Durante três temporadas, fizemos tudo o que uma série espera que o público faça diante de dois personagens solteiros, emocionalmente disponíveis e com uma química espetacular: torcemos para que Ted e Rebecca ficassem juntos. Reunimos pistas, interpretamos silêncios, analisamos encontros e acompanhamos de longe uma relação que parecia caminhar lentamente rumo ao romance.
Ted e Rebecca eram amigos, mas também muito mais do que isso. Ela sabia sobre suas crises de pânico. Ele a ajudou a atravessar a separação, o luto pelo pai e, sobretudo, a recuperar a autoestima destruída por Rupert. Como esquecer, aliás, uma das melhores cenas de todas as temporadas? No pub, Ted aceita jogar dardos contra Rupert e coloca o ex-marido de Rebecca em seu devido lugar sem precisar levantar a voz. Enquanto acerta cada lançamento, explica que as pessoas sempre o subestimaram porque preferiram julgá-lo em vez de serem curiosas. “Be curious, not judgmental.” Ted não estava apenas vencendo uma aposta. Estava defendendo Rebecca do homem que passara anos convencendo-a de que ela era menor do que realmente era. Era impossível assistir àquela cena sem imaginar que a série estava construindo uma grande história de amor.
Jason Sudeikis, porém, recusou a fórmula tradicional. Ted e Rebecca permaneceram amigos. Almas gêmeas, como Hannah Waddingham já as definiu, não são necessariamente um casal. E sabe de uma coisa? Talvez ele sempre tenha tido razão.

Roy e Keeley mostram o que poderia ter acontecido
Se Ted e Rebecca tivessem começado um relacionamento em algum momento das três primeiras temporadas, dificilmente a série permitiria que fossem simplesmente felizes. Dramaturgia precisa de conflito. Logo surgiriam os afastamentos, as dúvidas, uma terceira pessoa e o inevitável “vão ficar juntos ou não vão?”.
É exatamente o que estamos revendo com Roy e Keeley. Os dois também nasceram da improbabilidade. Keeley parecia ser apenas a namorada de Jamie Tartt, enquanto Roy era o jogador veterano, carrancudo e emocionalmente inacessível. Aos poucos, formaram um dos casais mais bonitos da série. Ela enxergava a vulnerabilidade escondida sob a raiva dele. Roy respeitava a ambição e a inteligência de Keeley. Funcionavam porque eram diferentes, mas nunca tentavam diminuir um ao outro. Até que a série decidiu separá-los.
Keeley escolheu a própria carreira, envolveu-se com Jack, ficou novamente cercada pela possibilidade de Jamie e terminou a terceira temporada recusando-se a ser o prêmio disputado por dois homens. Naquele momento, escolher a si mesma fazia sentido. O problema é o que aconteceu depois.


Na quarta temporada, reencontramos uma Keeley que parece ter regredido. Sua carreira continua existindo, mas ela voltou a ser apresentada como excessivamente ingênua, uma espécie de Elle Woods britânica, convencida de que algumas ações de marketing seriam suficientes para reverter décadas de desigualdade e transformar imediatamente o futebol feminino em sucesso.
Mais incompreensível ainda foi a prova criada para Roy. Quando ele pede outra oportunidade, Keeley afirma que não quer ser colocada num pedestal. Para ter certeza de que realmente deseja voltar, Roy precisa sair com dez mulheres. A ideia já nasce artificial porque nenhum dos dois parece ter uma dúvida verdadeira sobre o que sente. É um obstáculo inventado apenas para adiar aquilo que a série sabe que o público espera. E, como não poderia deixar de acontecer, Roy conhece outra pessoa.
Os últimos cinco encontros foram com a mesma mulher, provavelmente a médica Erin Beaumont, alguém firme, adulta e aparentemente pouco interessada em jogos emocionais. Agora temos um triângulo amoroso. Keeley sofre porque Roy pode seguir em frente, e nós ficamos nos perguntando: por quê?
Por que ela pediu que ele fizesse isso? Por que devemos torcer para que Roy abandone uma relação potencialmente saudável apenas para voltar a alguém que decidiu testá-lo? E por que ainda precisamos passar outra vez pelo suspense de saber se os dois terminarão juntos, quando a série já havia construído uma resposta três temporadas atrás?
Roy provavelmente voltará para Keeley. Se esta série não se chamasse Ted Lasso, talvez não voltasse. Mas transformar a reconciliação em destino não torna necessariamente o caminho até ela melhor.

Rebecca também encontrou um amor improvável
A série ofereceu a Rebecca outra história deliberadamente fantasiosa. Em Amsterdã, ela caiu de uma ponte, entrou na casa de um desconhecido e viveu uma noite de intimidade com o misterioso holandês sem sequer saber seu nome. Tempos depois, os dois esbarraram novamente em um aeroporto e começaram um romance. Mathijs era a fantasia perfeita porque existia longe.
Durante anos, eles mantiveram uma relação à distância que funcionava muito bem, obrigada. Havia encontros especiais, despedidas programadas e nenhum cotidiano capaz de destruir a idealização. Quando ele anuncia que se mudará para Londres, Rebecca entra em pânico.
É fácil compreender o medo de compromisso depois de tudo o que Rupert fez com ela. Há ainda outra questão sobre a qual a série passa rapidamente: Rebecca é milionária, poderosa e dona de um clube de futebol. Mathijs é piloto. Isso não significa que ele esteja interessado em seu dinheiro, mas explica por que ela pode desconfiar de alguém que chega repentinamente, acompanhado da filha, pronto para entrar em sua vida.
A contradição é que Rebecca desejava proximidade, mas se sentia protegida pela distância. Assim que Mathijs se torna uma presença real, com uma filha, uma ex-mulher e problemas concretos, o romance deixa de ser uma fantasia. A separação, por enquanto, parece confirmar seus piores temores.

