Silo: Daniel e Helen ainda podem se reencontrar?

Há uma teoria circulando entre os fãs de Silo que nasce quase inteiramente da esperança: e se não tiverem realmente se passado quase 300 anos? E se a cronologia, assim como as memórias, também estiver sendo manipulada? A possibilidade permitiria aquilo que muita gente agora quer mais do que qualquer outra resposta da série: que Daniel e Helen ainda possam se encontrar. Eu adoraria acreditar nisso. Infelizmente, não acho que seja esse o caminho.

Nos livros de Hugh Howey, o tempo é real. Donald Keene, personagem que a série transformou em Daniel, sobrevive por séculos porque as pessoas responsáveis pelo Silo 1 são acordadas em ciclos, trabalham durante um período e voltam à suspensão. Para ele, o tempo existe de maneira descontínua. Helen, por outro lado, continua vivendo como qualquer ser humano. Ela envelhece, constrói uma nova vida e morre enquanto Donald permanece preso entre despertares. É uma das ideias mais cruéis de Shift: ele não perdeu apenas a mulher que amava, mas uma vida inteira que continuou acontecendo sem ele. A série, porém, conseguiu tornar isso ainda pior.

O que mudou entre Daniel e Helen

Nos livros, Helen acaba seguindo em frente. Casa-se novamente, tem filhos e vive décadas sem Donald. Quando ele finalmente descobre o que aconteceu com ela, a revelação é devastadora não exatamente porque Helen o tenha “substituído”, mas porque ele percebe a dimensão do tempo que lhe foi roubado. Helen viveu. Ele praticamente não.

A adaptação mudou um elemento fundamental dessa história: Helen entra no Silo 18 grávida de Daniel. Não estamos mais falando apenas de um casal separado no instante em que o mundo termina, mas de uma família que já existia e foi deliberadamente destruída antes mesmo que Daniel soubesse plenamente aquilo que poderia ter vivido.

Helen foi levada para um silo ao qual sempre se opôs, separada do homem que amava e carregando a filha dele. Daniel foi enviado para outro lugar. E nós vimos que essa separação não parece ter acontecido por acaso. No momento em que tudo desmorona, Daniel tenta chegar até Helen, corre em sua direção e é impedido. Cada um é encaminhado para um silo diferente de maneira tão precisa que fica difícil acreditar que aqueles que organizaram o projeto não soubessem exatamente o que estavam fazendo. Talvez soubessem até demais.

Por que Daniel e Helen precisavam ser separados?

A terceira temporada passou muito tempo mostrando Daniel como um homem idealista. Ele entra naquele universo político acreditando que ainda é possível fazer a coisa certa, desconfia, questiona e hesita. Helen funciona quase sempre como sua referência moral mais sólida. É ela quem o confronta, quem o obriga a olhar novamente para aquilo que está aceitando e quem representa uma vida fora dos cálculos políticos, científicos e estratégicos que começam a cercá-lo.

Por isso, a separação dos dois pode ter sido muito mais do que uma consequência logística do fim do mundo. Helen talvez fosse exatamente aquilo que precisava ser retirado de Daniel. Sem ela, sem sua vida anterior e, principalmente, sem suas memórias, sobra um homem extremamente inteligente, capaz de compreender o sistema e também, como já vimos no caso de Charlotte, capaz de aceitar decisões moralmente muito questionáveis quando consegue se convencer de que aquilo está sendo feito para proteger alguém.

É nesse ponto que Daniel começa a se aproximar de Troy.

E se disserem a Troy que Helen morreu?

É essa possibilidade que torna a mudança feita pela série especialmente cruel. Daniel está prestes a acordar como Troy, mas ainda não sabemos exatamente o que ele lembrará, o que terá sido apagado ou qual versão de sua própria história lhe será apresentada.

