De Françoise Hardy a Sienna Spiro: o vestido de Rabanne

Quando Sienna Spiro subiu ao palco do VMA com um minivestido prateado feito de placas metálicas, a referência a Paco Rabanne foi evidente. Pensei primeiro em Françoise Hardy, uma das artistas que ajudaram a tornar suas criações famosas nos anos 1960 e que a própria Sienna já citou entre suas referências de estilo. Mas, olhando melhor para a roupa usada na apresentação de “Great Expectation”, há outra imagem ainda mais próxima: Sylvie Vartan cantando em 1991 com um vestido prateado de Rabanne.

A história começou antes das duas. Em 1966, Rabanne apresentou em Paris uma coleção de doze vestidos que chamou de “impossíveis de usar”. Em vez de cortar e costurar tecidos, ele unia peças de plástico por argolas de metal. Era uma maneira diferente de construir uma roupa, vinda de alguém que havia estudado arquitetura e começado a carreira desenhando acessórios. Nos anos seguintes, placas de alumínio e malhas metálicas também entraram em suas criações, dando forma a vestidos que pareciam joias e armaduras ao mesmo tempo.

Françoise Hardy usou diferentes versões daquela ideia, mas nenhuma ficou tão conhecida quanto a peça criada para ela em 1968. Feito de mil placas de ouro, com 300 quilates de diamantes na gola, o minivestido foi apresentado numa exposição de diamantes em Paris e ganhou o apelido de “vestido mais caro do mundo”. Segundo a Vogue britânica, exigiu 2.000 horas de trabalho. Hardy apareceu com escolta armada e foi fotografada ao lado de Rabanne e Salvador Dalí, numa cena em que o brilho e a ostentação da roupa contrastavam com sua presença discreta.

Por isso, perguntar quantas cópias do vestido foram feitas não leva a um número confiável. A peça de ouro foi criada especialmente para Hardy, mas Rabanne desenhou muitos outros vestidos de discos e placas unidos por argolas. Um exemplar de alumínio de 1967 pertence hoje ao acervo do Metropolitan Museum of Art. Há peças originais, modelos posteriores da própria marca e releituras que evocam a imagem de Hardy sem reproduzir o vestido que ela usou.

Sylvie Vartan ocupa um lugar especial nessa trajetória. Em seu retorno aos palcos, em 1991, ela vestiu uma criação metálica de Rabanne que remetia à roupa usada por Hardy, sua amiga. Na fotografia, vemos as placas prateadas, as alças largas e a silhueta curta de uma roupa pensada para ser vista em cena. É esse encontro entre o metal e a performance que reaparece com mais clareza no figurino de Sienna. Mais recentemente, Gigi Hadid seguiu outro caminho ao usar uma versão dourada que lembrava diretamente o vestido de Hardy.

A criação do Agro Studio para Sienna foi associada a um modelo de Rabanne de 1967. Não é uma cópia da roupa de Sylvie, assim como a roupa de Sylvie não era uma cópia do vestido de ouro. Ainda assim, colocar as imagens lado a lado mostra por que aquela invenção continua tão atraente para cantoras. As placas refletem a luz, acompanham o movimento e fazem da roupa parte da apresentação.

No caso de Sienna, a escolha também conversa com a identidade que ela vem construindo. Seu cabelo, sua maquiagem e muitas de suas referências musicais remetem aos anos 1960; Hardy está entre as mulheres cujo estilo ela admira. O vestido prateado poderia ter sido apenas uma homenagem vistosa, mas parecia a cara dela. Rabanne imaginou uma roupa para uma mulher do futuro. Quase sessenta anos depois, Sienna subiu ao palco e fez essa mulher cantar com a sua própria voz.


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