Ted Lasso e Chad Powers: quando ressentimento vira crueldade

É difícil assistir a Chad Powers sem pensar em Ted Lasso. As duas séries usam o futebol para falar de fracasso, reconstrução, pertencimento e segundas chances, mas, quanto mais Chad Powers avança, mais evidente fica uma diferença importante. Onde Ted Lasso costuma procurar a humanidade escondida atrás do ressentimento, Chad Powers parece interessado em descobrir até onde esse ressentimento pode deformar alguém.

Gerry imediatamente lembra Nate. Os dois sentem que o protagonista ocupa um espaço que deveria ser deles, os dois transformam reconhecimento profissional em questão pessoal e os dois permitem que inveja e ressentimento contaminem suas relações. A comparação, porém, ganha outra dimensão quando acrescentamos Alice Chilton. Porque Nate, Gerry e Alice têm algo fundamental em comum: nenhum deles está ressentido completamente sem motivo. A questão passa a ser o que cada um faz com a injustiça que sofreu e, talvez ainda mais interessante, como as séries respondem quando essa frustração começa a machucar outras pessoas.

Gerry tem razão. E isso não faz dele uma boa pessoa

Gerry é talvez o caso mais desconfortável justamente porque existe uma verdade objetiva por trás de sua paranoia. Ele foi vítima de um golpe. Danny Cruz deliberadamente o derrubou e o machucou para tirá-lo do jogo e abrir espaço para Chad. Chad Powers, por sua vez, é uma fraude: Russ Holliday usando uma máscara e uma identidade inventada para conseguir a segunda chance que jamais receberia sendo ele mesmo. Portanto, Gerry não está imaginando uma conspiração. A conspiração realmente aconteceu.

Ele perdeu seu lugar para alguém que não existe. Além disso, Gerry nunca foi particularmente popular. Chad chega e consegue quase imediatamente aquilo que ele não possui: carisma, admiração, atenção e pertencimento. O ciúme e a inveja são evidentes, mas poderiam até adquirir certa legitimidade quando ele descobre que todos ao redor estão sendo enganados.

Só que Danny ressalta algo essencial sobre Gerry: sua crueldade começou antes de descobrir toda a verdade. Ele levanta suspeitas sobre Ricky e sugere que existe algo entre ela e Chad — e, ironicamente, não está completamente distante da realidade. Também persegue Danny, o ameaça e consegue sua demissão quando descobre que foi ele quem provocou sua lesão. O fato de Danny realmente ter feito aquilo torna tudo ainda mais complicado, porque Gerry é vítima e agressor ao mesmo tempo.

É justamente aí que está o ponto. Ter razão sobre a injustiça sofrida não torna legítimo tudo aquilo que fazemos depois dela. Quando Gerry finalmente descobre quem Chad realmente é, não usa a verdade para restaurar justiça ou proteger o time. Ele passa para a chantagem. A revelação que poderia colocá-lo moralmente acima de Russ apenas oferece uma arma mais poderosa para um ressentimento que já existia.

Depois, ele desmorona. A máscara quebrada de Chad passa a ter quase a dimensão de um objeto persecutório. Gerry segura literalmente os pedaços do falso rosto do homem que tomou seu lugar. Ele sabe algo que todos os outros ignoram e, ao mesmo tempo, vê aquelas mesmas pessoas continuarem conversando, confiando e gostando de Chad. Sem transformar isso em diagnóstico clínico, existe um registro quase psicótico na maneira como a temporada representa sua desorganização. A realidade de Gerry começa a ser dominada por Chad. A verdade não o liberta. Ela o desestabiliza ainda mais.

Nate também não inventou tudo aquilo que sentia

Nate é muito mais complexo porque seu ressentimento nasce de uma história anterior a Ted. Quando o conhecemos, ele é invisível, ridicularizado, inseguro, diminuído e desesperadamente dependente de reconhecimento. Em casa, existe ainda a sombra de um pai cuja aprovação parece sempre inalcançável.

Ted faz algo revolucionário para Nate: ele o vê. Reconhece seu talento, escuta suas ideias e o leva para a comissão técnica. E Nate realmente é muito bom no que faz. Esse detalhe importa porque parte de sua frustração não é imaginária. Ted continua sem dominar vários aspectos técnicos do futebol. Nate sabe que algumas vitórias dependem diretamente de suas decisões, enquanto é Ted quem recebe grande parte do reconhecimento público. Depois, Roy chega à comissão técnica carregando imediatamente uma autoridade que Nate levou muito tempo para conquistar.

Existe, portanto, uma queixa legítima. O problema é o que acontece quando essa queixa encontra uma fragilidade narcísica já enorme. Quanto mais Nate descobre que é talentoso, menos tolera continuar ocupando uma posição secundária. O reconhecimento que inicialmente parecia suficiente precisa ser constantemente renovado. Quando Ted deixa de ser aquele olhar exclusivo que o confirma, Nate sente novamente que está desaparecendo.

A inveja se transforma em recalque, e a insegurança se cobre de grandiosidade. Nate começa a acreditar que não é apenas bom, mas injustiçado porque os outros não reconhecem suficientemente o quanto ele é bom. E daí nasce a crueldade.

