Gramado marca a estreia de Carine Pagliarini no cinema

Como publicado em CLAUDIA

Chorão cantou sobre amor, abandono, desejo, inadequação e relações afetivas como poucos artistas de sua geração. Talvez por isso seja impossível separar completamente a figura pública, explosiva e rebelde, do homem vulnerável e contraditório que existia por trás dela. É justamente nesse espaço que surge Paloma, personagem da atriz Carine Pagliarini no filme biográfico Chorão: Só os Loucos Sabem.

Paloma não existiu na vida real do vocalista do Charlie Brown Jr. E essa informação é importante. Em uma cinebiografia cercada por personagens reais e por uma memória afetiva ainda muito presente para o público brasileiro, ela foi criada como recurso narrativo para acessar aspectos emocionais da trajetória do cantor sem reivindicar para si o lugar de uma personagem histórica.

“Ela entra em um momento de vulnerabilidade do Chorão. Mesmo sendo uma personagem ficcional, não está ali para mudar a história, mas para ajudar a contar um capítulo importante dela”, explica Carine à CLAUDIA. “Ela acaba refletindo conflitos, dúvidas e escolhas que fazem parte da vida de qualquer pessoa.”

A atriz entende Paloma principalmente como uma maneira de revelar o homem que existia além do personagem público. “Ninguém é feito apenas de acertos ou erros. Somos todos atravessados por emoções, dúvidas e decisões que, muitas vezes, também nos transformam. E a Paloma acaba fazendo parte desse lado mais íntimo da história.”

Uma mulher ficcional cercada por mulheres reais

Há uma delicadeza adicional nessa construção porque a história de Chorão é também profundamente atravessada pelas mulheres que estiveram ao seu lado, especialmente Graziela Gonçalves, sua companheira durante décadas e uma das principais responsáveis pela preservação de sua memória.

Paloma, portanto, não poderia simplesmente ocupar um espaço que pertenceu a alguém na vida real. Para Carine, o desafio estava em fazê-la parecer verdadeira dentro daquele universo sem apagar a fronteira entre ficção e realidade.

“A preocupação nunca foi fazer o público acreditar que ela realmente existiu, mas fazer com que sua presença fizesse sentido dentro da narrativa”, diz. “Ela está ali para ajudar a contar uma parte da vida do Chorão, sempre respeitando a essência da história e das pessoas que realmente fizeram parte dela.”

Há ainda algo especialmente interessante em observar um homem tão associado à rebeldia, ao rock e a uma certa imagem de masculinidade a partir das relações que estabeleceu com mulheres.

“A Paloma faz parte desse olhar mais íntimo porque ajuda a revelar que, por trás daquela figura intensa, também existia alguém vulnerável, contraditório e movido pelos próprios sentimentos”, afirma Carine. “Acho interessante que o filme apresente diferentes perspectivas femininas sobre ele. Cada relação revela uma parte desse homem que existia por trás do artista.”

É um recorte que conversa diretamente com as próprias músicas de Chorão. Por trás da agressividade, da irreverência e da persona construída nos palcos, suas letras frequentemente voltavam à necessidade de amar e ser amado, às perdas, ao ciúme, à solidão e à dificuldade de lidar com as próprias emoções.

Para Carine, Paloma ajuda o filme a entrar justamente nesse território. “Ela participa de um período em que algumas escolhas acabam trazendo consequências. Acho que uma das riquezas do filme está em mostrar que, por mais intensa que seja uma pessoa, ela também precisa lidar com aquilo que sente, com as escolhas que faz e com as consequências delas.”

Quando José Loreto virou Chorão

Do outro lado das cenas estava José Loreto, diante de uma tarefa particularmente ingrata para qualquer ator: interpretar alguém cuja voz, gestos, energia e personalidade continuam muito vivos na lembrança de milhões de pessoas.

Carine conta que a transformação ultrapassava a caracterização.

“O José mergulhou profundamente no personagem e isso ficava evidente em cena. Em muitos momentos, era fácil esquecer que eu estava contracenando com ele e enxergar o Chorão ali”, lembra.

Para ela, essa entrega também interferiu diretamente em sua própria interpretação. “Quando o outro ator está completamente entregue ao personagem, tudo acontece de forma mais natural. Acho que isso contribuiu muito para a verdade das cenas.”

Do teatro para a intimidade da câmera

Paloma também representa uma mudança importante na trajetória da própria Carine. Depois de anos de experiência no teatro, a atriz vive com o filme, seu primeiro longa-metragem com lançamento comercial, e descobriu diante da câmera uma linguagem que exige quase o contrário da projeção necessária no palco.

“Hoje confio muito mais no meu processo”, diz. “O teatro me deu uma base muito sólida, mas o cinema me fez perceber ainda mais a força que existe na sutileza. Na câmera, um olhar, uma pausa ou até um silêncio podem dizer muito.”

Ela, no entanto, não enxerga as duas experiências como opostas. “No fim, foi o teatro que me trouxe até aqui e me deu as ferramentas para viver a Paloma de uma forma muito verdadeira.”

Antes mesmo de chegar ao circuito comercial, Chorão: Só os Loucos Sabem passa pelo Festival de Gramado, e a coincidência tem um significado afetivo especial para Carine. Sua família mora perto da cidade e ela se lembra de passar pelo local do festival imaginando como seria estar ali, um dia, apresentando o próprio trabalho.

“Ter meu primeiro longa com lançamento comercial chegando aos cinemas já seria muito marcante por si só. E viver isso dentro do Festival de Gramado tem um significado ainda maior para mim”, conta. “Muitas vezes passei por ali, em frente ao festival, imaginando como seria um dia estar naquele lugar divulgando um trabalho meu.” Agora estará.

E talvez seja particularmente simbólico começar justamente com um filme sobre um artista cuja obra sempre teve muito a dizer sobre sonhos, afetos, erros e sobre a dificuldade de encontrar um lugar no mundo.

“Minha expectativa é que o público se conecte com a história da mesma forma que nós nos conectamos durante as filmagens”, diz Carine. “É uma história muito profunda, que fala de amor, relações, escolhas e também de uma pessoa que deixou uma marca muito forte na música brasileira.”

Paloma pode nunca ter existido. Os sentimentos que ela ajuda a revelar, porém, são bastante reais.


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