Elizabeth Holmes passou anos convencendo investidores, jornalistas e homens poderosos de que poderia revolucionar a medicina. Nathan Fielder construiu uma carreira convencendo pessoas reais a entrar em experiências nas quais jamais sabemos exatamente onde termina a verdade e começa a encenação. Colocar os dois diante de uma câmera não poderia resultar em um documentário convencional.
A pergunta de You Can See Everything não é apenas se Holmes continua mentindo. É descobrir quem está manipulando quem.

Quem é Elizabeth Holmes?
Elizabeth Holmes abandonou Stanford e fundou a Theranos com a promessa de realizar centenas de exames a partir de uma única gota de sangue. Jovem, loura, vestida com uma gola alta preta copiada de Steve Jobs e falando com uma voz estranhamente grave, ela foi apresentada como o futuro do Vale do Silício. A empresa chegou a ser avaliada em cerca de 9 bilhões de dólares.
O problema era simples e gravíssimo: a tecnologia não funcionava como prometido. Depois que a fraude foi exposta, a Theranos desmoronou; Holmes foi julgada e, em 2022, condenada por enganar investidores. Em maio de 2023, começou a cumprir uma sentença superior a 11 anos em uma prisão federal do Texas.
Sua história já havia se transformado em fenômeno cultural. Em 2019, o documentário da HBO, The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley, de Alex Gibney, ajudou a apresentar o caso ao grande público. Na mesma época, o podcast investigativo The Dropout, da jornalista Rebecca Jarvis, reconstruiu a ascensão e a queda da Theranos e acompanhou posteriormente o julgamento.
Ainda sob o impacto da pandemia, em 2022, Amanda Seyfried interpretou Holmes na minissérie The Dropout. A atriz reproduziu a voz, o olhar fixo e os gestos calculados da empresária, venceu o Emmy e reforçou o fascínio em torno de uma pergunta que permanece sem resposta: quem é a verdadeira Elizabeth Holmes quando não está interpretando Elizabeth Holmes?

E quem é Nathan Fielder?
Nathan Fielder é justamente o pior — ou o melhor — homem diante de quem tentar controlar uma narrativa. Em Nathan for You, ele apresentava soluções absurdamente elaboradas para salvar pequenos negócios. Em The Rehearsal, recriou casas, restaurantes e situações inteiras para permitir que pessoas comuns ensaiassem conversas e decisões importantes antes de vivê-las.
Seu humor nasce do constrangimento, dos silêncios e da dúvida. Fielder interpreta uma versão de si mesmo tão impassível que nem sempre conseguimos saber se ele perdeu o controle da experiência ou se o desconforto provocado fazia parte do plano desde o início.
Em You Can See Everything, codirigido com Lance Oppenheim, ele encontra uma adversária à altura.

De onde surgiu o documentário?
O projeto começou 34 dias antes de Holmes entrar na prisão. Ela e seu companheiro, Billy Evans, procuravam cineastas dispostos a registrar seus últimos dias em liberdade. Escolheram Fielder porque o consideravam, assim como eles, um “pensador não convencional”.
Talvez tenham imaginado que conseguiriam usá-lo para apresentar outra Elizabeth Holmes: não a fraudadora de gola alta e voz grave, mas a mãe de duas crianças pequenas, separada dos filhos por uma condenação que ainda considera injusta.
Fielder e Oppenheim receberam acesso extraordinário à casa, aos pais de Holmes, às crianças e às conversas do casal. O trabalho foi mantido em segredo durante três anos e revelado em uma sessão-surpresa do Festival de Telluride. Os celulares foram recolhidos para impedir vazamentos. Ao final, críticos saíram descrevendo o filme como hipnótico, perturbador, hilário, absurdo e diferente de qualquer documentário que já tivessem visto.
A reação não vem apenas da presença de Holmes. Vem da suspeita de que a tentativa de reabilitar sua imagem se transforma lentamente em outra coisa.
O que parece acontecer? A partir daqui, spoilers
No início, a câmera quase consegue despertar alguma compaixão. Holmes está prestes a deixar os filhos e parece concentrada em aproveitar os últimos dias com a família. No entanto, a fachada começa a rachar.
Em uma das cenas mais comentadas, Fielder mostra a ela o clássico número cômico Who’s on First?, de Abbott e Costello. Holmes afirma nunca tê-lo visto, não entende por que é engraçado e continua sem compreender mesmo depois da explicação. É uma reação genuína ou mais um comportamento calculado para a câmera? Nem Fielder parece saber.
Billy então explica que a companheira é “estranha”, que processa as coisas de maneira diferente e que essa seria uma das razões pelas quais a considera brilhante. É também um dos primeiros sinais de que o documentário pode não ser apenas sobre Holmes.
Ela chega a assistir a cenas de The Dropout. Irrita-se quando o aparelho da Theranos quebra diante dos funcionários porque insiste que aquilo não aconteceu. Em outro momento, fica emocionalmente abalada ao ver Sunny Balwani, seu ex-companheiro e executivo da empresa, preparando-a para uma reunião com investidores.

A conversa mais reveladora acontece quando Fielder pergunta se a máquina da Theranos realmente funcionava. Holmes argumenta que a patente e o conceito eram válidos, refugiando-se numa disputa de palavras para não admitir o essencial: o equipamento construído pela empresa não fazia aquilo que ela prometera.
Mas a surpresa maior pode ser Billy Evans. Segundo os críticos, ele ocupa cada vez mais espaço, tenta conduzir as conversas e se transforma numa presença invasiva e desequilibrada. Enquanto Holmes se preparava para a prisão, os dois ainda faziam ligações em busca de investidores para uma nova startup de biotecnologia baseada em testes rápidos para doenças. Sim, algo desconfortavelmente parecido com a Theranos.
Depois da prisão, o filme continua acompanhando Billy e as tentativas de comunicação com Holmes. O que começou como o retrato dos últimos dias de uma condenada passa a observar um homem aparentemente empenhado em controlar a empresa, a imagem pública da companheira e o próprio documentário.
Há ainda uma aparição que os diretores pediram aos críticos que não revelassem. Sabemos apenas que é um rosto conhecido do universo de Holmes. Quem assistiu descreve o momento como estarrecedor e afirma que a surpresa deve ser preservada.

Quem manipula quem?
Holmes parece acreditar que convidou as câmeras para recuperar a autoria sobre a própria história. Billy parece imaginar que pode transformar o filme numa campanha de reabilitação e talvez até numa vitrine para um novo negócio. Fielder observa tudo com o rosto imóvel de sempre, embora admita que ainda não compreende completamente o que testemunhou.
Eis o grande fascínio de You Can See Everything. Elizabeth Holmes passou a vida criando personagens: a menina prodígio, a sucessora de Steve Jobs, a revolucionária da medicina, a empresária injustiçada e agora a mãe separada dos filhos. Nathan Fielder, por sua vez, trabalha expondo o momento em que realidade e performance se tornam inseparáveis.
Talvez ele seja o único homem capaz de vencê-la porque não tenta arrancar uma confissão. Apenas deixa Elizabeth Holmes continuar falando — e permite que ela construa diante da câmera sua próxima invenção: Elizabeth Holmes.
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