ATENÇÃO: este texto contém spoilers importantes de Shift e Dust e pode antecipar elementos da quarta temporada de Silo
Depois de três temporadas de Silo, aprendemos a olhar para o Silo 18 como o grande problema do sistema. É ali que Juliette se recusa a aceitar as respostas que lhe dão, que as mentiras começam a desmontar e que uma comunidade inteira gradualmente percebe que sua história não é aquela que lhe ensinaram. Só que, nos livros de Hugh Howey, outra comunidade chegou muito perto de destruir esse mecanismo décadas antes. O Silo 40 não apenas se rebelou. Ele fez algo muito mais perigoso: aparentemente descobriu como o sistema funcionava e começou a desmontá-lo por dentro.
É por isso que, depois de falar sobre o possível spin-off e sobre a importância do Silo 40, sobra uma pergunta ainda melhor: como ele conseguiu enganar o Silo 1?
A resposta mais correta é frustrante e fascinante ao mesmo tempo: sabemos bastante sobre o que aconteceu, mas Hugh Howey nunca explicou completamente como aconteceu. E agora sabemos por quê. O autor está trabalhando justamente na história que deve preencher esse enorme espaço deixado entre Shift e Dust.

Tudo começa quando um silo simplesmente desaparece
Em Shift, descobrimos que pouco mais de um ano antes de Donald ser acordado novamente, o Silo 40 havia praticamente desaparecido da rede controlada pelo Silo 1.
A suspeita era de que o chefe de TI tivesse se rebelado. Faz sentido: dentro da estrutura criada pelos fundadores, poucas pessoas possuíam conhecimento técnico suficiente para compreender as comunicações e, principalmente, perceber que aquele silo fazia parte de uma estrutura muito maior. Mas ele não teria simplesmente desligado o telefone.
O Silo 40 teria conseguido interferir em sua antena, estabelecer comunicação com outras comunidades e sabotar os mecanismos usados pelo Silo 1 para controlá-lo. Quando Donald é informado da dimensão do problema, já não estamos falando apenas de um silo rebelde. Onze silos haviam saído da rede normal de comunicação. É aqui que a rebelião do Silo 40 se torna muito mais perigosa do que tudo o que vimos inicialmente no 18.
O princípio fundamental do projeto sempre foi o isolamento. Cada população deveria acreditar que era praticamente a única comunidade restante, sem saber quem estava ao lado, muito menos poder conversar com essas pessoas. A própria arquitetura dos silos é baseada nisso: cinquenta experiências humanas paralelas, supervisionadas por uma única central, sem possibilidade de comparação.
O Silo 40 quebra exatamente essa regra. Uma população descontente pode ser controlada. Onze populações trocando informações começam a formar uma rede. E uma rede pode perceber que o problema não está dentro de nenhum daqueles silos. Está em quem os controla.
O Silo 1 tinha um botão para apagar comunidades inteiras
Uma das revelações mais brutais de Shift e Dust é que o Silo 1 não foi criado apenas para observar as demais comunidades. Ele pode eliminá-las.
Se determinado silo se torna impossível de recuperar, existem mecanismos de segurança capazes de provocar sua destruição. O sistema foi projetado para preservar o projeto, não necessariamente as pessoas.
Esse detalhe muda tudo quando pensamos no Silo 40. A primeira reação não foi enviar soldados, negociar ou tentar recuperar os rebeldes. Foi acionar os protocolos de terminação. Só que alguma coisa havia sido alterada. As salvaguardas tinham sido sabotadas e o Silo 1 sequer conseguia confirmar se suas ordens estavam funcionando.
Isso explica por que a crise foi tão grave. Thurman, Victor e Erskine precisaram ser despertados, e Anna também entrou na operação. Aquilo não era mais uma revolta local. Era uma falha estrutural do sistema. E há uma diferença fundamental entre o que acontece normalmente com um silo condenado e o que acaba acontecendo com o 40.
Donald termina autorizando uma operação militar para bombardeá-lo. Pense no que isso significa: os homens que construíram um sistema capaz de destruir suas próprias comunidades remotamente chegaram à conclusão de que, naquele caso, não podiam confiar no próprio sistema. O Silo 40 havia feito alguma coisa extraordinária.

