Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo no quarto episódio da sexta temporada de Slow Horses, e terminei com o coração apertado. É um ótimo episódio, daqueles em que mal conseguimos respirar entre uma ameaça e outra, mas também fica mais evidente o desafio de reunir dois livros numa mesma temporada. Acompanhamos duas histórias que parecem correr em paralelo, e parte da tensão vem justamente de tentar entender onde elas se encontram. Frank Harkness, os assassinos russos, as decisões de Diana e o retorno de Sid envolvem os mesmos personagens, mas os interesses por trás de cada movimento ainda precisam ser separados.


Lamb avança usando Reece para provocar uma reação de quem contratou seu pai para roubar os arquivos do Park. A exigência de dinheiro chega a Damien Cantor, que aciona Frank, e o encontro no Shake Shack coloca frente a frente dois homens que conhecem muito bem os mecanismos desse mundo. Lamb quer descobrir se Harkness está por trás dos ataques aos seus agentes, enquanto Frank procura controlar a conversa e avaliar o que o adversário sabe. A presença dos homens de Harkness e a descoberta de Reece nas proximidades tornam a situação ainda mais perigosa, até que Lamb transforme uma confusão pública numa oportunidade de escapar com o menino. w
Essa cena entre Lamb e Harkness é, para mim, a melhor coisa da temporada. Gary Oldman e Hugo Weaving dão ao encontro uma tensão que dispensa qualquer confronto físico para funcionar. O prazer está no diálogo, nas provocações e na percepção de que cada um tenta descobrir onde pode atingir o outro. Quando Frank menciona ter conseguido rastrear Lamb em Berlim, onde ele usava outro nome, a conversa ganha uma dimensão especialmente perturbadora. Depois da revelação das cicatrizes de Lamb no final da quinta temporada, sabemos que aquele passado carrega um trauma muito pessoal. A referência merece uma discussão à parte, mas já acrescenta ao encontro a sensação de que Harkness conhece mais do que Lamb gostaria.
Enquanto Lamb tenta esclarecer o papel de Frank, a operação em Kazan ajuda a explicar a perseguição aos pangarés. Uma mulher ligada à inteligência russa foi assassinada, e o GRU quer responder à ação atribuída aos britânicos. O problema é que alguém usou a identidade de Sid, fazendo dela a responsável por uma missão da qual não participou. A lista dos agentes de Slough House amplia essa vingança: os russos acreditam ter identificado uma unidade britânica de assassinos e passam a caçar seus integrantes, inclusive aqueles que já deixaram o departamento. Os cavalos lentos acabam pagando por uma operação que sequer conheciam.
Diana tenta manter distância da responsabilidade por Kazan, mas está cada vez mais encurralada pelas perguntas de Oliver Nash, pela pressão de Cantor e pela exigência de Vassily. Quando o russo oferece interromper os ataques em troca de Sid, ela aceita entregar a agente. É uma negociação brutal, feita enquanto Sid ainda acredita que Diana vai protegê-la. Essa diferença entre o que uma espera e o que a outra está disposta a fazer torna a tentativa de contato especialmente angustiante: Sid insiste em chegar justamente à pessoa que já concordou em sacrificá-la.


Enquanto isso, Standish, Shirley, Louisa e Moira precisam encontrar um lugar onde possam se esconder, e Lamb resolve o problema com uma provocação à altura: rouba as chaves da casa de campo de Diana e manda seus pangarés para lá. É uma das melhores ironias do episódio, porque a propriedade da chefe do MI5 vira abrigo para os agentes que estão pagando pelas consequências de uma operação ligada a ela. Com tanta coisa acontecendo nas outras frentes, esse núcleo mantém o grupo reunido e preserva o humor da série: até a escolha de um esconderijo é uma oportunidade para Lamb afrontar Diana, enquanto tenta manter os seus vivos.
A perseguição de Jim e Jane mantém River, Sid e Coe em movimento, e a passagem pelo boliche combina muito bem o humor com o perigo. River e Sid precisam de um telefone, mas conseguir acesso a ele exige enfrentar a resistência de um funcionário que está encerrando o expediente. Sid resolve a situação inventando uma emergência familiar, numa demonstração daquela facilidade para mentir que tanto irrita River. A química dos dois continua funcionando, mesmo quando o tempo para conversar é constantemente interrompido pela necessidade de fugir.
Quando os assassinos os alcançam, a situação volta a se deteriorar. River machuca a mão, e o trio acaba procurando abrigo num shopping, onde a presença de outras pessoas parece oferecer alguma proteção. É um alívio precário, porque Jim e Jane também chegam ali. Sid continua determinada a falar com Diana e usa o telefone de Coe, mas a resposta confirma o quanto sua confiança estava sendo colocada em risco: Diana manda rastrear e interromper a chamada. A tentativa de pedir ajuda permite que os assassinos a localizem e a capturem.

E então perdemos Coe. Ele percebe a presença de Jim, segue o assassino até o banheiro e o enfrenta, mas River encontra seu corpo depois do confronto. Mesmo com os spoilers que já discutimos e com o medo de que essa perda estivesse se aproximando, ver o momento chegar aperta o coração. Coe conquistou a gente com tão poucas palavras que sua ausência parece enorme. Havia algo naquele silêncio, na maneira de observar os outros e agir quando necessário, que fazia dele uma presença à qual eu já estava muito apegada.
A morte também muda o peso da negociação de Diana. Ela entrega Sid sob a promessa de que os demais serão poupados, mas a perseguição já cobra outra vida. O acordo não oferece a segurança que ela tenta comprar, e Coe paga por uma conspiração da qual não fazia parte. As fugas, as provocações e o humor continuam sendo essenciais em Slow Horses, mas terminar com River diante daquele corpo transforma toda a tensão numa perda concreta para o grupo. Saber que ela poderia acontecer não tornou o momento mais fácil.
Do outro lado da investigação, Emma Flyte segue Harkness a pedido de Lamb e descobre seu encontro com Cantor. É a ligação que aproxima as duas grandes frentes da temporada: o homem que pressiona Diana também está trabalhando com Frank, envolvido no roubo dos arquivos de Slough House. Isso ajuda a organizar a conspiração, embora ainda não elimine a sensação de operações sobrepostas, com mandantes e objetivos diferentes.
Gostei muito do episódio, mesmo precisando organizar mentalmente tudo o que aconteceu. A adaptação de Joe Country e Slough House exige atenção porque as histórias ainda preservam movimentos próprios, mas o encontro entre Lamb e Harkness mostra o quanto essa combinação pode render. O problema é terminar com uma descoberta importante para Lamb, Sid capturada e Coe morto. A investigação avança, mas o coração fica para trás, naquele banheiro onde River encontra mais alguém que não conseguiu sobreviver.
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