Contém spoilers dos dois primeiros episódios da quarta temporada de A Diplomata.
Se o primeiro episódio da quarta temporada de A Diplomata termina com a presidente dos Estados Unidos levando um tiro, o segundo começa com a consequência inevitável: caos, medo e a possibilidade de uma mudança de poder. Grace Penn (Allison Janney) foi atingida em Windsor e, enquanto os serviços de segurança tentam descobrir quem disparou, Hal Wyler (Rufus Sewell) precisa assumir temporariamente a Presidência.
É uma situação que muda tudo. Principalmente para Kate (Keri Russell), que passou boa parte dos últimos anos tentando impedir que o marido chegasse perto demais do poder.
O atentado provoca uma reação imediata. Grace, Todd e Billie Appiah (Nana Mensah) são levados a um porta-aviões americano, onde a presidente recebe atendimento médico. Hal e Kate permanecem protegidos pelas equipes de segurança no Castelo de Windsor, enquanto as autoridades britânicas começam a procurar o atirador.

Mas Grace não seria Grace se permitisse que um ferimento interrompesse seu trabalho. Mesmo prestes a entrar em cirurgia, ela conversa com Hal sobre o que deverá acontecer caso morra. Dá instruções, pensa na composição de um eventual governo e demonstra uma frieza que deixa Todd profundamente abalado.
Allison Janney é maravilhosa nesses momentos. Sua Grace pode ser autoritária, perigosa e convencida da própria superioridade, mas dificilmente perde a capacidade de raciocinar. Nem mesmo quando está prestes a ser operada.
Do outro lado da crise está Nicol Trowbridge (Rory Kinnear), primeiro-ministro britânico que consegue transformar qualquer acontecimento internacional em uma questão pessoal. Sua reação ao atentado mistura preocupação legítima, indignação e, claro, pânico diante da possibilidade de ser responsabilizado.
Uma presidente americana foi baleada em território britânico. Para Trowbridge, isso significa que alguém precisa encontrar imediatamente o culpado, antes que a opinião pública encontre um responsável mais conveniente.
É curioso como Rory Kinnear consegue transformar um político frequentemente ridículo em alguém que, ocasionalmente, demonstra humanidade. O problema é que essa humanidade dura pouco. Logo reaparece o homem preocupado com sua posição e reputação.
A investigação mobiliza diferentes órgãos britânicos, incluindo os responsáveis pelas câmeras de vigilância e pelos sistemas de transporte. Em meio aos discursos grandiosos sobre segurança nacional, são justamente os funcionários e técnicos que oferecem algumas das soluções mais práticas. Há uma ironia bastante interessante nisso: enquanto os líderes criam crises, a burocracia tenta resolver os problemas.
Mas o centro de “Redcoats” não está na investigação. Está em Hal e Kate.


Porque Hal Wyler nasceu para exercer o poder. Pelo menos é o que ele acredita.
E, para ser justa, a série mostra que ele realmente sabe o que está fazendo. Ao assumir interinamente a Presidência, demonstra conhecimento, segurança e uma capacidade impressionante de organizar prioridades. Não é apenas um homem ambicioso. É alguém que passou a vida inteira se preparando para estar exatamente naquela posição.
Rufus Sewell é excelente nessa transição. Hal não precisa fazer grandes discursos para demonstrar autoridade. Basta entrar numa reunião, compreender rapidamente o que está acontecendo e começar a tomar decisões. Só que existe um problema: Kate.
Os dois têm uma relação profissional extraordinária. Ela conhece seus impulsos, antecipa seus erros e consegue perceber quando ele está prestes a ultrapassar algum limite. Hal, por sua vez, sabe que Kate é brilhante e confia em sua inteligência. Juntos, funcionam quase como uma única máquina política. Separados, ou em desacordo, podem se tornar perigosos.
E aí aparece uma contradição fascinante. Kate, que não quis abandonar sua carreira para assumir o papel de esposa de um vice-presidente, parece perfeitamente disposta a trabalhar ao lado de Hal caso ele seja presidente. Para ele, essa diferença é pessoal. E dolorosa.
O ressentimento acumulado surge numa discussão que ultrapassa rapidamente as questões de Estado. Hal volta a questionar as escolhas da mulher, enquanto Kate lhe recorda que ele teve quinze anos para reconhecer o valor do casamento e não soube aproveitá-los.
É uma das melhores cenas dos dois episódios porque deixa evidente a complexidade dessa relação. Não estamos diante de um casal que simplesmente se ama ou se odeia. São duas pessoas que se admiram profundamente, mas também disputam espaço, reconhecimento e poder.

Kate conhece Hal tão bem que até percebe quando ele precisa comer alguma coisa para recuperar o equilíbrio. Parece um detalhe banal, mas, numa série em que decisões pessoais podem desencadear conflitos internacionais, saber quando o presidente interino está irritado por estar com fome não é exatamente uma informação irrelevante.
Há também uma questão mais séria. Billie e Hal levantam a possibilidade de Kate ter revelado a Callum alguma informação sobre o Poseidon. A suspeita é ofensiva para ela, especialmente depois de tudo o que fez para proteger o segredo. Mas é também uma pergunta que precisa ser feita diante de um atentado cuja motivação ainda é desconhecida. E Kate, naturalmente, reage mal.
Enquanto isso, Stuart Hayford (Ato Essandoh) e Eidra Park (Ali Ahn) continuam desenvolvendo seu relacionamento. Num universo em que quase todos parecem incapazes de separar interesses pessoais e profissionais, os dois oferecem uma perspectiva um pouco mais equilibrada. A possibilidade de passarem a morar juntos representa um avanço importante para o casal.
No final, Grace sobrevive à cirurgia, mas a questão de quando poderá reassumir a Presidência permanece aberta. Billie trabalha para administrar essa transição, apesar da resistência de Todd, que não esqueceu os conflitos anteriores entre a chefe de gabinete e sua mulher. Hal, por sua vez, experimentou algo que sempre desejou: o poder presidencial. E parece ter gostado.

Kate permanece em Londres, afastada do centro imediato das decisões, enquanto o marido se prepara para seguir seu caminho. É uma separação política e emocional que pode acabar sendo mais importante do que qualquer discussão sobre o casamento.
O segundo episódio não precisa de uma nova explosão para funcionar. Seu melhor momento é justamente quando diminui o ritmo e permite que Keri Russell e Rufus Sewell ocupem a cena. Os dois sustentam a série com uma química extraordinária, mesmo quando seus personagens são irritantes.
Continuo achando que A Diplomata tem um problema curioso: seus protagonistas são excelentes em identificar erros estratégicos e extraordinariamente ruins em evitar os próprios. E Debora Cahn parece se divertir muito com isso.
Com Grace hospitalizada, Hal na Presidência e o Poseidon desaparecido, os Estados Unidos estão nas mãos de um homem que acredita sempre ter razão. Pode ser uma excelente notícia para Hal Wyler.
Para o resto do mundo, não tenho tanta certeza.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
