Dark Matter volta e transforma Jason no inimigo de si mesmo

É recomendável — quase obrigatório — rever a primeira temporada de Dark Matter antes de começar a segunda. Ou, pelo menos, ter um ótimo recap ao alcance das mãos. Não apenas porque se passaram mais de dois anos desde que Jason Dessen entrou na Caixa com Daniela e Charlie, mas porque a série voltou ainda mais complexa, angustiante e interessada na pergunta que deixou no ar: entre tantos Jasons, por que aquele foi escolhido?

“A Quiet Life”, primeiro episódio da segunda temporada, começa justamente enfrentando as consequências que Jason, Daniela e Charlie deixaram para trás. A família escapou, mas todos os outros Jasons continuaram existindo. Alguns estão mortos, outros foram presos e pelo menos um deles está explicando a um agente federal que não são clones. São versões do mesmo homem, criadas pelas inúmeras escolhas que ele fez dentro da Caixa.

E aqui está a primeira informação que precisamos recuperar: há uma diferença entre Jason 2 e os outros Jasons.

Quem é o Jason que Daniela escolheu?

Jason 2 é o cientista que, 15 anos antes, escolheu a carreira em vez de Daniela. Ele criou a Caixa, atravessou o multiverso, encontrou a realidade em que seu outro eu havia escolhido o amor e a família, sequestrou esse Jason e tentou tomar seu lugar.

O Jason que acompanhamos desde o início — vamos continuar chamando de Jason 1 — foi o homem que escolheu Daniela, tornou-se professor e teve dois filhos com ela: Charlie e Max, que morreu ainda criança.

Ao tentar voltar para casa, porém, cada decisão tomada por Jason 1 dentro da Caixa criou outra bifurcação. Portanto, os inúmeros Jasons que chegaram à mesma Chicago no fim da primeira temporada não eram impostores como Jason 2. Todos tinham sido, em algum momento, o marido de Daniela. Todos guardavam as mesmas lembranças, amavam a mesma mulher e procuravam o mesmo filho. Apenas haviam tomado decisões diferentes durante a viagem de volta.

É por isso que não existe uma prova científica de que o Jason escolhido por Daniela seja “mais original” do que os outros. Ele é o nosso Jason porque foi aquele que acompanhamos. E tornou-se o Jason de Daniela porque ela o escolheu.

Essa distinção é essencial. Daniela não descobriu uma marca secreta que comprovasse sua autenticidade. Ela escolheu o homem que conseguiu encontrá-la, convencê-la da verdade e, sobretudo, reconhecer que a decisão pertencia a ela. Ao avisar aos outros Jasons que havia feito sua escolha, Daniela transformou uma discussão sobre identidade em uma decisão afetiva. Em meio a infinitas versões do marido, aquele passou a ser o seu Jason.

Mas ser escolhido não eliminou os demais.

Sete meses de uma vida que nunca foi tranquila

Sete meses depois da fuga, Jason, Daniela e Charlie estão instalados numa região rural, aparentemente distante de Chicago e da Caixa. Jason e Daniela têm empregos modestos, Charlie voltou à escola e fez amigos. Por alguns instantes, Dark Matter parece finalmente oferecer à família a vida simples que tanto procurou.

Só parece.

Há armas escondidas pela casa, malas prontas para uma fuga e uma palavra de segurança diferente a cada dia. Os três vivem como fugitivos porque sabem que outro Jason pode encontrá-los a qualquer momento.

É exatamente o que acontece quando Daniela está sozinha em casa. Um novo Jason aparece e tenta convencê-la de que também merece aquela vida. Para ele, as lembranças compartilhadas e o amor que sente deveriam ser suficientes para que Daniela o aceitasse.

Mas Daniela já fez sua escolha.

Quando ela se recusa a abandonar “seu” Jason, a conversa se torna violenta e Daniela mata o invasor. Pouco depois, Jason chega e encontra o próprio cadáver dentro de casa. Daniela olha para o rosto do marido, mas já sabe que um rosto não prova nada. Antes de acreditar que é ele, exige a palavra de segurança.

É uma cena pequena e devastadora. Daniela ama Jason, mas não pode mais confiar no rosto dele. Jennifer Connelly traduz perfeitamente essa angústia: ela está diante do marido e, ao mesmo tempo, diante de um estranho em potencial.

A temporada começa, portanto, invertendo o desejo da primeira. Antes, Jason queria desesperadamente voltar para casa. Agora, mesmo ao lado da família, nunca poderá ter certeza de que chegou.

Charlie não quer continuar fugindo

Jason tenta queimar o corpo do outro Jason enquanto Daniela limpa o sangue, revelando que os dois já não reagem como uma família comum. São sobreviventes executando um protocolo.

Mas um policial chega investigando um carro roubado abandonado nas proximidades. Dentro dele havia anotações com o endereço da família. O policial percebe o nervosismo de Jason, encontra o corpo e pede reforços. Jason e Daniela conseguem dominá-lo, pegam as malas de emergência e tiram Charlie da escola.

Para os pais, fugir significa sobreviver. Para Charlie, significa perder mais uma vida.

Esse é um dos conflitos mais importantes da temporada. Jason vive obcecado em proteger a família e Daniela teme qualquer rosto familiar que apareça sem aviso. Charlie, porém, está pagando pelas decisões dos dois. Ele perdeu a própria realidade, os amigos e qualquer possibilidade de construir uma identidade que não esteja ligada à fuga do pai.