A química de Ted e Rebecca passou?
Rebecca está novamente solteira. Ted também. Ainda assim, não existe mais nenhuma indicação de que a série pretenda transformá-los em “Tedbecca”. A química romântica, se algum dia esteve realmente nos planos, foi convertida em algo talvez mais raro: uma amizade profunda entre um homem e uma mulher que não precisa terminar na cama para provar sua importância.
Ted e Rebecca foram anjos protetores um do outro. Ele entrou na vida dela quando Rebecca estava usando Richmond para se vingar de Rupert e mostrou que ela ainda podia construir algo em vez de apenas destruir. Rebecca lhe ofereceu trabalho, pertencimento e uma família quando Ted estava despedaçado pelo fim do casamento e pelas crises de pânico.
Isso não é menor do que uma história de amor. Talvez seja uma forma de amor mais difícil de preservar na televisão justamente porque não cabe na fórmula romântica tradicional. A quarta temporada parece finalmente aceitar que Ted precisa de uma relação, mas não necessariamente com Rebecca.
Quem é a mulher que Ted encontra no teatro?
Antes de voltar a Richmond, Ted ainda estava emocionalmente preso a Michelle. A amizade entre os dois tinha algo de cruel porque Ted continuava amando uma mulher que o mantinha por perto, mas já havia seguido em frente.
Ele chegou a se envolver com Sassy, a melhor amiga de Rebecca, mas nunca estava verdadeiramente disponível para construir um novo relacionamento. Agora, pela primeira vez, admite que está divorciado, solteiro e pronto para namorar.
As jogadoras funcionam quase como representantes do público feminino. Elas veem a fotografia de Ted comendo um cachorro-quente sozinho, imediatamente se preocupam com sua solidão e começam a investigar sua vida amorosa. Queremos que Ted encontre alguém porque ele passou temporadas inteiras cuidando de todo mundo enquanto evitava olhar para o próprio vazio. É nesse momento que surge o novo meet-cute.
Nos bastidores da peça de Jane, Ted conhece uma diretora de palco interpretada por Charlotte Riley. Ela pede que ele pare de assobiar, explica a superstição do teatro e conversa naturalmente com aquele desconhecido sem demonstrar qualquer conhecimento ou fascínio pelo famoso treinador do Richmond. Ted nem chega a descobrir o nome dela. Mas a cena foi construída para que nós percebêssemos imediatamente o que ele ainda não entendeu: os dois voltarão a se encontrar.
A personagem merece atenção. Charlotte Riley é uma atriz excelente e sua entrada discreta sugere uma mulher que poderá se relacionar com Ted fora da dinâmica de Richmond, sem ser sua chefe, funcionária, paciente emocional ou lembrança do casamento fracassado.
Ted merece uma namorada. Mais do que isso, merece sair do lugar de homem que conserta a vida dos outros enquanto permanece sozinho.

Jason Sudeikis sempre teve razão?
A quarta temporada reforça o domínio que Jason Sudeikis tem sobre a narrativa de Ted Lasso. Não apenas ao preservar Ted e Rebecca, mas ao transformar Alice em uma repetição possível de Nate.
Alice tem talento, mas também inveja, ciúme, ressentimento e problemas pessoais que certamente ainda serão revelados. Quando se sente ignorada pelas jogadoras, utiliza sua autoridade para humilhá-las. Ted reconhece o padrão porque já viu aquilo acontecer. Com Nate, ele demorou demais. Acreditou que afeto, espaço e paciência seriam suficientes, sem perceber que a insegurança havia se transformado em crueldade. Desta vez, não deixa passar. Suspende Alice antes que ela destrua o time ou a si mesma.
Ted aprendeu. Talvez ele também tenha aprendido que amar alguém não significa obrigatoriamente transformar esse amor em romance. Rebecca foi essencial para sua vida. Ele foi essencial para ela. Os dois se conhecem, protegem-se e estarão sempre ligados, mesmo quando estiverem apaixonados por outras pessoas.
Se tivéssemos ficado juntos, poderíamos ter vivido uma grande cena romântica. Também teríamos provavelmente enfrentado separações, ciúmes, triângulos e obstáculos semelhantes aos que agora desgastam Roy e Keeley. Portanto, se não podemos mais ter Tedbecca, resta uma pergunta mais interessante: precisávamos realmente ter tido?
Talvez Jason Sudeikis sempre soubesse que a melhor forma de preservar Ted e Rebecca era não permitir que o romance estragasse uma das histórias de amor mais bonitas da série.
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