Biopic de Fred Astaire finalmente encontra Adele e Ginger

Há cinco anos acompanho a cinebiografia de Fred Astaire com Tom Holland e, entre anúncios, mudanças, longos silêncios e a inevitável pergunta sobre quando — ou mesmo se — o filme sairia do papel, nenhuma atualização foi tão importante quanto esta. Margaret Qualley será Adele Astaire, enquanto Sabrina Carpenter interpretará Ginger Rogers. Finalmente sabemos quem estará dos dois lados de Fred Astaire e, mais importante, começamos a entender que filme o diretor Paul King pretende fazer.

Porque esta nunca deveria ser apenas uma cinebiografia sobre um dos maiores bailarinos que o cinema já conheceu. Fred Astaire teve duas grandes parcerias que dividiram sua vida artística quase perfeitamente entre o antes e o depois de Hollywood. A primeira foi com a irmã mais velha, Adele, com quem dançou desde criança e se transformou em estrela da Broadway e do West End muito antes de alguém imaginar Top Hat, Swing Time ou Ginger Rogers. A segunda, claro, foi justamente Ginger, com quem faria dez filmes e criaria algumas das imagens mais indestrutíveis da história do musical americano.

A escolha de Margaret Qualley é especialmente interessante porque Adele Astaire corre o risco de ser tratada hoje apenas como “a irmã de Fred”. Na época, era muito mais do que isso. Os Astaire eram uma dupla, e Adele tinha uma personalidade de palco tão forte que críticos contemporâneos frequentemente destacavam seu magnetismo. Um ensaio da Library of Congress sobre a gravação de Fascinating Rhythm, feita pelos irmãos em 1926, descreve Adele como uma dançarina naturalmente graciosa e cômica, mas observa que ainda maior do que sua dança era a força de sua personalidade. Fred era o parceiro mais contido, disciplinado e inventivo; Adele, a explosão.

É justamente aí que Paul King parece ter encontrado o coração do filme. O roteiro, escrito por King e Steven Levenson, parte do livro The Astaires: Fred & Adele, de Kathleen Riley, que também participa do projeto como consultora. E o próprio diretor chamou atenção para aquilo que talvez seja o maior desafio cinematográfico dessa história: Fred deixou sua dança registrada para sempre, enquanto não sobrevive nenhuma filmagem de Adele dançando. Qualquer Adele que veremos terá, portanto, de ser reconstruída a partir de fotografias, relatos, críticas e registros escritos.

Isso muda completamente a perspectiva do filme. Antes de Fred Astaire se tornar aquele homem aparentemente sem peso que atravessava salões, paredes e escadas no cinema, existiram Fred e Adele. Foram estrelas em Nova York e Londres, trabalharam com George e Ira Gershwin e ajudaram a definir o musical dos anos 1920. Quando Adele abandonou os palcos em 1932, após se casar, Fred teve de descobrir quem seria artisticamente sem a parceira com quem havia passado praticamente toda a vida. Hollywood viria depois.

E então aparece Ginger Rogers. Sabrina Carpenter será responsável pela parte da história que todos reconhecemos imediatamente. Fred e Ginger começaram a dançar juntos no cinema em Flying Down to Rio, de 1933, fizeram nove filmes ao longo dos anos 1930 e voltaram a se reunir uma última vez em The Barkleys of Broadway, em 1949. Não inventaram apenas uma parceria de dança; inventaram uma maneira de filmá-la. Astaire queria o corpo inteiro visível, o mínimo possível de cortes e uma câmera que deixasse a dança acontecer diante dela. Na tela, os dois transformavam técnica brutal em facilidade. Parecia simples justamente porque não era.

Por isso o anúncio das duas atrizes ao mesmo tempo é tão revelador. Adele representa o Fred antes de Fred Astaire. Ginger representa o Fred Astaire que o cinema eternizou. Uma ajudou a formar sua linguagem; a outra permitiu que essa linguagem chegasse às telas e se tornasse imortal. Colocar Margaret Qualley e Sabrina Carpenter ao redor de Tom Holland sugere que King não está interessado apenas em seguir cronologicamente a vida de um astro, mas em mostrar como um artista se transforma quando perde uma parceria e encontra outra.

Também não é detalhe que Margaret Qualley tenha sido escolhida para Adele. Qualley traz uma relação real com a dança, algo que seu trabalho já explorou algumas vezes, mas terá diante de si uma dificuldade curiosa: não poderá simplesmente “imitar” Adele, porque não há Adele para imitar. Terá de construir uma dançarina que sabemos ter sido extraordinária sem a segurança de uma filmagem original dizendo exatamente como ela se movia. Talvez seja justamente essa ausência que permita ao filme devolver a Adele um lugar que a história do cinema acabou roubando dela.

Sabrina Carpenter enfrenta problema quase oposto. Ginger Rogers existe em abundância diante dos nossos olhos. Cada passo pode ser revisto, comparado e analisado. E qualquer atriz que aceite interpretá-la enfrenta ainda aquele velho equívoco de imaginar que Ginger servia apenas como moldura para Astaire, quando a química funcionava precisamente porque ela lhe oferecia resistência, humor, sensualidade e personalidade. A dança entre eles era também atuação.

Há ainda uma ironia impossível de ignorar. Fred Astaire foi notoriamente contrário à ideia de ver sua vida transformada em filme e chegou a dizer que não queria sua história interpretada na tela. Décadas depois, a cinebiografia avança agora com o apoio de sua filha, Ava Astaire McKenzie, enquanto o neto Tyler McKenzie participa como consultor e coprodutor. Ava afirmou que considera a história da parceria do pai com Adele em boas mãos com a equipe reunida para o projeto.

Tom Holland anunciou em 2021 que interpretaria Astaire. Desde então, o filme atravessou anos suficientes para que fosse razoável desconfiar de que pudesse se transformar em mais uma daquelas cinebiografias permanentemente “em desenvolvimento”. Agora, com Paul King na direção, um roteiro definido, a família envolvida e, finalmente, Adele e Ginger escolhidas, o projeto ganhou outra consistência. Holland disse recentemente que as filmagens devem começar no início de 2027.

Demorou cinco anos, mas talvez agora possamos parar de falar sobre “o filme de Fred Astaire com Tom Holland” e começar a falar sobre algo muito mais interessante: o filme sobre Fred, Adele e Ginger, e sobre as duas parcerias que construíram Fred Astaire.


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