De volta à Caixa, a raiva de Charlie passa a controlar o destino da família. Como aprendemos na primeira temporada, a Caixa não funciona como um elevador em que basta apertar o botão do universo desejado. Ela responde ao inconsciente, aos desejos e, principalmente, ao estado emocional de quem está dentro dela.

Furioso, Charlie imagina um mundo dominado por tempestades e tornados. Jason e Daniela atravessam a porta sem perceber o que o filho fez, e Charlie tenta fechá-la, deixando os pais do lado de fora. Eles conseguem voltar, mas algo fundamental já se rompeu.

A primeira temporada era conduzida pelo desejo de Jason de encontrar Daniela e Charlie. Agora são três desejos diferentes disputando o controle da mesma Caixa.

Jason quer destruir a Caixa

A família chega a uma realidade tecnologicamente avançada, mas descobre que a vigilância é praticamente absoluta. Seria um mundo confortável, porém impossível para três pessoas que precisam permanecer invisíveis.

É quando Jason decide que não quer mais encontrar a realidade perfeita. Quer destruir a Caixa.

A mudança faz sentido. Antes, a Caixa era o único caminho de volta para casa. Agora, é justamente o que impede que qualquer lugar se torne uma casa. Enquanto ela existir, outra porta poderá ser aberta, outro Jason poderá aparecer e outra versão da família poderá reivindicar o que ele acredita ter conquistado.

O título “A Quiet Life” é, evidentemente, uma ironia. Jason escolheu a vida tranquila quando ficou com Daniela, mas sua versão cientista transformou essa decisão numa impossibilidade. E a temporada já avisa que não haverá sossego: o décimo e último episódio se chama “No Quiet Life”. A segunda temporada terá dez capítulos semanais, exibidos até 30 de outubro. A Apple TV confirmou também que Blake Crouch planejou um arco de três temporadas, embora a terceira ainda dependa de renovação.

Onde estão Amanda e Ryan?

Em uma das portas, Jason reconhece a realidade progressista e aparentemente utópica onde deixou Amanda no fim da primeira temporada. Ele imediatamente diz que não podem ficar ali e fecha a porta.

Não é apenas uma preocupação prática. Amanda foi sua companheira durante toda a travessia, a pessoa que o ajudou a compreender o funcionamento emocional da Caixa e a mulher com quem Jason estabeleceu uma intimidade profunda. Voltar àquele mundo significaria apresentar Amanda a Daniela — e enfrentar tudo o que ficou emocionalmente suspenso entre eles.

Amanda, porém, não está mais sozinha. Ryan conseguiu encontrá-la.

Este Ryan é o cientista e amigo de Jason 1 que Jason 2 abandonou naquela realidade para impedir que revelasse a verdade. Ele encontrou Camilla, sua irmã, mas descobriu que o Ryan daquele universo havia morrido. Ao contar a verdade, foi aceito por ela e passou a ocupar o lugar deixado por sua própria variante.

É a mesma ferida da família Dessen sob outro ângulo: Ryan recuperou uma irmã que não é exatamente a sua, enquanto Camilla recuperou um irmão que morreu e, ao mesmo tempo, não morreu.

Ryan também conseguiu recriar a droga necessária para atravessar a Caixa. Na realidade original, o composto era conhecido como Lavender Fairy; sua nova fórmula foi batizada de Lilac Wings. Amanda e Ryan têm o medicamento, o conhecimento e uma razão para viajar. O problema é que a Caixa foi retirada de sua localização original e transformada em uma espécie de instalação artística corporativa no Millennium Park. Segundo eles, ao ser deslocada, pode ter sido desconectada do corredor multiversal.

Eles encontraram um ao outro, mas talvez tenham perdido a porta.

Qual Leighton estamos vendo?

A trama de Leighton é ainda mais complicada porque o episódio mostra mais de uma versão dele.

Leighton era o milionário que financiava a Velocity no mundo de Jason 2. Também vimos o Leighton da realidade de Jason 1 pagar uma fortuna pelas ampolas e entrar na Caixa em busca de novas possibilidades.

Agora surgem versões de Leighton que escolheram caminhos espirituais. Uma delas conduz sessões de meditação num estúdio luxuoso; outra faz algo semelhante num espaço bem mais simples. Até que o Leighton, vindo da realidade de Jason 2, procura uma dessas variantes.

Ele foi transformado pelo que encontrou na Caixa. Leighton sempre acreditou que dinheiro, poder e tecnologia seriam suficientes para controlar qualquer coisa. Descobriu que, no multiverso, o maior perigo é a própria mente. Por isso, procura um homem que é ele mesmo, mas que aprendeu a silenciar seus desejos e medos.

É a síntese perfeita da nova temporada. Jason quer destruir a Caixa. Ryan quer fazê-la funcionar novamente. Amanda precisa decidir se quer voltar. Leighton pretende dominar a própria mente para controlar os mundos. Daniela quer proteger a escolha que fez. Charlie quer parar de perder tudo por causa das escolhas do pai.

Dark Matter voltou menos interessada em perguntar qual realidade é verdadeira do que em investigar o que ainda torna alguém único quando todas as possibilidades existem. A âncora não é genética, memória ou física quântica. É a escolha — e Daniela escolheu Jason.

O problema é que todos os outros Jasons ainda se lembram de quando ela também os escolheu.


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