Mas quem ensinou os outros silos a desaparecer?
É justamente aqui que Howey interrompe a explicação. Sabemos que o Silo 40 abriu uma comunicação proibida. Sabemos que outros silos começaram a desaparecer da rede. Sabemos que mecanismos de segurança foram sabotados. Não sabemos exatamente quem fez tudo isso, quanto cada comunidade sabia ou até que ponto existia uma rebelião coordenada. E a pergunta mais interessante talvez seja outra: o que o chefe de TI do Silo 40 descobriu?
Porque desligar uma comunicação é uma coisa. Perceber que existe um Silo 1, entender de onde chegam as ordens, localizar sistemas ocultos e descobrir mecanismos programados para matar sua própria população exigem um nível completamente diferente de conhecimento. Alguém abriu a caixa-preta. E depois começou a ensinar os vizinhos.
A conexão ainda mais estranha com o Silo 17
A história fica mais complicada quando chegamos aos nanorrobôs.
Nos livros, os famosos “good nanos” são fundamentais para explicar como algumas pessoas sobrevivem a situações aparentemente impossíveis. Hugh Howey confirmou posteriormente que o Silo 17 recebeu uma enorme quantidade desses nanorrobôs benéficos vindos do Silo 1 e acrescentou um detalhe importantíssimo: o Silo 40 ajudou nessa operação.
É isso que contribui para explicar a sobrevivência de Solo naquele ambiente e, mais tarde, a capacidade de Juliette e outros moradores de atravessarem o mundo exterior. Mas estamos novamente diante de um enorme buraco narrativo. Como um silo que deveria estar isolado e sob ataque conseguiu interferir numa operação do próprio Silo 1? Howey nunca mostrou. Essa é provavelmente uma das maiores histórias ainda não contadas de todo o universo de Silo.
E sabemos que o bombardeio não resolveu tudo
Durante muito tempo, seria perfeitamente possível encerrar a história dizendo que Donald mandou bombardear o Silo 40 e que a rebelião terminou ali.
Só que o próprio Hugh Howey já revelou que isso não aconteceu. O Silo 40 foi destruído, mas alguns de seus habitantes sobreviveram e chegaram a outros silos.
Novamente: como? Não sabemos. Talvez tenham escapado antes do ataque. Talvez existissem rotas ou mecanismos que desconhecemos. Talvez outros silos da rede rebelde tenham ajudado. Talvez aquilo que o Silo 1 interpretou como destruição nunca tenha sido exatamente o que parecia.
Qualquer resposta agora seria especulação. E é justamente esse o material que Howey pretende explorar ao voltar ao Silo 40.
A verdadeira revolução começou antes de Juliette
Isso também muda um pouco a maneira como enxergamos Juliette.
Ela continua sendo a personagem central da saga e a pessoa através da qual finalmente vemos o sistema ruir. Mas não foi necessariamente a primeira a compreender que aquele mundo era uma mentira.
Décadas antes, alguém aparentemente percebeu que a melhor maneira de derrotar o Silo 1 não era subir as escadas e abrir a porta. Era quebrar a informação. Conversar com quem estava proibido de conversar. Comparar versões. Desligar sistemas de vigilância. Impedir que a autoridade soubesse o que estava acontecendo. E, sobretudo, fazer outras comunidades perceberem que não estavam sozinhas. Talvez por isso o Silo 40 seja tão fascinante.
O Silo 18 nos contou a história da rebelião. O Silo 40 pode nos contar a história da resistência organizada.

E agora precisamos observar a quarta temporada
A adaptação da Apple já alterou suficientemente os livros para que seja impossível dizer que todos esses acontecimentos chegarão à televisão da mesma maneira. A terceira temporada mostrou isso de forma definitiva ao transformar Daniel/Troy, Helen, Victor e a própria origem dos silos em algo muito mais emocional e detalhado. Mas existe agora um número que merece nossa atenção: 40.
Se a quarta temporada mencionar uma comunidade que parou de responder, uma comunicação inesperada, uma falha nos sistemas do Silo 1 ou uma interferência que Daniel/Troy não consegue explicar, talvez não estejamos vendo apenas mais uma peça da conclusão.
Podemos estar assistindo ao começo da próxima história. Porque Juliette ainda precisa derrubar o sistema. Mas alguém pode ter começado a quebrá-lo muito antes dela.
Acho que esta fica ótima para terça ou quarta, deixando alguns dias de distância da primeira. E eu guardaria a terceira, “Os good nanos: o segredo que explica Solo, o Silo 17 e talvez o final de Silo”, para mais para o fim da semana ou a próxima: ela já nasce deste texto, mas tem assunto suficiente para andar completamente sozinha.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
