tão mais difícil de vencer.

O futebol feminino apresenta para Ted um desafio diferente de tudo o que ele enfrentou quando chegou ao Richmond. No masculino, por pior que estivesse o ambiente, havia estádio, torcida, patrocinadores, dinheiro, estrutura, jogadores formados e uma indústria inteira preparada para sustentar a existência daquele time. As mulheres chegam tendo que justificar cada uma dessas coisas antes mesmo de entrar em campo. O episódio 3 praticamente transforma essa diferença na sua trama central e mostra que ninguém precisa desejar conscientemente o fracasso delas para que tudo trabalhe contra sua existência.

Keeley é quem sente isso de maneira mais brutal porque está tentando tornar a nova equipe economicamente possível. Ela enfrenta acionistas pouco interessados, patrocinadores desconfiados e uma estrutura que exige resultados antes de oferecer as condições mínimas para que eles aconteçam. A reunião com os investidores explicita esse problema de forma quase didática: quando chega a hora de falar das mulheres, o interesse diminui, Higgins tem um relatório pessimista sobre a viabilidade financeira do projeto e patrocinadores começam a recuar. A equipe feminina precisa provar que será rentável antes de ter disputado uma única partida, dentro de um sistema que usa justamente sua falta de histórico como argumento para não investir nela.

É um círculo perverso e bastante familiar. Não há dinheiro porque supostamente não existe audiência; não existe audiência porque há pouco investimento e pouca exposição; não há investimento porque ainda não existem resultados suficientes; e não existem resultados porque ninguém ofereceu estrutura comparável para produzi-los. O que Ted Lasso está mostrando, portanto, vai muito além da dificuldade de montar um novo time. É o famoso “boicote estrutural” funcionando sem precisar de um vilão declarando que mulheres não deveriam jogar futebol.

Por isso a confusão com os uniformes deixa de ser apenas uma piada logística. As jogadoras do Richmond estão prestes a disputar sua primeira partida e simplesmente não têm o que vestir. Roy, tentando ajudar Keeley, comete um daqueles erros que tornam o episódio particularmente desconfortável porque ele não tem nenhuma intenção ruim. Ele ama Keeley, quer apoiá-la e acredita sinceramente estar fazendo isso. Quando tenta tranquilizá-la dizendo que, afinal, é apenas um amistoso, não percebe a dimensão do que acabou de dizer.

A reação de Keeley é o momento mais importante do episódio justamente porque desmonta essa ideia aparentemente inocente. Para o futebol masculino, talvez um amistoso possa ser apenas um amistoso, um jogo sem maiores consequências, parte de uma preparação que será esquecida assim que a competição realmente começar. Para aquelas mulheres, não existe essa possibilidade. Cada partida é também uma avaliação de sua existência. Cada erro pode ser usado como argumento para dizer que não há público, não há retorno financeiro, não há talento suficiente ou não há razão para continuar investindo. Elas não estão apenas entrando em campo para jogar futebol, mas tentando provar que merecem dinheiro, torcida, estrutura, transmissão, uniforme e futuro.

A série acerta especialmente ao colocar esse tipo de erro na boca de Roy, porque ele está muito longe da caricatura do homem conscientemente machista. Roy respeita mulheres, ama Keeley, é profundamente ligado a Phoebe e, ao longo das temporadas, mudou em inúmeros aspectos. Ainda assim, carrega um tipo de preconceito que não reconhece em si mesmo porque cresceu dentro de uma lógica em que “futebol” sempre quis dizer, automaticamente, futebol masculino. Isso aparece também quando Phoebe fala em assistir ao Richmond e ele pergunta qual Richmond, como se fosse necessário distinguir imediatamente entre o time “de verdade” e o feminino. Para Phoebe, a pergunta nem faz sentido. Os dois são Richmond. Talvez seja justamente essa simplicidade que torne a situação tão reveladora.

Enquanto Keeley enfrenta a resistência financeira, Ted e Beard esbarram em outra consequência concreta da desigualdade. Faltando pouco para a estreia, eles ainda precisam preencher vagas no elenco e descobrem que simplesmente não existe a mesma abundância de atletas disponíveis que encontrariam no futebol masculino. E aqui Ted Lasso volta a mostrar o quanto entende de música ao escolher para acompanhar os testes I Hope I Get It, a canção que abre A Chorus Line.

