Praise Sol.
Para quem, como eu, jamais aceitou o cancelamento de Raised by Wolves, quatro anos depois, finalmente temos a confirmação de que torna tudo ainda mais irritante: a terceira temporada não era apenas uma possibilidade distante. Eles estavam prontos para fazê-la.

David W. Zucker, produtor executivo da série e Chief Creative Officer da Scott Free Productions, revelou que a equipe estava “ready to do” os novos episódios quando a fusão entre WarnerMedia e Discovery mudou tudo. Com a chegada de David Zaslav ao comando da nova Warner Bros. Discovery, segundo Zucker, a terceira temporada foi simplesmente deixada de lado pela HBO Max.
E isso confirma, com todas as letras, algo que os fãs suspeitavam desde 2022. Raised by Wolves não terminou porque Aaron Guzikowski havia ficado sem história, porque a produção não sabia como seguir ou porque aquele universo chegara naturalmente ao fim. A série foi atingida por uma decisão corporativa no meio de uma enorme reorganização da Warner.
Em dezembro de 2025, quando escrevi sobre Raised by Wolves, parti justamente da ideia de que ela representava o tipo de risco que a HBO um dia esteve disposta a correr e que hoje sentimos falta. Era cara, estranha, filosófica, desconfortável e absolutamente desinteressada em facilitar a vida do espectador. Não parecia ter sido concebida a partir de algoritmo, grupo de pesquisa ou possibilidade de viralização. Parecia ter sido criada porque alguém acreditava que a televisão também podia ser aquilo. Agora descobrimos que a história quase continuou.

Aaron Guzikowski sempre deixou claro que imaginava Raised by Wolves como uma narrativa de aproximadamente cinco temporadas. Portanto, quando a segunda terminou em 2022, não estávamos chegando a uma conclusão: estávamos provavelmente ainda antes da metade da história. E que ponto para parar.
Mother (Amanda Collin) estava dominada por Grandmother, cujo projeto para garantir a sobrevivência da humanidade parecia cada vez mais aterrador. Father (Abubakar Salim) seguia descobrindo que os limites entre tecnologia, memória e vida em Kepler-22b eram muito menos claros do que imaginávamos. Marcus (Travis Fimmel) terminava literalmente suspenso no ar, transformado em algo que parecia finalmente aproximar Sol daquela misteriosa entidade que vinha manipulando humanos e androides. Ainda tínhamos Sue, a árvore, a serpente, as criaturas humanoides, os templos, as cartas Mithraicas e, acima de tudo, a questão que atravessava a série inteira: o que era Sol?
Religião? Tecnologia? Uma inteligência ancestral? Algo verdadeiramente divino? Raised by Wolves jamais teve pressa em responder porque sua força estava justamente em destruir, episódio após episódio, qualquer segurança de que fé e razão fossem polos realmente opostos. Os segredos de Kepler-22b desafiavam simultaneamente as explicações religiosas e científicas, e muitos deles ficaram abertos quando a série foi abruptamente interrompida.

Mother continua sendo, para mim, uma das grandes criações recentes da ficção científica. Uma androide concebida como arma de destruição em massa que aprende a ser mãe; uma máquina programada para matar que desenvolve afeto, culpa, medo, ciúme e uma necessidade feroz de proteger os filhos enquanto os humanos continuam se destruindo em nome das próprias certezas.
Quem é mais humano? É uma pergunta profundamente ligada ao universo de Ridley Scott, de Blade Runner a Alien e Prometheus, mas Raised by Wolves acrescentava outra provocação fascinante: e se fé também puder ser programação? E se aquilo que interpretamos como divino for apenas uma tecnologia avançada demais para compreendermos? Ou, mais perturbador ainda, e se não for? Talvez por isso a série fosse tão difícil de explicar e tão fácil de amar para quem entrou em sua lógica.
A novidade das últimas semanas fez a esperança crescer um pouco porque Raised by Wolves voltou a aparecer na Apple TV Store em alguns mercados e entrou em rankings de vendas. Algumas manchetes deram a entender que a Apple havia “trazido a série de volta à vida”, mas é importante não misturar as coisas: a Apple TV não resgatou Raised by Wolves, não encomendou uma terceira temporada e não existe até agora anúncio de uma negociação para retomá-la.
O mais interessante é a coincidência. Quatro anos depois do cancelamento, a série volta a circular justamente quando Zucker revela que a Scott Free também nunca a esqueceu. Ele não apenas explicou que a terceira temporada estava pronta para seguir adiante antes da fusão, como disse que pessoalmente ainda gostaria de trazer Raised by Wolves de volta. Lembrou, inclusive, que houve um tempo em que jamais imaginaria a Scott Free fazendo séries de Alien ou Blade Runner e que, por isso, continua esperando que esta também possa “have another day”. É uma esperança bonita. Realista? Bem menos.
Quatro anos se passaram. As crianças que formavam a geração criada por Mother e Father cresceram e várias já são adultas. Uma passagem de tempo seria, obviamente, a solução narrativa mais simples e nem seria difícil justificá-la dentro de uma série obcecada por evolução, ciclos e transformação. O problema maior seria reunir novamente um elenco que seguiu em frente.
Amanda Collin e Abubakar Salim, nossos Mother e Father, hoje estão em House of the Dragon. Collin interpreta Lady Jeyne Arryn, a Senhora do Ninho da Águia e líder da Casa Arryn. Salim é Alyn of Hull, o marinheiro que salvou Corlys Velaryon e cuja importância para a história dos Velaryon cresceu radicalmente.


Travis Fimmel, por sua vez, continua orbitando outra grande franquia da HBO. Em Dune: Prophecy, ele interpreta Desmond Hart, personagem central da trama, e retorna na segunda temporada, prevista ainda para este ano. Se a série sobreviver às novas transformações corporativas envolvendo a Warner, há espaço evidente para que continue por mais temporadas. A ironia é deliciosa e cruel: Mother, Father e Marcus continuam ligados ao mesmo ecossistema que deixou Raised by Wolves morrer.
E esse ecossistema está, novamente, em transformação. Portanto, ressuscitar hoje uma série cara, visualmente ambiciosa e interrompida há quatro anos significaria muito mais do que simplesmente retomar aquela terceira temporada que estava pronta em 2022. Seria necessário reorganizar agendas, reconstruir uma produção, resolver direitos e provavelmente adaptar parte da história à inevitável passagem do tempo. Não é impossível. Mas seria uma ressurreição, não uma simples continuação. Por isso, a declaração de Zucker deve ser entendida exatamente pelo que é: esperança, não plano.
Ainda assim, existe algo que não tínhamos até agora. Sabemos que Raised by Wolves não foi esquecida por quem a produziu. Sabemos que a terceira temporada quase aconteceu. E sabemos que o cancelamento não foi consequência natural de uma história que havia chegado ao fim.
Talvez um dia seja uma nova temporada. Talvez uma minissérie. Um filme. Até uma graphic novel que finalmente revele o plano de Guzikowski seria melhor do que permanecer eternamente olhando para Marcus flutuando sem saber o que Sol queria dizer.
Aaron Guzikowski planejou cinco temporadas. Nós recebemos duas. Ainda nos devem três.
Praise Sol.
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