Mas Ted Lasso dedica muito tempo a ele. Permite que Nate traia, machuque, abandone Richmond, busque poder e, posteriormente, tente reconstruir aquilo que destruiu. Há espaço para redenção. E existe uma diferença importante: Ted nunca chega propriamente a puni-lo.

Alice é uma comparação ainda mais incômoda

Alice Chilton entra nessa equação de maneira fascinante porque suas frustrações talvez sejam ainda mais complexas. Ela teve uma carreira de jogadora interrompida pelas lesões, precisou reconstruir sua relação com o futebol por outro caminho e, quando finalmente surge a possibilidade de avançar profissionalmente, existe ainda uma questão que Gerry e Nate nunca enfrentaram da mesma maneira: ela é uma mulher tentando crescer dentro de uma estrutura historicamente construída por homens.

Alice foi preterida. Portanto, quando começa a ressentir Ted, não estamos simplesmente diante de alguém com inveja porque outro recebeu mais atenção. Existe perda, existe frustração profissional, existe o luto por uma carreira que o próprio corpo interrompeu e existe ainda uma desigualdade de gênero absolutamente real.

Nada disso justifica o momento em que Alice começa a descarregar sua frustração sobre as jogadoras e usa sua posição para humilhá-las. Mas torna seu comportamento muito mais complicado do que uma simples repetição de Nate.

E é justamente aí que Ted surpreende. Ele a suspende.

Ted aprendeu com Nate. Mas há uma ironia nisso

A primeira leitura é provavelmente a que a própria série deseja que façamos: Ted aprendeu com Nate. Na primeira vez, acreditou que bondade, espaço, acolhimento e paciência seriam suficientes. Não percebeu, ou não quis perceber, quando a dor de Nate estava começando a se transformar em crueldade. Agora reconhece o padrão antes.

Com Alice, ele estabelece um limite. E isso é crescimento. Ted finalmente parece compreender algo essencial: entender por que alguém machuca os outros não significa permitir que continue fazendo isso. Empatia não precisa significar permissividade.

Há, porém, uma ironia difícil de ignorar. Nate teve muito tempo para errar. Foi compreendido, acolhido e praticamente nunca disciplinado por Ted. Mesmo depois de demonstrar ressentimento e agressividade, recebeu espaço para continuar seguindo seu caminho até que ele próprio rompeu com Richmond. Mais tarde, quando começou sua redenção, novamente recebeu compreensão.

Alice é punida.

Isso não significa necessariamente que Ted esteja errado. A suspensão pode ser absolutamente correta. Mas a pergunta permanece: por que o limite que ele não conseguiu estabelecer com Nate aparece justamente quando a pessoa diante dele é uma mulher?

Talvez a resposta seja simplesmente cronológica. Nate veio primeiro, Ted aprendeu com ele, e Alice recebe a consequência desse aprendizado. Ainda assim, narrativamente, a escolha é provocadora. A mulher cuja carreira já foi limitada pelo próprio corpo e por estruturas masculinas é justamente aquela com quem Ted finalmente descobre a necessidade da autoridade.

Não precisamos concluir imediatamente que exista sexismo na atitude de Ted. Mas seria um desperdício não perceber a assimetria.

Três ressentimentos, três caminhos

É por isso que Gerry não é simplesmente “o Nate de Chad Powers”, assim como Alice não pode ser reduzida à “nova Nate”. Os três começam em lugares diferentes, têm motivos diferentes e transformam suas frustrações de maneiras também diferentes.

Gerry sofreu uma injustiça real, mas já demonstrava disposição para destruir quem ameaçasse seu lugar antes de conhecer toda a verdade. Quando finalmente consegue a prova de que estava sendo enganado, transforma justiça em vingança.

Nate possui talento real e razões concretas para sentir que parte de seu trabalho não recebia o devido reconhecimento. Mas suas antigas feridas transformam uma reivindicação legítima em necessidade insaciável de validação.

Alice perdeu uma carreira, precisou reinventar outra e ainda encontra uma barreira que os dois homens nunca precisaram enfrentar: o gênero. Quando sua frustração começa a virar abuso de poder, porém, é interrompida imediatamente.

E talvez seja justamente aqui que Ted Lasso esteja amadurecendo. A série sempre foi extraordinária em explicar de onde vem a crueldade. Agora parece começar a perguntar algo mais difícil: compreender alguém significa até onde?

Porque a origem de uma ferida pode explicar um comportamento. Não necessariamente o absolve.

O primo mais sombrio de Ted Lasso

Chad Powers leva essa mesma discussão para um território muito mais fantástico. Nate olha para o espelho e tenta criar uma nova versão de si mesmo. Alice ainda está no começo daquilo que poderá se tornar sua transformação, ou talvez sua correção. Gerry olha para a máscara quebrada de outra pessoa e começa a perder a própria estabilidade.

Talvez seja essa a melhor maneira de compreender o parentesco entre as duas séries. Ted Lasso continua acreditando que pessoas feridas podem mudar, mas parece finalmente admitir que o amor também exige limites.

Chad Powers faz uma pergunta mais sombria: o que acontece quando alguém realmente foi enganado, mas a verdade apenas revela aquilo que já existia de pior dentro dele?


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