A escolha é brilhante porque A Chorus Line é justamente uma história sobre pessoas disputando uma chance mínima de ocupar o palco. O musical nasceu das experiências reais de bailarinos da Broadway e acompanha uma audição em que dezenas de artistas competem por poucas vagas no coro de um espetáculo. Eles não serão as grandes estrelas, seus nomes não estarão acima do título e, para boa parte da plateia, serão apenas aquelas figuras que preenchem o fundo do palco. Ainda assim, conquistar uma dessas posições significa tudo para eles. É trabalho, sobrevivência, pertencimento e a possibilidade de continuar fazendo aquilo para o qual dedicaram suas vidas.

Por isso I Hope I Get It funciona tão perfeitamente abrindo o musical. Antes do glamour, dos aplausos ou do espetáculo pronto, existe apenas a ansiedade de quem espera desesperadamente ser escolhido. A canção é literalmente sobre esse momento em que cada gesto pode decidir o futuro: espero conseguir, espero que alguém me veja, espero que desta vez digam sim. Quando Ted Lasso usa essa música durante os testes das mulheres, transforma uma sequência potencialmente cômica em algo muito mais significativo. Elas também estão disputando um espaço pequeno dentro de uma estrutura que historicamente reservou quase todo o palco aos homens.

Há ainda uma ironia muito boa nessa relação com A Chorus Line. No musical, existem candidatos demais para poucas vagas. No Richmond, o problema é quase inverso: há tão poucas jogadoras com experiência e preparação suficientes que Ted e Beard encontram dificuldade para completar o elenco. Não porque mulheres não tenham talento ou interesse pelo esporte, evidentemente, mas porque durante décadas houve menos times, menos categorias de base, menos investimento, menos oportunidades profissionais e, portanto, muito menos caminhos para que esse talento pudesse ser desenvolvido.

Alice entende isso de forma mais pragmática do que Ted e funciona como um necessário contraponto ao método que sempre foi o coração da série. Quando ele tenta apostar na personalidade, no potencial e naquela velha intuição de que uma pessoa pode se transformar se alguém acreditar nela, Alice o lembra de que futebol feminino não pode ser tratado como caridade. As mulheres não precisam que homens bondosos lhes ofereçam uma oportunidade por generosidade. Precisam ser consideradas atletas profissionais e avaliadas como tais. Igualdade não significa reduzir a exigência, mas criar condições minimamente equivalentes para que essa exigência possa existir.

E então chega Susan Boyle, talvez a referência musical mais precisa de todo o episódio. Para quem não se lembra do tamanho daquele fenômeno, vale contextualizar. Em 2009, Susan Boyle tinha 47 anos quando entrou no palco do Britain’s Got Talent. Escocesa, desconhecida, com aparência simples e um jeito tímido que fugia completamente do padrão visual associado às estrelas de televisão, ela foi recebida com um ceticismo quase constrangedor. Antes mesmo de cantar, a plateia e os jurados pareciam já ter decidido quem aquela mulher era e, sobretudo, quem ela jamais poderia ser.

Então Susan Boyle começou a cantar I Dreamed a Dream, de Les Misérables, e em poucos segundos aquela percepção desmoronou. A apresentação se transformou em um fenômeno mundial porque registrava algo ao mesmo tempo emocionante e desconfortável: milhares de pessoas testemunharam uma mulher ser julgada antes de abrir a boca e depois viram esse julgamento ruir diante de um talento que sempre estivera ali. Quando Ted volta àquela audição no episódio, a ligação com as Lady Greyhounds é inevitável. Investidores, patrocinadores e até pessoas que desejam ajudá-las já construíram uma opinião antes de vê-las jogar. Elas também precisam atravessar primeiro o julgamento para só então ganhar o direito de mostrar aquilo de que são capazes.

Mas a escolha de I Dreamed a Dream é ainda mais rica porque Ted Lasso não trabalha apenas com a história de Susan Boyle. Trabalha também com Fantine e com o sentido original da música em Les Misérables. Essa não é, afinal, uma canção otimista sobre perseguir sonhos e acreditar que tudo dará certo. Fantine canta depois de perceber brutalmente o que a realidade fez com tudo aquilo que um dia imaginou para sua vida. Ela se lembra da juventude, da inocência, de quando acreditava no amor e enxergava o futuro com doçura. Depois, olha para o presente e percebe que aquela esperança foi esmagada pela pobreza, pelo abandono e por uma sociedade que a puniu.