Existe, porém, uma hipótese bastante lógica: dizer a ele que Helen morreu. Nós sabemos que isso não aconteceu naquele momento. Vimos Helen ser levada para o Silo 18 e sabemos também que ela estava grávida. Portanto, enquanto Troy pode acordar acreditando que perdeu tudo, o espectador conhece uma verdade que ele desconhece: Helen sobreviveu e existe uma filha.

A manipulação, então, não precisaria alterar apenas suas lembranças. Poderia criar um luto artificial. Daniel acordaria acreditando que não existe mais nada a procurar, e Troy poderia nascer exatamente desse vazio.

A teoria de que quase nenhum tempo passou

É compreensível, portanto, que tenha surgido a teoria de que os famosos séculos talvez sejam outra mentira. Silo já estabeleceu que memória, informação e percepção podem ser manipuladas. Se alguém consegue apagar quem você foi, por que não poderia convencê-lo de que centenas de anos se passaram?

Dramaticamente, seria uma virada poderosa porque permitiria que Daniel e Helen ainda estivessem vivos ao mesmo tempo. O problema é que isso exigiria que a série desmontasse uma das estruturas mais importantes dos livros. A existência do Silo 1, os ciclos de suspensão e a própria função de Troy dependem justamente da passagem real do tempo. A tragédia de Donald também depende disso: ele atravessa gerações enquanto todos aqueles que conheceu desaparecem.

Por isso, apesar da tentação de acreditar na teoria, ainda acho mais provável que a adaptação preserve a essência dessa ideia. Os séculos passaram. Daniel apenas não os viveu. Helen, sim.

Helen talvez seja a personagem mais trágica dessa história

E talvez seja justamente isso que estejamos ignorando enquanto esperamos desesperadamente por Troy. Daniel perde Helen e depois pode perder até a lembrança de tê-la perdido. Helen não necessariamente recebe esse privilégio.

Ela é levada para o Silo 18 sabendo quem Daniel é, sabendo que está grávida dele e sabendo que foi separada dele no instante em que tudo terminou. Além disso, entra justamente no sistema contra o qual vinha lutando. Se suas memórias não forem igualmente apagadas, Helen terá de fazer aquilo que Daniel não faz: viver o tempo inteiro. Criar a filha, envelhecer, talvez continuar esperando, talvez descobrir em algum momento que não haverá reencontro.

É uma versão particularmente cruel de Romeu e Julieta porque aqui não foi simplesmente o destino que os separou. Alguém tomou essa decisão por eles.

A filha muda tudo

Existe ainda uma consequência que não estava presente nos livros. Se Helen entrou grávida no Silo 18 e teve uma menina, então existe naquele silo uma linhagem genética de Daniel e Helen.

Não sabemos ainda quem descende dessa criança e, até aqui, não há razão suficientemente forte para concluir que seja Juliette. Pelo contrário: tudo o que a série estabeleceu sobre sua família torna essa hipótese menos óbvia do que alguns fãs gostariam. Mas alguém descende daquela menina.

Isso significa que, enquanto Troy atravessa os séculos acreditando talvez ter perdido tudo, parte de Daniel continua literalmente vivendo dentro do Silo 18. A série criou, portanto, uma conexão entre passado e presente que Shift não possuía dessa maneira. E não parece uma alteração pequena ou acidental.

Hugh Howey já deixou claro que recebeu muito bem as mudanças feitas pela adaptação, algo especialmente interessante em uma época em que acompanhamos tantos autores discutindo publicamente aquilo que Hollywood fez com suas obras. Aqui, o autor parece entender que adaptar também significa encontrar outras maneiras de chegar ao mesmo coração emocional da história.

No caso de Daniel e Helen, a série talvez tenha encontrado uma maneira ainda mais dolorosa. Porque, se os livros contam a história de um homem que descobre que a mulher que amava viveu sem ele, Silo agora pode estar contando algo ainda pior: a história de duas pessoas que continuaram existindo, separadas por um sistema que precisava desesperadamente que nunca mais se encontrassem.

E, quando Troy abrir os olhos, talvez finalmente descubramos por quê.


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