É justamente por isso que a referência funciona com tanta precisão. A temporada não está simplesmente dizendo às mulheres que basta sonhar ou acreditar para que o mundo se abra diante delas. Está mostrando o contrário: elas sonham com algo que deveria ser tão elementar quanto jogar futebol em condições semelhantes às dos homens e descobrem que o caminho foi construído para ser mais difícil desde o início. Keeley acredita que pode montar uma equipe, Rebecca acredita que pode financiá-la, Ted acredita que pode treiná-la e as jogadoras acreditam que finalmente podem ocupar aquele gramado, enquanto o mundo ao redor vai lembrando, passo a passo, que transformar esse sonho em realidade custa muito mais quando a estrutura não foi feita para você.

Talvez esteja aí a explicação para a sensação incômoda de que as piadas desta temporada não estão funcionando com a mesma leveza de antes. Não é necessariamente que Ted Lasso tenha esquecido como ser engraçada. O problema é que o drama escolhido agora é tão real que muitas piadas acabam esbarrando em algo que não pode ser resolvido facilmente. Quando Roy erra tentando ajudar, por exemplo, não estamos diante de uma excentricidade divertida, mas de um homem bem-intencionado reproduzindo exatamente o tipo de visão que a temporada quer questionar. Isso torna o episódio menos confortável e, talvez, deliberadamente menos encantador.

Rebecca também vive essa tensão em outro nível. Construir o projeto feminino começa a ocupar cada vez mais espaço em sua vida e interfere na tentativa de manter vivo o relacionamento com Matthijs. Compromissos são adiados, encontros ficam comprometidos e o trabalho volta a engolir partes importantes da vida pessoal de Rebecca, o que se conecta diretamente à forma como ela sempre existiu dentro do Richmond: quando algo importa, ela se entrega por inteiro.

Dito isso, preciso tirar uma coisa do coração porque continuo desconfiando profundamente desse piloto. Desde que Matthijs apareceu na terceira temporada e “ajudou” Rebecca depois que ela caiu no canal em Amsterdã, alguma coisa nele me soa estranha. Nem estou mais falando do antigo desejo de ver Rebecca e Ted juntos, porque para mim esse navio já zarpou. A relação entre os dois continua íntima, bonita e cheia de afeto, mas a química parece ter atravessado sem grande resistência para um território de amizade quase familiar, sem a fricção sexual que sustentaria outro caminho.

Minha implicância com Matthijs é outra. Ele é compreensivo demais, paciente demais e parece sempre chegar exatamente como o homem perfeito que Rebecca supostamente precisava encontrar. Pode ser apenas isso, claro: a série pode estar mostrando que ela finalmente está emocionalmente preparada para um relacionamento saudável e adulto, sem jogos de poder ou sofrimento. Ainda assim, em uma série que passou anos nos ensinando a desconfiar do que existe por trás das aparências, continuo achando esse homem perfeito demais para não levantar uma sobrancelha. Posso estar completamente errada, mas, por enquanto, sigo achando esse piloto estranhíssimo.

O mais interessante, porém, é que o terceiro episódio finalmente deixa mais claro qual pode ser o grande adversário desta temporada. Ted conseguiu transformar um vestiário masculino porque, apesar de todas as dificuldades, aquele vestiário já tinha permissão para existir. As Lady Greyhounds precisam conquistar essa permissão todos os dias. Não basta que elas acreditem em si mesmas. É necessário convencer acionistas, encontrar patrocinadores, conseguir uniformes, formar um elenco, atrair público, ganhar partidas e seguir provando seu valor sabendo que qualquer derrota poderá ser interpretada não apenas como uma derrota, mas como evidência de que talvez o projeto inteiro nunca devesse ter existido.

É por isso que I Hope I Get It e I Dreamed a Dream formam uma espécie de estrutura musical para o episódio. A primeira fala de pessoas implorando pela oportunidade de ocupar um espaço pequeno no palco, mesmo que seja apenas no fundo dele. A segunda fala do momento em que um sonho aparentemente simples encontra uma realidade capaz de esmagá-lo. Entre as duas estão as mulheres do Richmond, tentando entrar em um jogo que sempre deveria ter sido também delas.

Talvez, então, a antiga magia de Ted Lasso não tenha desaparecido. O que mudou é que, desta vez, a série escolheu perguntar se acreditar ainda é suficiente quando todo o sistema ao redor foi construído para que algumas pessoas tenham muito mais dificuldade de transformar essa crença em realidade.


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